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17 Dezembro 2011

O novo filme dos irmãos Dardenne, Jean-Pierre e Luc, é desses que em suas imagens e situações definem o cinema. Um filme deveria sempre ser a tradução para o universo visual do drama interior de cada personagem. A tela não deveria ser ocupada por figuras e objetos que não possuam função na trama narrada. Uma obra-prima é aquela na qual a situação filmada expressa toda a intensidade do drama focalizado. O verdadeiro cinema é também aquele no qual tudo gira em torno de seres humanos repassados de verdade e iluminados pelas luzes da realidade. Nesse sentido, O garoto da bicicleta é mais do que um exemplo: é uma lição e um caminho. Cyril, o personagem-título está sempre em cena, dele a câmera não se afasta e tudo aquilo que o cerca tem a função de expor visualmente sua frustração, sua ansiedade, sua agressividade e sua dor. Os Dardenne são, antes de tudo, humanistas. São artistas que contemplam o ser humano para registrar desacertos e também a procura da harmonia perdida, do cenário ideal destruído pelas forças negativas. Neste mundo devastado vivem personagens que procuram recuperar o perdido, reencontrar o gesto humano abandonado. Eles conseguem caminhar, mas é grande a dor na alma. Na magnífica e impactante cena final o acontecimento focalizado é um resumo simbólico de tudo o que antes havia acontecido ao protagonista. É a essência de uma arte, em alguns minutos.

O comentário é de Hélio Nascimento e pubicado no Jornal do Comércio, 09-12-2011.

A rejeição sofrida pelo personagem é certamente a maior delas. Padecendo da mais intensa das dores, o protagonista se recusa a aceitar o fato consumado. A direção sabe expor visualmente todo esse drama. A tentativa de ingressar no apartamento abandonado e a busca da bicicleta são temas que colocam na tela tentativas desesperadas de recuperar o perdido.  E o abraço na mulher, na cena da clínica, é outro exemplo de colocação em imagem do sofrimento do protagonista na sua tentativa de recuperação da família perdida. A mãe encontrada pode ser vista também como outro ser humano padecendo de solidão. O filho inexistente aparece, mas a nova família é logo desfeita, como se os irmãos cineastas estivessem fazendo a ação retroceder, sem recorrerem a técnicas usuais. A rejeição sofrida, no entanto, não permitirá a construção de um mundo harmônico. A agressividade é uma consequência natural.  E ela surgirá de forma violenta na preparação e na cena do assalto, quando a resposta do ser rejeitado se expressa de forma contundente.

O novo filme dos Dardenne volta então a um tema que os cineastas muito apreciam.  A vingança e o ódio como elementos geradores de destruição. É quando o filme resume de forma poderosa toda a intensidade da agressão sofrida por Cyril. O filho vingador não consegue deter sua cólera. A agressão então praticada é o gesto definitivo, a síntese. O personagem, no plano de encerramento, já não é o mesmo. O que a câmera focaliza é o futuro adulto ressentido. Ele perdeu para sempre aquela harmonia sugerida pelo adágio do quinto concerto para piano de Beethoven, que os cineastas de forma precisa utilizam. O garoto da bicicleta, entre suas virtudes, que o tornam um filme maior, tem esta de saber utilizar a música de forma tão inteligente. Aqueles acordes expressam não apenas o desejo de um mundo perfeito.  Tal trecho leva para uma linguagem que não é a das palavras este anseio por algo perdido. No filme dos Dardenne ele surge nos momentos em que o protagonista sente de forma mais intensa a rejeição. Quando a dor na alma aumenta, surge esse tema, expressando não apenas sofrimento como também o sentimento de perda. Em tais momentos, imagem e som expressam no filme o humanismo dos cineastas, que se aproximam do sofrimento de um ser humano de forma raras vezes concretizada pelo cinema. A cena do piquenique é sucedida por esta expressão de ódio e violência. O ser humano passa a carregar a dor causada pela grande agressão, enquanto a música, ausente durante quase todo o filme e só utilizada nos momentos essências, parece falar sobre a harmonia perdida.