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Por: André | 31 Agosto 2012

“Assim como a ideologia, o ateísmo ou não importa qual convicção humana, o monoteísmo corre o risco a todo o momento de ser apadrinhado pelas violências. Mas Deus não tem nada a ver com isso...”, escreve Jean-Claude Guillebaud em sua coluna na revista francesa La Vie, edição n. 3489, 12 a 18 de julho de 2012. A tradução é do Cepat.

Jean-Claude Guillebaud é jornalista, escritor e ensaísta. É autor de, entre outros livros, A tirania do prazer, A reinvenção do mundo. Um adeus ao século II e A força da convicção. Em que podemos crer, todos publicados pela Bertrand Brasil. Também O princípio de humanidade, editado pela Ideias e Letras.

Eis o artigo.

Uma ideia retorna incessantemente nos comentários midiáticos: a pretensa vocação dos três monoteísmos (judeu, cristão e muçulmano) para gerar violência. Esta ideia nunca foi tão generalizada quanto hoje. Ela tornou-se o ruído de fundo da época. É em nome desta pretensa violência que se diaboliza o religioso em geral. E o monoteísmo em particular.

Aponto, como prova, a tendência em confessionalizar a maioria dos atuais conflitos. Do Iraque ao Afeganistão, da Palestina à Irlanda do Norte, os homens fazem a guerra em nome de Deus. Aí se encontraria a verdadeira fonte da violência. Ao diabo a religião! Paremos de lhe dar crédito e a paz voltará sobre a terra.

Ora, esta ideia muito na moda não resiste ao exame. Para dizer a verdade, ela é inclusive um pouco tonta. Porque, enfim!, os sangrentos conflitos do século XX relacionavam-se a duas ideologias – stalinismo de um lado, hitlerismo de outro – que tinham em comum o fato de serem ateias. Pode-se afirmar que o conflito entre Israel e Palestina é uma guerra confessional entre o judaísmo e o islamismo? Certamente que não. Quanto aos textos sagrados, se a Bíblia e o Corão estão efetivamente cheios de relatos guerreiros, o mesmo vale para o Upanishad ou a Bhagavad-Gita que fundam não um monoteísmo mas o politeísmo hindu.

Certamente, a religião corre a todo o momento o risco de tornar-se agressiva e guerreira. A ideia de que há um só Deus e uma só verdade pode exacerbar as paixões daqueles que instrumentalizam a religião. Mas esse perigo não é exclusivo do monoteísmo. O politeísmo dos gregos cantado e recantado pelos adversários da tradição bíblica não era pacífico, longe disso. As guerras entre Esparta e Atenas que, de 431 até 404 a.C., assolaram o Peloponeso estão entre as mais selvagens. Tucídides, que venceu essas guerras, conta todo o horror. Quanto à Esparta, ela era tudo menos não violenta.

Publicado em 2009, um livro do historiador alemão das religiões Jan Assman examina essa pretensa ligação entre a violência e o monoteísmo dos povos do Livro. Aí ele responde com uma erudição iluminadora (Violence et monothéisme, Bayard). Vou citar apenas uma frase de sua conclusão: “Atualmente, após mais de 2.000 anos, é importante mostrar claramente que a violência não está absolutamente inscrita no monoteísmo como uma consequência necessária”.

Assim como a ideologia, o ateísmo ou não importa qual convicção humana, o monoteísmo corre o risco a todo o momento de ser apadrinhado pelas violências. Mas Deus não tem nada a ver com isso...