28 Julho 2026
"Naturalmente, ninguém precisa de qualquer religião para reconhecer que o ódio jamais pode ser o fundamento da convivência humana", escreve Peter Otten, em artigo publicado por Katholisch, 27-07-2026.
Peter Otten é assistente pastoral na paróquia de Santa Inês, em Colônia. Ele mantém um blog há vários anos no endereço theosalon.de.
Eis o artigo.
"Se acreditarmos no Alcorão, nunca é tarde demais para recomeçar com a criação (...). Deus significa o princípio ou a origem de toda a vida e, portanto, de todo o amor, porque a vida surge do amor, o amor entre o homem e a mulher, o amor entre o sol e a flor, o amor entre Deus e o homem, o amor em todo o reino animal entre pais e filhos."
Ontem, peguei novamente um livro do orientalista e escritor Navid Kermani. Chama-se "Todos Deveriam Dar um Passo Mais Perto de Onde Estão". Nele, Kermani fala à sua filha, que está crescendo, sobre religião, ou melhor, sobre o que une todas as religiões. Muitas das reflexões que ele reuniu neste livro, de uma forma incomparavelmente pessoal e poética, têm sido um grande conforto para mim. Foi o que aconteceu ontem também, depois de ler sobre o horrível ataque contra as pessoas que participavam do desfile do Christopher Street Day em Berlim. "Deus não é o princípio nem a causa fundamental da morte e, portanto, do ódio", continua Kermani, "porque o ódio não é criativo; o ódio apenas destrói."
É claro que ninguém precisa de religião para reconhecer que o ódio jamais poderá ser a base da convivência humana. Nossa Constituição garante direitos fundamentais, inalienáveis e inegociáveis. Contudo, a pessoa inspirada pela religião redescobrirá neles um princípio que permeia o cristianismo e o islamismo como o fermento permeia um pão: o amor a Deus e o amor ao outro (que, afinal, é sempre aquele que me permanece um estranho) são duas faces da mesma moeda.
"E se nós, humanos, temos o Seu espírito dentro de nós, como ensinam a Bíblia e o Alcorão — o espírito de Deus e, portanto, o princípio da vida — então correspondemos à nossa própria natureza divina quando amamos em vez de odiar, e quando preservamos o mundo e o recriamos a cada dia em vez de destruí-lo", continua Kermani. Como alguém repleto disso poderia sequer levantar a mão contra outro? "Os santos são como a terra", cita Kermani os místicos islâmicos. "Ela não devolve as pedras que lhe são atiradas, mas, em vez disso, oferece-nos as suas flores." Resta, então, oferecer flores, incansavelmente, todos os dias, sempre em frente.
Leia mais
- O ódio é uma doença. Artigo de Tonio Dell’Olio
- A patologia do ódio está se espalhando. Deve ser combatida como um câncer. Artigo de Vito Mancuso
- O ódio que comanda o mundo. Artigo de Massimo Recalcati
- Ódio, uma patologia estúpida. Artigo de Vito Mancuso
- #O prazer do ódio
- Sobre o ódio. Artigo de Ivone Gebara