Meu amigo Fidel Castro. Artigo de Ignacio Ramonet

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15 Agosto 2026

"Revisitar a figura de Fidel Castro não é um exercício de nostalgia; é uma forma de melhor compreender certas dinâmicas-chave do nosso presente", escreve Ignacio Ramonet, jornalista e sociólogo, em artigo publicado por Página|12, 14-08-2026.

Eis o artigo.

A primeira coisa que chamava a atenção em Fidel Castro não era seu uniforme, sua altura, sua barba, nem mesmo sua eloquência. Era sua curiosidade. Depois de longas horas de conversas para o nosso livro, Fidel Castro: uma biografia em duas vozes, ou Cem horas com Fidel, quando todos os outros estavam exaustos, ele ainda fazia perguntas, buscava esclarecimentos, aprofundava-se em detalhes históricos ou científicos com energia inabalável. Muitas vezes pensei que esse era o segredo de sua longevidade política: antes de ser um homem de poder, Fidel era um homem de conhecimento.

Ao longo da minha carreira jornalística, tive a oportunidade de conhecer importantes chefes de Estado, líderes políticos, intelectuais e figuras que marcaram a sua época. Poucos, porém, me impressionaram tanto quanto Fidel Castro.

Não me refiro aqui ao mito, tão frequentemente cultivado tanto por seus admiradores quanto por seus adversários. Refiro-me ao homem, ao ser humano que tive o privilégio de conhecer de perto por muitos anos, de questioná-lo por incontáveis ​​horas e de observar em detalhes enquanto raciocinava em voz alta, reconstruía episódios históricos até o menor detalhe e articulava fatos aparentemente insignificantes com uma ampla perspectiva geopolítica.

Fidel Castro: biografia a duas vozes, de Ignacio Ramonet. (Boitempo Editorial, 2026)

Seus mecanismos cerebrais eram impressionantes. Possuía uma memória prodigiosa. Mas ainda mais notável, insisto, era sua curiosidade intelectual, que permaneceu intacta até o fim de seus dias. Nada no mundo lhe era estranho.

Essas conversas com ele me ensinaram uma lição essencial: para entender Fidel, era sempre preciso olhar além de sua imagem pública, de sua persona midiática. Sua vida esteve entrelaçada com a história de Cuba por mais de meio século, mas também refletiu as grandes transformações da segunda metade do século XX: a descolonização, a Guerra Fria, os movimentos de libertação nacional, a globalização neoliberal, a crise climática e a consequente emergência de um mundo mais diverso e multipolar, no qual as antigas potências ocidentais não detêm mais o monopólio das decisões.

Precisamente porque Fidel Castro ocupa um lugar tão singular na história contemporânea, qualquer novo texto sobre ele pode parecer, à primeira vista, supérfluo. O que mais se pode dizer sobre um homem a quem já foram dedicados tantos livros? A resposta é simples: cada época levanta novas questões sobre o passado, e cada geração reinterpreta grandes figuras históricas à luz de suas próprias preocupações.

Num panorama mediático em que Fidel Castro é frequentemente reduzido ao estatuto de ícone adorado ou de ogro execrado, proponho uma abordagem mais arrojada: captar a complexidade de uma vida extraordinária sem recorrer à hagiografia ou à condenação ideológica. Ao celebrarmos o centenário do nascimento de Fidel, a 13 de agosto de 2026, esta abordagem torna-se essencial.

Durante décadas, a figura do líder da Revolução Cubana tem sido alvo de uma batalha de narrativas. Para alguns, ele permanece um símbolo de resistência contra o imperialismo; para outros, personifica todos os excessos do socialismo de Estado. Essas visões opostas — por mais legítimos que sejam os sentimentos que as motivam — muitas vezes acabam obscurecendo uma realidade histórica muito mais complexa.

A missão do historiador não é inflamar paixões, mas sobretudo esclarecer os fatos. Por isso, gostaria de lembrar a todos aqui presentes que Cuba não pode ser compreendida sem levar em conta a relação singular que mantém há mais de um século com seu poderoso vizinho: os Estados Unidos.

A Revolução de 1959 nunca se desenrolou em um ambiente normal. Desde o início, enfrentou tentativas de desestabilização, uma invasão armada, um bloqueio econômico que duraria décadas e constantes confrontos políticos e midiáticos. Nenhuma avaliação séria das decisões do governo cubano pode ignorar essa realidade.

Isso não significa que tudo possa ser explicado — muito menos justificado — por pressões externas. O próprio Fidel Castro sabia que toda revolução gera suas próprias contradições, erros e rigidez. Ele às vezes falava disso com uma franqueza e uma força autocrítica que surpreendiam tanto seus detratores quanto seus admiradores. Sua ambição não era construir uma sociedade perfeita — ele sabia que tal coisa não existia —, mas preservar a independência nacional, um requisito fundamental, segundo ele, para qualquer política de justiça social.

Outro aspecto marcante de sua figura era a extraordinária amplitude de seus horizontes. Sua visão transcendia em muito as fronteiras de Cuba. A África ocupava um lugar especial em seu pensamento. A América Latina e o Caribe constituíam seu ecossistema geopolítico natural. A Ásia despertava cada vez mais seu interesse à medida que o centro de gravidade mundial se deslocava para lá. Muito antes de o termo se popularizar, ele já havia previsto o surgimento de um Sul Global e o advento de uma ordem internacional multipolar e multicêntrica.

Em retrospectiva, essa intuição parece notavelmente clara hoje. O mundo que se desenrola diante de nossos olhos não é mais o mesmo que surgiu após o colapso e a implosão da União Soviética. Novas potências estão consolidando seu poder, países do Sul Global exigem maior autonomia, as mudanças climáticas ameaçam a humanidade, tecnologias relacionadas à inteligência artificial estão mudando todas as regras do jogo e o equilíbrio internacional de poder está passando por uma profunda reestruturação.

Revisitar a figura de Fidel Castro neste contexto não é um exercício de nostalgia; é uma forma de melhor compreender certas dinâmicas-chave do nosso presente.

Não pretendo convencer o leitor a admirar Fidel Castro. Em vez disso, proponho algo mais valioso: compreendê-lo. Compreender como um jovem advogado de Santiago de Cuba se tornou uma das figuras políticas mais influentes do século passado; compreender como uma pequena ilha caribenha conseguiu exercer, em escala global, uma influência diplomática e moral muito maior do que se esperaria dado o seu tamanho; e, finalmente, compreender por que — quase dez anos após a sua morte — Fidel Castro continua a ocupar um lugar tão singular e especial no imaginário político mundial.

Grandes figuras históricas estão sujeitas a constantes reinterpretações. Paixões se acalmam, arquivos são abertos e perspectivas se transformam. A história gradualmente toma o lugar da controvérsia. Esse processo é essencial; ele nos afasta de polêmicas inúteis e nos permite aproximar-nos da verdade sem jamais pretender possuí-la por completo.

Espero que os leitores abordem este breve texto com a mesma mente aberta, atentando-se tanto aos fatos quanto ao contexto. Acima de tudo, espero que considerem Fidel Castro um ser profundamente humano: um estrategista e visionário; por vezes teimoso, frequentemente audacioso e até mesmo imprudente, mas sempre convicto de que as pessoas podem escrever a sua própria história.

Essa convicção, mais do que qualquer outra, provavelmente explica por que o nome de Fidel Castro permanece indissociável dos grandes debates sobre soberania, justiça social e independência das nações.

Ao refletir hoje sobre o comandante da Revolução Cubana, por ocasião do seu centenário, o leitor não se limita a meditar sobre a vida de um líder; ele mergulha numa era histórica turbulenta, cujos ecos pulsantes continuam a moldar o nosso mundo presente e o seu futuro.

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