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Por: André | 16 Abril 2013

Entre os oito cardeais nomeados pelo bispo de Roma para a reforma da cúria, há um tal de Marx... Caso queira saber algo sobre ele, aqui vai. Ironias da história: em Trier nasceu há dois séculos o ateu Karl Marx, autor de O Capital. E de Trier saiu dois séculos depois, um bispo católico também chamado R. Marx, que havia se manifestado publicamente contra a guerra do Iraque e que agora é cardeal em Munique. Este novo Marx acaba de publicar outro O Capital, com um expressivo subtítulo: “Uma defesa da humanidade”.

A reportagem é de José Ignácio González Faus e publicada em seu blog Miradas Cristianas, 15-04-2013. A tradução é do Cepat.

O bispo não manifesta muita simpatia para com seu suposto tataravô ateu. Mas tem suficiente senso de humor para abrir o livro com uma carta ao seu antepassado nominal, onde reconhece que, após tê-lo renegado, pergunta-se agora “se não foi algo prematuro ter dado por definitivamente liquidado a você e suas teorias econômicas quando o Ocidente capitalista ganhou a batalha do Oriente comunista” (p. 18); e se você não teria razão “quando anunciou, há 150 anos, que todos os povos estavam condenados a ficar enredados no mercado mundial, do qual se beneficia quase exclusivamente o capital” (22).

E proclamou outra série de coisas, as quais me parece que confluem em dois pontos:

a) também na economia, minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro; e

b) hoje somos dominados por dois imperativos à margem de toda moral e de toda humanidade: o imperativo tecnológico (aquilo que pode ser feito deve ser feito), e o imperativo econômico: “quando algo produz benefícios deve ser feito”.

Um exemplo deste último: a Zâmbia devia três milhões de dólares à Romênia por uma compra de máquinas agrícolas. Um “abutre” norte-americano (Michael Sheehan) comprou os direitos dessa dívida 20 anos depois, ao irrisório preço de três milhões. Como a Zâmbia se demorava para fazer o pagamento, Sheehan recorreu aos tribunais e o juiz condenou todo o país africano a pagar-lhe 17 milhões. “Quando um repórter da BBC lhe perguntou se não sentia remorsos por fazer negócio com a miséria dos mais pobres, Sheehan respondeu sem corar: ‘não é culpa minha. A única coisa que eu fiz foi um investimento’” (139).

O livro se alinha com Amartya Sen, com O. Nell-Breuning, a “economia social de mercado”, e a Doutrina Social da Igreja (DSI), que o bispo Marx sintetiza assim: “a solidariedade e a subsidiariedade são princípios fundamentais de configuração da sociedade” (p. 180). Não chega a colocar-se a questão de se essa DSI é inaplicável em nosso sistema e, portanto: ou é preciso mudar o sistema ou a DSI não serve para nada. Mas está próximo de reconhecê-lo quando afirma que considerar o trabalho como uma mercadoria a mais, “submetida às leis supostamente inquebrantáveis do mercado”, é incompatível com a DSI (p. 123). E nosso sistema não seria o mesmo sem essa concepção de trabalho como mercadoria submetida às leis do mercado.

Um traço positivo para o leitor europeu é que estrutura toda a luta pela justiça em torna da ideia da liberdade, muito mais audível em nosso mundo que a de justiça. Mas leiamos o que significa liberdade: “não conheço nenhum exemplo histórico em que uma economia livre de mercado, sem uma certa intervenção e regulação por parte do Estado, tenha sido benéfica em algum lugar do mundo para os pobres” (83). Ou: “quando o Estado intervém... para assistir a parte mais fraca, longe de menosprezar a liberdade, o que faz é abrir mais espaço à liberdade” (82). E essas intervenções incluem, no mínimo, “redistribuição da renda, crescimento econômico sustentado, luta contra o desemprego e proteção do meio ambiente” (95).

Instrutivo é o capítulo 6, que narra toda a crise de 1929, deixando o leitor boquiaberto ao ver como se repete a história e o quão pouco aprendemos dela. Aquela crise começou com uma bolha (não imobiliária, mas de ações), negada como tal pelos gurus econômicos da época. Começaram a ser aplicadas as mesmas políticas de hoje, com resultados igualmente calamitosos: no inglês norte-americano apareceu a palavra “hoovervilles”, que aludia ao presidente Hoover (como se hoje disséssemos Rajoyburbios), para designar os bairros criados pela enxurrada de miséria. Até que Roosevelt propôs o famoso “New Deal”, ganhou com ele as eleições de 1932 e, mesmo com erros, as coisas começaram a se ajeitar...

Hoje necessitamos de outro “new deal” em escala mundial; ouçamos: os políticos que “optam por dar prioridade aos interesses nacionais, por mais ‘compreensíveis’ que sejam, partem de uma base artificial e falsa” (264). Porque a crise atual pode não ser tão grave como a de 29, mas “a questão social” é hoje mais grave que nunca; pois já não se trata de diferenças (uns estavam em cima e outros em baixo), mas de exclusão: uns estão dentro e outros estão fora (111).

O bispo Marx fustiga o FMI por não conhecer, nem antes nem agora, senão políticas que agravam os problemas sociais (269). Denuncia “muitas faculdades de ciências econômicas onde os estudantes só aprendem a realizar complicados cálculos econométricos”, sem aprender conhecimentos fundamentais (292). E conclui: “o fantasma de Karl Marx sairá do túmulo para nos perseguir” (299), caso não formos capazes de responder ao desafio do momento, que reclama – no mínimo – acabar tanto com o desemprego da União Europeia, como com o emprego indigno dos Estados Unidos (193).

Pessoalmente, me sinto um pouquinho mais à esquerda que este novo Marx, porque na minha visão de homem não prima o aspecto individual sobre o social, mas que equipara a ambos na linha de Francisco de Vitória (para quem “o homem é mais da república do que de si mesmo”) e de E. Mounier (para quem pessoa e comunidade não crescem em ordem inversa, mas direta: a mais personalismo corresponde mais comunidade). Mas se a Igreja tivesse hoje uma longa série de prelados como este, em vez dessa espécie de “tea party episcopal” que parece buscar a cúria romana, daria ao mundo um rosto muito mais confiável do Evangelho. Assim que esperemos uma boa reforma, que atinja também o IOR.