A Sagrada Família é muito humana. Artigo de Tomaso Montanari

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

20 Dezembro 2013

Hoje, Jesus e a sua família não fugiriam para o Egito, mas sim para Lampedusa: e Caravaggio, hoje, os pintaria em uma balsa.

A opinião é do historiador da arte italiano Tomaso Montanari, professor da Universidade Federico II de Nápoles. O artigo foi publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 16-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Assim como para milhões de famílias do nosso tempo, a única viagem da família de Jesus não foi uma escolha, mas sim uma obrigação: a fuga de um poder sanguinário, a busca de asilo em um país estrangeiro. Hoje, Jesus e a sua família não fugiriam para o Egito, mas sim para Lampedusa: e Caravaggio, hoje, os pintaria em uma balsa. [Na imagem ao lado, a pintura de Caravaggio: Il riposo nella fuga in Egitto, 1595-1596. Roma, Galleria Doria Pamphili.]

Sim, porque não interessava a Caravaggio a meta, mas sim a trama cotidiana da viagem: uma trama de fadiga, de estupor e de encontros. E assim ele optou por representar o momento em que a noite cai, e os viajantes param na margem do Nilo. Mas é um Nilo que relembra o Tibre, de paisagem italiana: não há uma palmeira, mas sim um maravilhoso carvalho. E as plantas de pântano, a terra, as folhas amarelas e vermelhas são as do outono pelo qual Caravaggio circulava, com o seu cachorro (chamava-se Barbone), pela campanha romana.

A história também não é oficial, distante, sagrada. Mas privada, muito próxima, cotidiana. Enquanto o papai José desmonta o saco da bagagem e o frasco de vinho fechado com papel, o burrinho abre os grandes olhos mansos diante de um duende que recém caiu do céu: um anjo garboso, com cabelos cor de outono e asas de andorinha gigante.

Esse estranho companheiro de viagem tem um violino: e o que é melhor para se conhecer do que tocar música juntos? Cada encontro – Caravaggio parece nos dizer – nos completa. Sem a música do anjo, José vigiaria sozinho e triste: sabe-se- lá quantos pensamentos, quantas perguntas, quanta angústia.

Mas se esse pobre carpinteiro sentado sobre a mala não segurasse a partitura, nem mesmo o anjo de Deus conseguiria tocar. O puro espírito nunca foi tão carne. Tão necessidade, tão fraqueza, tão ternura.

Enquanto a fantasia de José viaja sobre as vertiginosas estradas da música, Maria e Jesus aprofundam-se na viagem fantástica do sonho.

Mamãe e filho estão unidos em um corpo só de novo: como quando Jesus estava na barriga da sua mãe.

Donatello soubera representar com tanta doçura o amor de Maria pelo seu pequeno. Optando por mostrá-los em um sono tão natural e privado, Caravaggio faz-nos sentir como se estivéssemos lá, ao lado deles: quase chegamos a falar em voz baixa. Para não acordá-los. E para não perturbar a canção de ninar do violino angélico.

Talvez Maria sonhe com o retorno à paz da sua casa de Nazaré. Quem sabe Jesus sonha em construir uma humanidade em que nenhuma viagem nos torne estrangeiros.