A posição do cardeal alemão de abençoar ou não relações homoafetivas mostra dilema da Igreja

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20 Fevereiro 2018

Em recente entrevista a uma rádio, o Cardeal Reinhard Marx, de Munique-Freising, disse que a Igreja Católica precisa fornecer um melhor apoio pastoral a gays e lésbicas, sem no entanto endossar as bênçãos a casais homoafetivos como prática ou política a ser adotada.

O artigo é de Marianne Duddy-Burke, diretora executiva da DignityUSA , e de Jeffrey Stone, ex-membro do conselho de diretores da DignityUSA, atualmente trabalha como diretor de comunicações da entidade e como coordenador da Dignity/Nova York e é autor do livro “Growing Up Catholic”.

A DignityUSA é uma organização sediada em Boston centrada nos direitos LGBTs e na Igreja Católica.

O artigo é publicado por National Catholic Reporter, 17-02-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Ao mesmo tempo, o religioso pareceu deixar aberta a possibilidade para bênçãos desse tipo em casos individuais. Marx é o terceiro bispo alemão, e o do mais alto escalão até agora, a levantar nos últimos meses a possibilidade de se abençoar casais gays.

Cardeal-arcebispo de Munique, Marx é um dos líderes mais influentes da Igreja. Atua no Conselho dos Cardeais do Papa Francisco, coordena o Conselho dos Bispos Alemães e preside a Comissão das Conferências dos Bispos da Comunidade Europeia.

Uma tradução em inglês da entrevista cita Marx dizendo, em resposta a uma pergunta sobre como a Igreja deveria lidar com as pessoas homoafetivas: “Devemos estar pastoralmente próximos dos que necessitam de cuidado pastoral e também o querem. E devemos também encorajar os padres e agentes pastorais a dar um incentivo às pessoas nas situações concretas. Não vejo, realmente, nenhum problema aqui. Uma questão inteiramente diferente é como se deve fazer isto pública e liturgicamente. São coisas que precisamos ter cuidado e que devemos refletir a respeito de modo correto”.

Ao abordar como uma igreja que proíbe o casamento homoafetivo poderia ministrar aos casais, o prelado falou: “Isso não significa que nada aconteça, mas, realmente, eu tenho de deixar essa questão para o pastor, na base, acompanhando a pessoa com um cuidado pastoral. Aí podemos debater as coisas, como está atualmente sendo debatido, e pensar: Como um agente pastoral pode lidar nesse caso? Todavia, enfaticamente eu deixaria isso para o campo pastoral e para o caso particular em jogo, e não demandar quaisquer conjuntos de regras novamente. Há coisas que não podemos regular”.

O esforço de Marx em articular uma estratégia coerente para abordar as necessidades dos membros gays e lésbicas na Igreja – a entrevista não parece incluir qualquer referência a pessoas transexuais, intersexuais ou bissexuais – mais uma vez mostra o dilema daqueles que tentam trabalhar dentro do quadro doutrinário atual, da estrutura católica e da polêmica política do catolicismo institucional. Parece haver um reconhecimento do cardeal de que o dogma e a prática correntes falham em alguns aspectos, além de um desejo de encontrar maneiras de responder às necessidades. Marx vê as respostas pastorais a situações particulares como sendo a solução.

O problema com esta abordagem é que ela reforça a visão oficial da Igreja sobre as pessoas lésbicas e gays e sobre os casais homoafetivos como sendo membros menores em plenitude no Corpo de Cristo. Tal postura exige que padres e agentes pastorais determinem se uma situação individual merece o risco de uma bênção sigilosa e da validação implícita da orientação e das relações íntimas da pessoa.

Isto coloca numa situação delicada a pessoa que busca a bênção e aquele que a concede, deixando-os sujeitos à crítica e a ataques por parte dos que consideram tal ação contrária ao magistério católico – o que, na verdade, ocorre.

Talvez a única forma de a instituição mudar seja através de uma abordagem lenta, pela qual o número de casos individuais aumenta aos poucos e a experiência das pessoas envolvidas convença, de alguma forma, um número suficiente daqueles em posição de autoridade de que uma mudança na doutrina merece ocorrer. Em seguida, começaria o processo de debate da teologia e da tradição que poderia apoiar uma tal alteração. Resta saber quanto tempo um tal processo de discernimento levaria.

Nesse ínterim, a incapacidade persistente da Igreja oficial em acolher plenamente as pessoas LGBTQIs e seus familiares continuará a afastar não só muitas delas, mas também inúmeros membros de suas famílias ampliadas, amigos e aliados – sem mencionar os números massivos dos jovens em geral. Ao mesmo tempo em que Marx e outros líderes buscam saber como resolver aquele que é admitidamente um dilema complexo da Igreja, as pessoas LGBTQIs, aliados e familiares devem ser parte integrante do diálogo.

Vale notar que, nos EUA e em outras partes do mundo, as pessoas estão bem à frente dos líderes eclesiásticos em questões LGBTQIs. Em países onde o casamento homoafetivo é legal, dezenas de milhares de católicos sentem-se lisonjeados em testemunhar as uniões civis de seus filhos, netos, pais, irmãos, sobrinhos(as), amigos(as), muitos deles em cerimônias que incluem uma bênção espiritual.

Inúmeras outras pessoas, especialmente onde a igualdade matrimonial ainda precisa ser alcançada, juntam-se a seus entes queridos em rituais que celebram os compromissos feitos por parceiros gays e lésbicas. A presença delas e o compromisso em honrar, apoiar estes casais representam o triunfo do amor sobre a lei.

Membros da nossa comunidade que amam a Igreja e buscam ser membros plenos e iguais dela estão em melhor posição para aconselhar/assessorar os líderes eclesiásticos sobre um acompanhamento pastoral apropriado e em teologia. Muitos de nós estão dispostos a compartilhar a própria história, esperanças e desafios, caso sabermos que seremos ouvidos com respeito e de coração aberto.

Enquanto isso, oferecemos a Carta sobre Acompanhamento Pastoral a Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (LGBT) (em inglês “Letter on Pastoral Care of Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender (LGBT) People”) [1], escrita por participantes da DignityUSA em 2007, como um ponto de partida para a compreensão da nossa perspectiva sobre o que é necessário.

É um sinal de esperança que Marx, outros bispos alemães e, na verdade, numerosos líderes católicos em todo o mundo estejam defendendo abertamente o lugar das pessoas LGBTQIs na Igreja. Um passo ainda mais esperançoso acontecerá quando os líderes eclesiásticos finalmente envolverem verdadeiros especialistas deste tema num diálogo genuíno, e quando começarmos a desenvolver soluções juntos.

Nota:

[1] Carta disponível, em inglês, aqui

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