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05 Novembro 2011

A imortalidade, que, para os ocidentais, consiste em um prolongamento indefinido da vida (e, para os cristãos, contempla o mistério glorioso da ressurreição do corpo), para o Vedanta, não se identifica com a Eternidade, não tem nada em comum com o "passado" individual e terreno. No momento da morte, o "estado sutil", a alma, acompanhada por todas as suas faculdades (como dignitários ao lado de um rei) se retira para uma essência luminosa.

A opinião é do escritor e crítico literário italiano Giorgio Montefoschi, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 31-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A raiz vid, da qual derivam as palavras Veda (os antigos textos do hinduísmo) e Vedanta, significa, ao mesmo tempo, saber e ver. O Vedanta – escreve René Guénon em seu livro fundamental L"uomo e il suo divenire secondo il Vedanta (Ed. Adelphi, 171 páginas) – é a Ciência Sagrada por excelência: uma doutrina metafísica suprema, aberta a concepções ilimitadas, como o Absoluto, não admite definições, limitações ou limites.

As Upanishads, que fazem parte do Veda, são a base fundamental do Vedanta. Tudo o que o Vedanta expressa, esse percurso de conhecimento e saber que culmina na "Libertação Final", está contido nas Upanishads.

Mas nós, ocidentais – adverte Guénon –, devemos abandonar as nossas categorias mentais com as quais, há muitos milhares de anos, definimos a vida e morte, a eternidade e Deus, se quisermos nos aproximar desse caminho e da essência desse pensamento.

Nós, ocidentais, costumamos definir: Brahma, o ser supremo do hinduísmo, está além de qualquer definição e de qualquer distinção. A sua manifestação no mundo nada mais é do que uma "ilustração", uma ilusão semelhante à miragem da água no deserto. A realidade profunda, ao contrário, é o Atma, isto é, o Espírito Universal: uma direta emanação de Brahma, que vive no mundo e no coração humano e, portanto, pode ser conhecido pelo homem.

O homem, de fato, vive em uma existência corpórea, "grosseira", e em um "estado sutil". O seu "estado sutil" – aquele que os ocidentais chamam de alma – participa do Ser Universal e tem a sua morada no centro vital do indivíduo: a saber, o coração.

Maravilhosa (mas eis que nós, cristãos, sentimos um eco de palavras lidas em outro lugar) é a descrição que a Chhandogya Upanishad faz dessa presença do Ser no coração: "A Atma que está no coração é menor do que um grão de arroz, menor do que um grão de cevada, menor do que um grão de mostarda, menor do que o germe encerrado em um grão de milho. Esse Atma que está no coração também é maior do que a terra, maior do que a atmosfera, maior do que o céu , maior do que todos esses mundos juntos". O menor é o maior. Vive em uma cavidade ínfima do ser humano: mas é imenso, indefinível, está fora do espaço e do tempo.

A imortalidade, que, para os ocidentais, consiste em um prolongamento indefinido da vida (e, para os cristãos, contempla o mistério glorioso da ressurreição do corpo), para o Vedanta, não se identifica com a Eternidade, não tem nada em comum com o "passado" individual e terreno. No momento da morte, o "estado sutil", a alma, acompanhada por todas as suas faculdades (como dignitários ao lado de um rei) se retira para uma essência luminosa. Em torno do coração, existem centenas de artérias. Uma delas atravessa a cabeça e vai para a Luz: encontra um raio de luz que nada mais é do que uma emanação de Brahma.

Assim que alcança a realidade absoluta, a individualidade desaparece com todas as suas determinações limitativas e continentes, e permanece a única personalidade na plenitude de ser. Está escrito: "O Eu daquele que alcançou a perfeição do conhecimento divino (Brahma) e que, por consequência, obteve a Liberação Final, sobe, deixando a sua forma corpórea, à luz suprema que é Brahma e a ele se identifica de maneira conforme e indivisível, como água pura, misturando-se com o lago límpido (sem, porém, se perder de algum modo), torna-se em tudo conforme a ele".

É um percurso longo. O Iogue (a palavra Ioga significa união) pode antecipar isso na terra, com a ajuda da meditação e dos ritos. Estes são instrumentos, ou "suportes": formas exteriores (que Guénon une de alguma forma aos sacramentos da religião católica) que, no entanto, contêm uma realidade divina, da qual o homem, justamente por causa da sua condição terrena, "precisa". O percurso facilitado pela meditação e pelos ritos é comparado, no Veda, ao percurso mais rápido que um homem pode fazer para alcançar uma meta, se cavalga um cavalo com sela. Mas todos – especifica-se –, em "tempos" diferentes, podem alcançar a meta.