“Sentir com o outro” e “alimentar” generosamente. Comentário de Consuelo Vélez

Foto: Gen AI/Unsplash

30 Julho 2026

"A compaixão significa 'sentir com', e é essa atitude que nos abre os olhos para a realidade da injustiça e nos coloca no caminho para combatê-la", escreve Consuelo Vélez, teóloga colombiana, comentando o evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum, ciclo A, publicado por Religión Digital, 28-07-2026.

Eis o Evangelho 14, 12-21.

Naquele tempo, quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas, quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” Jesus, porém, lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Jesus disse: “Trazei-os aqui”. Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. Todos comeram e ficaram satisfeitos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. (Mateus 14,13-21).

Eis o comentário.

O Evangelho começa dizendo que Jesus ouve uma notícia e vai para um lugar deserto para ficar sozinho. Ele soube da morte de João Batista. Essa cena não é incomum hoje em dia, pois as notícias da morte de tantos líderes sociais e pessoas dedicadas ao bem comum são constantes. A perseguição contra eles é facilmente desencadeada, pois é preferível eliminar profetas a ouvir suas palavras e se converter a elas. É claro que tais notícias desafiam aqueles que seguem o caminho da retidão, e é necessário assimilá-las e reunir forças para continuar. Jesus tira um tempo para a solidão, consciente do que também poderia acontecer com ele. Mas a cena que se segue nos mostra sua fidelidade, apesar dos perigos, e sua capacidade de estar atento às realidades de seu tempo.

Ao ver a multidão necessitada, Jesus teve compaixão dela e curou os enfermos. Foi na companhia dessa multidão que Jesus realizou o primeiro milagre da multiplicação dos pães. Ao cair da tarde, os discípulos aconselharam Jesus a mandar a multidão embora para que pudessem comprar comida. Mas Jesus disse-lhes para alimentarem o povo. Os discípulos mostraram-lhe que tinham apenas cinco pães e dois peixes. Jesus então pediu-lhes que lhe trouxessem os pães e, com um gesto eucarístico, abençoou-os, partiu-os e entregou-os aos discípulos para que os distribuíssem entre o povo. O texto conclui destacando a abundância daquela distribuição de pães, que foi suficiente para todos, sobrando ainda doze cestos.

Vamos destacar, antes de tudo, a compaixão que Jesus sente pela multidão. Compaixão significa "sentir com", e é essa atitude que nos abre os olhos para a realidade da injustiça e nos coloca no caminho para combatê-la. A indiferença, o fechar de coração ao sofrimento do mundo, é o que perpetua a injustiça e a profunda divisão entre os poucos que têm tanto e os muitos que têm tão pouco. Peçamos para sermos tocados pela realidade ou, como se diz hoje, para vivermos uma espiritualidade de "olhos abertos" que encara o mundo e não lhe dá as costas.

O segundo aspecto é o compromisso efetivo de “alimentar a multidão”, o que significa não apenas prover o sustento material — que também é necessário —, mas também comprometer-se a construir estruturas sociais, políticas e econômicas que garantam o bem comum e uma vida digna para todos. A fé não pode ser dissociada da vida, mas sim imersa nela com uma consciência clara e crítica para compreendê-la e agir de acordo.

Por fim, a forma como o número dos que comeram é expresso como “5.000 homens, sem contar mulheres ou crianças” revela o papel secundário que as mulheres desempenharam ao longo da história e também na vida de fé. Hoje, estamos mais conscientes disso e, portanto, é importante reconhecer o viés patriarcal presente nas Sagradas Escrituras para que possamos continuar a transformá-las por meio de nossas interpretações e atitudes atuais em relação à vida.

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