Juventude e a ilusão da abundância. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Drazen Nesic/Unsplash

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24 Setembro 2025

"E uma juventude que não reconhece limites se torna escrava do próprio excesso: dependente de telas, viciada em novidades, incapaz de conviver com o silêncio, com o vazio, com a espera", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).

Eis o artigo.

Estamos vivendo em um tempo que se orgulha de oferecer tudo em excesso: informação, prazer, consumo, lazer, opções, conexões virtuais, entre tantos outros. Nunca houve tanto acesso, diante disso, nunca houve tanta abundância e, ao mesmo tempo, nunca houve tanto vazio existencial. Mas essa abundância, longe de fortalecer a juventude, a enfraquece. Há um grande paradoxo: em vez de nutrir, gera indiferença. Com siso a proposta que deveria ser de educar, produz distração e não cria vínculos, ou seja, fabrica solidão.

A juventude de hoje está sufocada por um relativismo e uma farsa de que “muito” equivale a valor, mas ao mesmo tempo não ensina que não ensina a desejar. Tudo é imediato, tudo é fácil, tudo é acessível. Mas quando não há luta, também não há valor. O resultado é uma geração incapaz de sustentar vínculos, de respeitar hierarquias, de suportar frustrações mínimas. Pais e professores não são mais vistos como referências, mas como obstáculos. Colegas não são reconhecidos como sujeitos, mas como adversários. O limite, que deveria ser guia, é tratado como agressão.

Vivemos uma crise dos limites. Não há freio para a exposição da intimidade, não há medida no uso da palavra, não há consideração pelo outro. O excesso roubou a capacidade de enxergar que viver é aprender a escolher, a renunciar, a respeitar. E uma juventude que não reconhece limites se torna escrava do próprio excesso: dependente de telas, viciada em novidades, incapaz de conviver com o silêncio, com o vazio, com a espera.

Os exemplos se multiplicam. Adolescentes convidados à casa de colegas não raro transformam o espaço de amizade em palco de abuso: depredam objetos, estragam bens materiais, desrespeitam regras básicas de convivência. O que deveria ser gesto de confiança e fortalecimento do vínculo torna-se motivo de mágoa, ruptura e ressentimento. Esse tipo de comportamento revela o quanto a ausência de limites não é apenas um problema individual, mas uma ameaça concreta ao tecido social, corroendo relações que deveriam ser sólidas.

É preciso dizer claramente: sem limites, não há liberdade; sem restrição, não há respeito; sem disciplina, não há vida em comum. A juventude precisa entender que o limite não é um inimigo da felicidade, mas o que lhe dá consistência. Ele não oprime, mas protege. Ele não diminui, mas orienta. O limite devolve valor ao desejo, dá peso às conquistas, sustenta os vínculos que sobrevivem ao tempo.

Aqui entra a sabedoria de John Locke: “Onde não há lei, não há liberdade”. O filósofo lembra que a verdadeira liberdade não está no “fazer tudo o que se quer”, mas em viver dentro de regras que asseguram a convivência e a dignidade do outro. As normas e leis, quando justas, não aprisionam: elas garantem que cada um possa existir sem ser esmagado pela vontade arbitrária dos demais. Sem lei, reina a tirania dos impulsos; sem norma, a liberdade se transforma em caos.

O excesso está corroendo o essencial. Temos jovens que conhecem o mundo virtual inteiro, mas não sabem olhar nos olhos. Jovens que falam com centenas de pessoas por mensagens, mas não conseguem manter uma conversa profunda e sincera com os pais. Jovens que acreditam ser livres porque podem tudo, mas que estão presos às amarras da ansiedade, do consumo e da solidão.

Precisamos educar para o equilíbrio, resgatar o valor do pouco, da simplicidade, da renúncia. Precisamos dizer à juventude que o mundo não lhes deve tudo, que a vida não se constrói apenas de prazeres imediatos, que o ser humano só amadurece quando aprende a lidar com o “não”. Se continuarmos alimentando a ilusão da abundância sem medida, corremos o risco de formar gerações que terão tudo, mas não saberão ser nada.

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