Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - MG.
Os amantes sem dinheiro
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de ouro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Fonte: Eugénio de Andrade. In: Eucanaã Ferraz (Org). A lua no cinema e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 61.
Eugénio de Andrade. (Foto: Letras em Verso)
Eugénio de Andrade [Pseudônimo de José Frontinhas Neto] (1923-2005): Foi um dos maiores expoentes da poesia portuguesa contemporânea, tendo sido agraciado com o Prêmio Camões (2001). Além desse, também foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1982) e foi laureado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito (1989), entre outros. É autor de vasta obra, entre elas, citamos, As Mãos e os Frutos (1948), Os Afluentes do Silêncio (1968), Escrita da Terra (1983), Os Lugares do Lume (1998) e Os Sulcos da Sede (2001).