Os amantes sem dinheiro. Eugénio de Andrade na oração inter-religiosa desta semana

Foto: Pixabay

11 Junho 2021

 

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - MG.

 

Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.

Tinham lendas e mitos

e frio no coração.

Tinham jardins onde a lua passeava

de mãos dadas com a água

e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente

o milagre de cada dia

escorrendo pelos telhados;

e olhos de ouro

onde ardiam

os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,

e silêncio

à roda dos seus passos.

Mas a cada gesto que faziam

um pássaro nascia dos seus dedos

e deslumbrado penetrava nos espaços.

 

Fonte: Eugénio de Andrade. In: Eucanaã Ferraz (Org). A lua no cinema e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 61.

 

Eugénio de Andrade. (Foto: Letras em Verso)

Eugénio de Andrade [Pseudônimo de José Frontinhas Neto] (1923-2005): Foi um dos maiores expoentes da poesia portuguesa contemporânea, tendo sido agraciado com o Prêmio Camões (2001). Além desse, também foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1982) e foi laureado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito (1989), entre outros.  É autor de vasta obra, entre elas, citamos, As Mãos e os Frutos (1948), Os Afluentes do Silêncio (1968), Escrita da Terra (1983), Os Lugares do Lume (1998) e Os Sulcos da Sede (2001).