Ombudsman e as mediações jornalísticas. Entrevista especial com Euclides Santos Mendes

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

08 Julho 2007

Ombudsman é aquele jornalista responsável, dentro de uma instituição, por receber as críticas, sugestões e reclamações e age em defesa da comunidade. No Brasil, empresas como a Folha de S. Paulo e a TV Cultura foram pioneiras ao abrirem espaço nas redações para este profissional. Mas qual é o papel do ombudsman hoje no Brasil e no mundo? Esta questão foi estudada por Euclides Santos Mendes na dissertação “Mediações Jornalísticas na Era da Comunicação de Massa: o ombudsman na imprensa do Brasil e de Portugal”. Na entrevista cedida à IHU On-Line, por e-mail, Euclides relata os principais pontos do trabalho do ombudsman, da valorização dada a este profissional e também das questões de recepção e evolução que envolvem seu trabalho. .

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Você pesquisou o papel do ombudsman no jornalismo do Brasil e de Portugal. Quais foram as principais diferenças e semelhanças que encontrastes nestes profissionais dos dois países?

Euclides Santos Mendes - A pesquisa que fiz é dedicada a uma análise das práticas jornalísticas no Brasil e em Portugal através do estudo comparado das colunas críticas semanais do ombudsman ou provedor dos leitores em dois jornais diários, a Folha de S. Paulo (Brasil) e o Diário de Notícias (Portugal). Usei como amostra para a pesquisa todas as colunas publicadas pelo ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, e pelo provedor dos leitores do Diário de Notícias, José Carlos Abrantes, no decorrer do ano de 2005. A escolha da amostra se deve às seguintes circunstâncias: o número de colunas publicadas pelo ombudsman de cada um dos dois jornais é exatamente o mesmo (43 colunas); os temas são, em parte, convergentes (sobretudo quando tratam da cobertura internacional, da crise de credibilidade da imprensa e de outras experiências relacionadas à ouvidoria dos leitores de mídia impressa). Além disso, escolhemos dois jornais que, se não bastasse o fato de terem sido os primeiros a adotarem o ombudsman na imprensa do Brasil e na de Portugal, são equivalentes no sentido de assumirem posição referencial no jornalismo brasileiro e português, bem como no jornalismo em língua portuguesa. Vale ainda ressaltar que o ombudsman da Folha de S. Paulo - instituído em 1989 - serviu de modelo para a implantação do provedor dos leitores do Diário de Notícias - criado em 1997.

As principais semelhanças que pude identificar dizem respeito, fundamentalmente, à relação do ombudsman/provedor com os leitores, jornalistas e demais fontes, bem como em relação ao conteúdo crítico da coluna semanal. Nos dois jornais, o leitor é a fonte mais utilizada pelo ombudsman/provedor dos leitores, o que não quer dizer, necessariamente, que os leitores sejam devidamente representados. No que diz respeito ao conteúdo da coluna, na Folha de S. Paulo o ombudsman se atém mais à crítica generalizada da imprensa, citando, freqüentemente, outros veículos de comunicação, principalmente os concorrentes diretos do jornal. No Diário de Notícias, a situação é praticamente idêntica, com a diferença de que o provedor dos leitores assume uma postura menos mercadológica, ao citar e criticar outros meios de comunicação.

Quanto às principais diferenças, elas dizem respeito, principalmente, à quantidade de temas abordados na mesma coluna, o uso de dados iconográficos etc. Ao passo que o ombudsman da Folha de S. Paulo faz uso do didatismo apregoado pela manual da redação do jornal, usando, por exemplo, infográficos que resumem informações, o provedor do Diário de Notícias procura ser didático, ao explicar os mecanismos e fatores que condicionam o processo jornalístico. O ombudsman brasileiro também o faz, porém de maneira menos discursiva e mais direta.

IHU On-Line - Mundialmente falando, o ombudsman no Brasil é valorizado como é em outros países, como nos Estados Unidos, por exemplo?

Euclides Santos Mendes - Não. Poucos meios de comunicação brasileiros adotaram a função. O ex-ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, acredita que, no caso brasileiro, são várias as razões para isso, porém três se destacam: a arrogância de jornalistas e de empresas jornalísticas que acham que estão acima das críticas, não suportam pressões e não admitem o reconhecimento do erro; as dificuldades que as empresas têm, por conta de seus interesses políticos e econômicos, de garantir autonomia e independência aos ombudsman; e a descrença de muitos na eficácia da função. A função seria mais valorizada se o ombudsman fosse totalmente independente do jornal, e visasse, sobretudo, ao diálogo criativo e plural entre os diversos grupos que interagem na sociedade.

IHU On-Line - Entre Brasil e Portugal, qual é o tipo de receptor atingido pelo ombudsman que realiza essas mediações jornalísticas?

Euclides Santos Mendes - O ombudsman expressa sua opinião através de uma crítica interna encaminhada diariamente à redação e uma coluna crítica semanal publicada pelo jornal onde trabalha. A crítica interna é endereçada aos jornalistas e a coluna é endereçada aos leitores. Em tese, portanto, jornalistas e leitores são os receptores mais visados pelo ombudsman, mas não são, evidentemente, os únicos.

IHU On-Line - A massa brasileira tem sido atingida da forma como se idealizava quando o espaço do ombudsman foi aberto?

Euclides Santos Mendes - O termo “massa” deve ser usado com cautela, pois não expressa, no seu conceito, os aspectos complexos que contextualizam as relações sociais. Além disso, não devemos nos esquecer que, no Brasil, é uma minoria que lê jornais diariamente e, dentro deste grupo, é uma minoria que escreve ao ombudsman. Daí podemos considerar que o ombudsman, tal como existe hoje no Brasil, tem pouca influência na formação do que podemos chamar “opinião pública”.

IHU On-Line - Como é a evolução profissional de um ombudsman brasileiro e um português?

Euclides Santos Mendes - No quadro geral de evolução do ombudsman/provedor dos leitores nos dois jornais pesquisados, acreditamos que há certa influência do ombudsman brasileiro sobre o modelo português. Porém, o provedor dos leitores é mais difundido em Portugal do que no Brasil. No Brasil, de fato, poucas empresas jornalísticas possuem ombudsman: além da Folha de S. Paulo, somente dois outros jornais (O Povo, de Fortaleza, e o Jornal da Cidade, de Bauru), a rádio Bandeirantes, a Radiobrás e a TV Cultura de São Paulo criaram ouvidorias do leitor. Vale ressaltar que, no caso da imprensa portuguesa, os jornais que possuem provedor dos leitores estão entre os mais prestigiados e populares do país: Diário de Notícias, Público e Jornal de Notícias. Também possuem provedores, em Portugal, os jornais Record e Setúbal na Rede, bem como a Rádio e Televisão de Portugal (RTP) - que adotou, ao mesmo tempo, dois provedores: um para o ouvinte, outro para o telespectador. Além disso, vale lembrar que o jornalista e pesquisador português Manuel Carlos Chaparro, radicado no Brasil desde 1961, mantém, sem assumir a condição de provedor dos leitores, uma coluna semanal de reflexão e crítica jornalística nos periódicos regionais O Ribatejo e GrandAmadora.

IHU On-Line - Faltam profissionais "ombudsman" qualificados no mercado de trabalho?

Euclides Santos Mendes - Ainda não há um consenso sobre que tipo de formação específica deveria ter um ombudsman. Na Suécia, onde surgiu a função, o ombudsman tem uma formação jurídica. No Brasil, os poucos meios de comunicação que adotaram o cargo exigem formação jornalística dos seus ombudsman. Porém, o que devemos considerar é que a qualificação de um ombudsman deveria estar pautada sobretudo por sua capacidade de mediar, na esfera pública, discursos e interesses diversos tendo sempre como ponto de referência o leitor de jornal. Na medida em que isto não acontece, o ombudsman perde sua legitimidade enquanto representante dos leitores e crítico do jornal no qual exerce suas funções. Uma das considerações finais do meu trabalho de pesquisa diz respeito a isso. Instância de reflexão e crítica dos jornais em relação aos leitores, mas também em relação ao mercado, o ombudsman situa-se na “roda viva” em que princípios éticos se chocam com interesses econômicos. Seu trabalho busca, em certa medida, ser polifônico - ao ouvir leitores, jornalistas, especialistas, outros ombudsman -, baseado numa estratégia que faz com que o jornal pareça ser mais pluralista. O ombudsman, enquanto “mediador” deste espaço polifônico, assume o “papel nada modesto” de tentar distinguir o verdadeiro do falso, o joio do trigo, a fim de “julgar” os casos postos em questão na sua crítica interna ao jornal e na coluna crítica semanal. Considero que o ombudsman de imprensa é aquele que, no labirinto das vaidades, ilusões, domínios e responsabilidades da comunicação jornalística, tem nas mãos o “fio de Ariadne”, isto é, a possibilidade de mediar “saídas”, no âmbito da crítica jornalística, para os conflitos e contradições da (pós) modernidade “líquida”. Porém, aquele que o elege é o mesmo que assusta aos que tentam guiar-se pelo fio: o minotauro assume as feições do Deus-mercado.