Merkel, a menina e a ferocidade que agrada ao eleitor

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

21 Julho 2015

Frau Merkel foi inundada por críticas por ter mostrado – diante de uma refugiada palestina em lágrimas – a humanidade e a empatia da senhora Rottenmeier.

A reportagem é de Silvia Truzzi, publicada no jornal Il Manifesto, 19-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Reem Sahwil tem 14 anos, chegou a Rostock, cidadezinha do extremo norte da Alemanha, há quatro anos, depois de viver em um acampamento libanês. A menina, durante um encontro em uma escola, explicou à chanceler que tem medo: tem medo de ser devolvida. "Eu não sei como será o meu futuro, porque não sei se vou poder ficar. Eu também tenho projetos, gostaria de estudar. É uma sensação um pouco incômoda ver como os outros podem viver a sua vida, e eu não."

A resposta da senhora Merkel: "Eu entendo, você é muito simpática, mas, nos campos de refugiados palestinos no Líbano, há milhares e milhares de pessoas, e não somos capazes de fazer com que todos venham para cá".

Reem começou a chorar, e a chanceler tentou consolá-la. Dizendo: "Tudo bem, você foi muito bem". Como se a questão fosse a emoção por ter falado em público (e diante da prestigiada chefe do governo) e não o medo de ser expulsa.

A menina tinha acabado de dizer a uma TV local, contando a sua vida: "Eu lidei muito com a guerra e com a insegurança. Por isso, também estou feliz por estar aqui, porque é muito mais seguro. E o medo que eu tinha antes, que está sempre dentro de mim, enquanto eu estou aqui, continua diminuindo".

Obviamente, a questão é: eu me encontro com a chefe do governo, talvez possa pedir uma mão e não vou causar uma boa impressão. Era fácil de intuir, até mesmo para quem não dispõe de uma chancelaria ou de uma licenciatura em psicologia.

O vídeo de Merkel girou o mundo (assista abaixo), com o habitual séquito de críticas, deboches, piadas, insultos. Comentários diversos: alguns pró-Angela, alguns pró-Reem, alguns espirituosos, outros abomináveis ("Esses aí nasceram chorando"). Mas, atenção, descobriu-se o seguinte: a resposta – impiedosamente realista – à la Cruella de Merkel era inútil.

O ministro para as Políticas Migratórias alemão, Aydan Oezoguz, explicou bem isso no dia seguinte. "Eu não conheço a situação da menina, mas ela fala alemão perfeitamente e vive há muito tempo na Alemanha. Precisamente para pessoas como ela, acabamos de modificar a lei, para dar, aqui entre nós, uma perspectiva aos jovens que se integraram".

A norma já aprovada pelo Bundestag e pelo Bundesrat entrará em vigor nos próximos meses: ela prevê que jovens estrangeiros que vivem ao menos há quatro anos sem interrupção na Alemanha possam ter a permissão de permanência. A lei, em geral, vem ao encontro de todos aqueles que, há muito tempo, vivem na Alemanha, se integraram, mas não tiveram acolhido o seu pedido de asilo (atualmente, cerca de 125 mil pessoas). Fácil, não? Bastava dizer isso.

Os comentaristas também destacaram a desumanidade da chanceler rigorista. Mas não é esse o ponto: tendo que escolher entre informar a menina sobre a nova lei e reiterar o "não podemos acolher a todos", Angela Merkel tomou o segundo caminho. Porque repetita juvant, rapazes. Porque, acima de tudo, é preciso falar para o eleitorado. Porque a obsessão é a de enfatizar primados, regras, diktats e ultimatos, até mesmo quando uma lei já aprovada pode tranquilizar uma menina assustada.

E ainda: a indignação global pelas lágrimas de Reem é facilmente compreensível. Menos compreensível é a substancial indiferença à humilhação de um povo inteiro, ocorrida apenas uma semana antes, aos gritos de "salvemos a Europa". Quem sabe quem vai salvar a Europa da estupidez míope da ferocidade.

Assista ao diálogo de Merkel com a menina Reem abaixo:

{youtube}gIm_2iH5zeA{/youtube}