As mudanças do espírito do Ramadã. Artigo de Tahar Ben Jelloun

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04 Julho 2016

O Ramadã é o mês em que os fiéis observam um jejum total, com o objetivo de sentir, com o próprio corpo, aquilo que os pobres sentem, aqueles que a sociedade deixou para trás. Contudo, com o tempo, se tornou uma tradição mais social do que religiosa.

Essa é a opinião do escritor franco-marroquino Tahar Ben Jelloun, em artigo publicado po La Repubblica, 01-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nono mês do calendário lunar, o Ramadã – que se conclui em alguns dias – é considerado pelos muçulmanos como um mês sagrado. O jejum do nascer ao pôr do sol durante 29 ou 30 dias – sem comer, sem beber e sem ter relações sexuais – é um dos cinco pilares do Islã.

Também é o mês em que "o Alcorão foi revelado como orientação para a humanidade" (Sura 2, versículo 185). Mais precisamente, essa "revelação" ocorreu durante uma noite excepcional, a 26ª, chamada de "Noite do Destino" e considerada "melhor do que mil meses".

Foi nessa noite que o profeta Maomé, mensageiro de Alá, recebeu, pela primeira vez, a palavra divina, que lhe era transmitida pelo anjo Gabriel. Maomé é apresentado como o último dos profetas enviados por Deus e recolheu a herança espiritual de todos os profetas que o precederam. Por isso, pede-se que os muçulmanos respeitem e celebrem também Moisés, Abraão e Jesus.

Com o tempo, o Ramadã se tornou uma tradição mais social do que religiosa. É o mês em que os fiéis observam um jejum total, com o objetivo de sentir, com o próprio corpo, aquilo que os pobres sentem, aqueles que a sociedade deixou para trás.

Em 1966, o então presidente tunisiano, Habib Bourguiba, tinha aparecido na televisão e bebido um copo de suco de laranja para exortar os operários que faziam trabalhos difíceis a não fazer o jejum. Durante alguns anos, a Tunísia foi o único país muçulmano que não respeitou rigorosamente o jejum do Ramadã. Hoje, essa época acabou, e aqueles que não observam o jejum e comem em público são punidos com pena de prisão de seis a 12 meses.

Uma tradição social, certamente, mas também um momento para fortalecer a própria devoção aos preceitos do Islã. No Magrebe, ninguém ousa sair da linha e comer em público: tal ato seria percebido como uma falta de solidariedade e uma traição.

Aquilo que falta ao Ramadã, do modo como é praticado no mundo muçulmano, é o espírito que está na sua origem. Ao pôr do sol, quando todos quebram o jejum, nem todas as mesas estão repletas com as mesmas provisões: há mesas ricas e pobres ou até muito pobres.

Além disso, a meditação, a reflexão sobre si mesmo e o exame de consciência não são feitos realmente. Há reuniões nas mesquitas, chamadas de "Tarawih", com orações e sermões, mas o modo como as pessoas se comportam não é muito diferente do que de costume.

No exterior, durante o mês do Ramadã, os imigrantes muçulmanos sofrem, porque são uma minoria em um contexto que ignora o Islã e as suas tradições. Eles não podem deixar de trabalhar para as orações ou poupar esforço durante o dia. Falta-lhes aquela que o Alcorão chama de "a calorosa fraternidade", que dá aos muçulmanos uma oportunidade para reforçar os laços da solidariedade. O fiel, que não deve prestar contas senão a Deus, pode praticar a sua religião em silêncio, sem pedir ao seu entorno que participe nas suas ações. O Islã responsabiliza o fiel.

É por isso que, no Islã sunita, majoritário, não há hierarquia, não há intermediários entre o fiel e Deus: o Islã é uma relação direta com o Criador. É isso que torna nulas as autoproclamações de califado, como a do chefe do IS, al-Baghdadi. A sua ilegitimidade é inerente ao espírito e às palavras do Islã.