Padres irlandeses pedem pausa no diaconato

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08 Setembro 2017

A Associação dos Padres da Irlanda convidou os bispos irlandeses para que suspendam a introdução de diáconos permanentes nas dioceses até que a comissão pontifícia que estuda a questão de mulheres ordenadas ao diaconato conclua o seu relatório e que o Papa Francisco tome uma decisão com base nele.

A reportagem é de Sarah Mac Donald, publicada por National Catholic Reporter, 05-09-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em nota, a associação disse acreditar que dar continuidade à introdução de diáconos neste momento acrescentaria “uma outra camada clerical ao ministério”, o que seria “uma falta de sensibilidade, um desrespeito com as mulheres e contraproducente neste momento crítico”.

O pedido feito pela Associação de Padres da Irlanda (Association of Catholic Priests) vem na sequência de uma declaração pública dada por um de seus coordenadores, o pároco Pe. Roy Donovan, quem, em 9 de agosto, advertiu que introduzir diáconos sem mulheres é “estender o patriarcado”.

Donovan, padre da Arquidiocese de Cashel e Emly, fez este e outros comentários depois que surgiu a notícia de que Dom Kieran O’Reilly estaria criando um grupo para pesquisar a introdução do ministério do diaconato pela primeira vez. O grupo deve começar a atuar nos próximos meses.

Nada menos que quinze das 26 dioceses católicas da Irlanda já introduziram cursos de formação para diáconos permanentes. O National Catholic Reporter contatou o Pe. Michael Duignan, diretor nacional do diaconato permanente na Irlanda, que não esteve disponível para comentar, assim como uma série de diretores diocesanos para o diaconato permanente.

Donovan se opõe ao fato de que a Igreja confie o diaconato permanente atual somente a homens. Em sua declaração, perguntou: “Quais as implicações disso quando já existem muitas mulheres envolvidas na base, em todos os tipos de ministério, sem receber reconhecimento e poder? Elas não merecem também um lugar à mesa?”

O Vaticano anunciou a criação de uma comissão voltada ao tema em agosto de 2016. Francisco a estabeleceu a fim de estudar a história das diaconisas na Igreja primitiva, com a intensão de possivelmente abrir o diaconato às mulheres.

“Gosto muito da Igreja e da ideia de se criar um espaço para a mulher”, disse Donovan ao National Catholic Reporter. “O meu protesto não saiu do nada, mas veio depois de muitos anos sendo influenciado e inspirado por mulheres nas paróquias e em minha vida. Tenho uma dívida de gratidão às mulheres pelo que elas me ensinaram, especialmente sobre a compaixão e inclusão de Cristo”.

Lotado em uma paróquia na cidade de Limerick, Donovan creditou às mulheres o fato de poder ver o quadro mais amplo dessa questão e apensar sistematicamente. A sua experiência de lidar com elas o convenceu de que a mulher deve estar à frente dos trabalhos.

“Integrantes da minha própria família, em especial minhas irmãs e sobrinhas, me questionaram sobre eu pertencer a uma ‘Igreja exclusivamente masculina’”, continuou ele. “Devo a elas o fato de eu estar hoje aqui a protestar”.

Donovan sugere que permitir um diaconato exclusivamente masculino “questiona a natureza das relações que os padres têm com as suas mães, irmãs e sobrinhas. Também questiona a natureza das relações que os padres têm com a mulher”.

“Temos um longo caminho a percorrer para implementar a originalidade do Evangelho de Jesus, um ministério de iguais entre iguais”, completou. “Afinal, Maria Madalena, conhecida como a Apóstola dos Apóstolos, foi o primeiro ministro da boa nova – proclamando que Jesus está vivo”.

Donovan contou que, desde a sua declaração de 9 de agosto, vem recebendo muitas reações de uma ampla variedade de pessoas, com a maioria concordando com ele.

“As pessoas me pedem para manter em pauta o tema das diaconisas e da exclusão da mulher na Igreja”, disse. “Alguns comentários enfatizam que não há estruturas na Igreja onde possamos ouvir a voz feminina. O que estamos fazendo deu a essas pessoas a esperança de que o diálogo começou e que se desencadearam uma energia e uma animação renovadas”.

No ano passado, uma pesquisa realizada pela Irish Creamery Milk Suppliers Association, publicada no jornal Irish Examiner, descobriu que 80% dos católicos irlandeses apoiam a ordenação feminina, e 58% grandemente a apoiam.

Embora feliz por estes números, Donovan falou que a falta de resposta por parte dos bispos é “decepcionante”.

Sobre a atual crise vocacional e o declínio no número de padres, afirmou: “A realidade é que os padres estão rapidamente se extinguindo e os que restam estão envelhecendo, sem estarem sendo substituídos. É triste que a única solução nos dada pelos bispos seja o diaconato masculino. Vai além da nossa compreensão ver que as pessoas acima da hierarquia não conseguem encontrar outras soluções”.

Donovan comparou a postura da Igreja, hoje, de recusar ceder um lugar às mulheres na instituição com o ato de manter alimentos longe das massas famintas num período de fome.

“As lojas de grãos estão cheias de alimentos, mas trancadas atrás de portas ‘guardadas’ enquanto o povo lá fora passa fome”, falou. “Nós temos a solução. Os grãos estão aí, mas o povo não é alimentado. Estamos deixando pessoas passarem fome da riqueza e nutrição que as mulheres podem dar. Preferimos um sacerdócio exclusivo que vem se extinguindo em decorrência a uma falta de membros”.

“As mulheres não prejudicarão a Igreja e, no entanto, não estamos dispostos a permiti-las entrar. Por que os homens não se dispõem a compartilhar o sacerdócio? Por que os homens acreditam que as mulheres não são dignas disso?

A organização Women’s Ordination Worldwide apoiou as declarações públicas recentes feitas por Donovan sobre haver mulheres ordenadas ao diaconato e ao sacerdócio na Igreja Católica de Roma.

“A hierarquia da Igreja deve se livrar do pecado do sexismo e, de uma vez por todas, deve modelar os seus próprios valores evangélicos reconhecendo a mulher como parceiros iguais na fé”, declarou a Women’s Ordination Worldwide.

Embora os comentários de Donovan e da Associação dos Padres foram bem acolhidos pela citada organização internacional e outros grupos reformistas, é pouco provável que eles suscitem um apoio entre os bispos do país.

Dom Denis Nulty contou ao National Catholic Reporter que o pedido da Associação dos Padres para que se suspenda o recrutamento ao diaconato permanente foi feito “num momento em que nós já temos várias pessoas em formação”.

Nulty participou de uma atividade promovida pela Diocese de Kildare e Leighlin no hipódromo de Punchestown Racecourse, em 27 de agosto, onde duas mil famílias de toda a diocese lançaram os preparativos para o Encontro Mundial das Famílias a acontecer na Irlanda no próximo ano. Explicou que quatro homens estão atualmente sob formação na Diocese de Kildare e Leighlin e outros oito diáconos permanentes já têm “contribuído imensamente” com a diocese.

“De forma alguma quero diminuir a contribuição maravilhosa deles em nossa família diocesana”, disse acrescentando que “estou bastante feliz com a maneira como o diaconato permanente está funcionando em nossa diocese”.

Nulty falou ainda que respeita “todas as pessoas e opiniões” em torno do assunto, mas que Kildare e Leighlin era uma das primeiras dioceses irlandesas a introduzir diáconos permanentes e que espera que a contribuição dessas pessoas continue.

Um bispo que expressou apoio a Donovan foi a bispa Bridget Mary Meehan, natural do condado de Laois, no sul da Irlanda, e que foi excomungada pelo Vaticano. Ela foi ordenada por um padre durante a primeira ordenação de uma mulher nos EUA, em Pittsburgh, em julho de 2006 e, mais tarde, ordenada bispa em Santa Barbara, na Califórnia, em abril de 2009.

A ex-freira hoje ministra em Lake Mary, na Flórida. Visitando a Irlanda para convidar as irlandesas que se sentirem chamadas ao sacerdócio a se juntar ao seu movimento de mulheres ordenadas na Igreja, ela contou ao National Catholic Reporter que espera que, em breve, haja novas integrantes do movimento de ordenação feminina na Austrália e na Irlanda.

A religiosa de 69 anos presidiu uma missa em Dublin e exigiu “ritos iguais” e “direitos iguais”. Falou que a não ordenação de mulheres era uma “falta de imaginação” por parte da hierarquia.

Em um momento de crescimento no número de pessoas no movimento, ela adverte: “Nós não vamos deixar a Igreja; estamos conduzindo a Igreja no sentido da igualdade, inclusão e justiça”.

E acrescentou: “O que fazemos é uma coisa boa e um trabalho sagrado. A Igreja precisa curar as feridas de centenas de anos de sexismo. Estamos cansados e cansadas do clericalismo. Precisamos nos livrar do sistema clerical”.

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