Transição ecológica: um vademecum para uma inversão de tendência

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

10 Fevereiro 2016

É preciso reconhecer que o pensamento econômico crítico encontra uma crescente expressão no mundo católico, e não tanto no secular ou de esquerda. Respira-se um certo ar de liberdade e de anticonformismo em parte desse mundo, do qual, talvez, a última encíclica papal constitui o resultado mais do que o estímulo.

A reportagem é de Marco Bertarello, publicada no jornal Il Manifesto, 02-02-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nesse âmbito, tenta-se inovar e romper com esquemas dominantes, talvez sem acertar sempre o objetivo, mas dando, além disso, a medida das dificuldades para conter profundamente o atual capitalismo total.

Nesse filão de crítica à economia, pode-se apreciar o trabalho do francês Gaël Giraud, Transizione ecologica (Ed. Emi, 288 páginas, prefácio de Mauro Magatti), um ex-operador financeiro que se tornou jesuíta.

O autor propõe uma "leitura necessariamente inclinada" para "se livrar do bezerro de ouro" feito por aquele mercado que se tornou a nova "divindade anônima" e escapar da "violência financeira", inventando modos inéditos de fazer sociedade, voltados a criar "novos laços sociais".

Segue-se uma polêmica em relação a mecanismos e instituições econômicas, como o Banco Central Europeu e o euro. O que é evidenciado é a conexão entre problemas econômicos e ambientais, propondo um grande plano financeiro extraordinário para a sobrevivência do próprio planeta. O ecossistema se salva mudando de sinal até mesmo as finanças.

Giraud propõe que o BCE imprima moeda para enfrentar os dilemas ecológicos em vez de satisfazer os brutais instintos do sistema financeiro. Propõe que se tire dos bancos o poder de governar a quantidade de moeda em circulação para devolvê-la a uma autoridade com um mandato democrático específico.

À utopia da sociedade dos proprietários substitui a da transição ecológica. Uma transição custosa, pois se trata de reindustrializar as nossas economias, regionalizar o comércio global, pôr fim à excessiva especialização agrícola. Reduzir o consumo de energia e, ao mesmo tempo, aumentar os custos para a salvação do planeta.

Por fim, Giraud tenta levantar a hipótese de uma pars costruens feita de commons que se inserem entre privado e público, pondo em evidência os desastres do primeiro e os limites do segundo. Aqui, o discurso se complica, os bens têm natureza diferente e necessitam de status diferentes com base no papel exclusivo ou rival, como para muitos bens privados, ou não rival e não exclusivo, como para os públicos.

Depois, existem bens híbridos, cuja fronteira entre público e privado se confunde. A própria moeda deveria passar de privada para comum, não respondendo mais à pura função de ativo em que os bancos a enquadraram, mas se tornando instituto apto à circulação ancorada na realidade, embora diferida no tempo.

O risco, ressalta o autor, é o de criar um mecanismo insustentável, em que a produção de riqueza e de dívida pública podem não corresponder à quantidade de moeda em circulação, criando as bases para uma quebra.

Portanto, é indicada uma estrada, mas não são resolvidos todos os problemas. Além disso, a abordagem sobre o comum é credível como perspectiva para escapar dos dilemas que surgiram no público, mas deve ser posto à prova em relação aos problemas que levanta. Que mercado deveria existir? E o que esfera pública deveria permanecer? Como poderia promover o comum?

Por fim, comum significa maior territorialidade e autogoverno, mas não pode ser removido o dado de que economia e ecologia precisam de uma dose de centralidade e planejamento para combinar eficazmente local e global, prosperidade e ambiente. Todos problemas em aberto. Ainda bem que há quem os levante.