Moradores de ocupações em SP denunciam PL que pune quem luta por terra e cobram que governo Lula evite despejos

Foto: Canva Pro | Pexels

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

14 Agosto 2024

Nesta terça-feira (13) cerca de cem moradores das ocupações Esperança e dos Queixadas, organizadas pelo movimento Luta Popular, foram em protesto para a porta da Secretaria de Relações Institucionais do governo federal na avenida Paulista, em São Paulo. A manifestação faz parte da mobilização da Campanha Despejo Zero contra o projeto de lei 709/23, que pune quem faz ocupações em áreas urbanas e rurais, e está para ser votado no Senado.

A reportagem é de Gabriela Moncau, publicada por Brasil de Fato, 13-08-2024.

Já aprovado na Câmara dos Deputados, o projeto é de autoria do deputado federal Marcos Pollon (PL-MS), envolvido no acampamento de fazendeiros que vem promovendo ataques às retomadas do povo Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul. O texto prevê que envolvidos em ocupações sejam proibidos de receber auxílios sociais como Bolsa Família e de assumir cargos ou funções públicas.

A Campanha Despejo Zero, que reúne 175 entidades e movimentos populares, também reivindica que o governo federal crie a Comissão Nacional de Mediação de Conflitos Fundiários, promessa de campanha e do governo de transição do presidente Lula (PT).

Passado um ano e oito meses de gestão, o desentendimento sobre a pasta competente pela Comissão – entre a Secretaria Nacional das Periferias (SNP) do Ministério das Cidades e a Secretaria de Acesso à Justiça (Saju) do Ministério da Justiça – fez com que até hoje ela não tenha se estruturado.

"Em todo o Brasil há situações de despejo, de criminalização daqueles que lutam por terras, ameaças de reintegração e não há qualquer tipo de interlocução formal, protocolo para este tipo de articulação e solução junto ao governo federal', diz Benedito Barbosa, da União dos Movimentos de Moradia (UMM) e da Campanha Despejo Zero.

"No âmbito do Ministério do Desenvolvimento Agrário, já foi criada a Ouvidoria Agrária. No Ministério dos Povos Indígenas, tem também a instância de mediação de conflitos. Mas para a questão urbana, até agora não conseguimos resolver isso junto ao governo federal", critica Barbosa. "Este é um gargalo fundamental para que a gente possa dar vazão às demandas, às reivindicações dos movimentos urbanos na solução dos conflitos fundiários no Brasil", afirma.

Cobrança de respostas sobre Ocupação Esperança

A manifestação também trouxe reivindicações específicas de São Paulo, relativas às ocupações que estão na iminência da reintegração de posse. "Embora seja o estado mais rico da federação, pelos dados da Campanha de Despejo Zero, vemos que São Paulo é o que mais despeja a população sem teto e onde há mais ocupações também ameaçadas de reintegração de posse", expõe Dito Barbosa.

A Ocupação Esperança, onde há 11 anos moram 517 famílias, vive uma encruzilhada. Para evitar o despejo pedido pelo proprietário do imóvel, que está no nome da empresa falida KJ Kady Jacqueline, é preciso que se avance a regularização fundiária.

A empresa proprietária tem uma dívida de R$ 6,1 milhões com a União. Segundo a Procuradoria Regional da Fazenda Nacional (PRFN), existe a possibilidade de adjudicação do imóvel, ou seja, que a União se aproprie do terreno em troca da dívida, para destiná-lo para habitação popular. Para que esta alternativa avance, no entanto, é preciso que a Secretaria Nacional das Periferias emita um parecer manifestando interesse no imóvel.

As famílias da Esperança aguardam há cerca de três meses esta posição do governo federal. Caso não venha, a única alternativa proposta pela prefeitura de Osasco, sob gestão de Rogério Lins (Podemos), é o da regularização executada por uma empresa privada, a Usucampeão.

"Não queremos esse caminho, mas sem a resposta do governo federal estamos sendo empurradas a ele", relata Vanessa Mendonça, do movimento Luta Popular. "Se a regularização for privatizada, as famílias vão ser despejadas ao longo do tempo, porque não vão conseguir pagar as parcelas para esta empresa. Se ocupam, é já porque não podem pagar", salienta.

Vanessa é moradora da Ocupação dos Queixadas, criada em 2019 em Cajamar (SP) e que também está o despejo iminente. As 105 famílias vivem no terreno que, reivindicado pelos irmãos Vera e Aguinaldo Zanotti, estava antes abandonado há pelo menos 19 anos.

"Estamos numa situação difícil porque a cidade de Cajamar é extremamente rica e a prefeitura lava as mãos, dizendo que não pode fazer nada a não ser arcar com uma parte do despejo", conta Mendonça, se referindo à gestão do prefeito Danilo Joan (PSD).

"O governo federal havia se comprometido com a gente de buscar o cadastro das famílias junto à prefeitura de Cajamar para ver se existe algum programa habitacional em que as famílias possam ser encaixadas. Mas já faz cerca de cinco meses e até o momento a gente não teve nenhuma resposta", cobra Vanessa.

Com o ato, uma comissão foi recebida por Gutemberg Sousa, da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. A única proposta apresentada, no entanto, foi a de o agendamento de nova reunião - desta vez em Brasília, presencialmente.

"Para promessas, a gente vai até Aparecida do Norte. Vai a pé", disse a moradora dos Queixadas, Maria Cícera, diante do secretário na entrada do prédio, na avenida Paulista. "Não precisamos de promessas, precisamos de soluções", resumiu.

Leia mais