Uma coleção de ensaios de Anne-Marie Pelletier. Ao alterar o status das mulheres muda o mundo

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12 Outubro 2018

"Até a igreja, quando se revela pecadora, é apresentada com duas imagens vinculadas ao feminino, adúltera e prostituta. Desta forma, sutilmente difunde-se a convicção de que a mulher é fraca, mais fácil de desviar, e que, consequentemente, é correto não considerá-la capaz de assumir papéis de autoridade."

A opinião é da historiadora italiana Lucetta Scaraffia, membro do Comitê Italiano de Bioética e professora da Universidade de Roma “La Sapienza”. O artigo foi publicado por L’Osservatore Romano, 8-9-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Quando muda o status das mulheres muda o mundo: assim escreve Anne-Marie Pelletier no pequeno, mas denso livro Uma fede al femminile (Uma Fé no feminino, Bose, Qiqajon, 2018, páginas 96, euro 10) que inclui alguns ensaios publicados por ela sobre o tema mulheres e igreja. Seu olhar sobre a questão é muito amplo, não se limita a denunciar a evidente ausência de mulheres na instituição nos níveis consultivos e de decisão, mas aprofunda suas causas e consequências.

Entre as causas culturais denuncia aquela a que raramente se presta atenção: na palavra profética, encontramos um recurso frequente à metáfora conjugal, que explica todo tipo de aliança com a experiência de vida de casal. Mas o paralelo entre Deus e Israel e entre homem e mulher sugere uma afinidade entre o masculino e Deus, confirmando o primeiro aos privilégios do poder. Por outro lado, o uso de metáforas femininas para indicar o povo favorece o enraizamento do feminino no registro da humanidade propensa à culpa, uma vez que lhe são atribuídos muitos episódios de infidelidade. Até a igreja, quando se revela pecadora, é apresentada com duas imagens vinculadas ao feminino, adúltera e prostituta. Desta forma, sutilmente difunde-se a convicção de que a mulher é fraca, mais fácil de desviar, e que, consequentemente, é correto não considerá-la capaz de assumir papéis de autoridade.

Essa opinião negativa coexiste inclusive com um uso eclesial para reconhecer grandes méritos ao eterno feminino, começando pelo "gênio feminino", atitude que afasta o verdadeiro reconhecimento das qualidades concretas das mulheres.

Sobre o tema do sacerdócio, Pelletier há tempo defende que não devemos cair na armadilha ideológica de pedir o sacerdócio feminino, como se fosse apenas a igualdade de carreiras a garantir a igualdade entre os sexos, enquanto a diferença entre homens e mulheres não deve ser necessariamente pensada como uma diferença em sentido hierárquico, mesmo que isso aconteça.

Para a estudiosa francesa o sacerdócio ordenado de fato deve ser repensado radicalmente através de uma reavaliação do sacerdócio batismal, evitando assim as interpretações que o aproximam aos desafios do poder mundanos, sejam para defender ou para conquistar, matrizes do clericalismo. Para as mulheres cristãs abre-se a possibilidade de viver o sacerdócio batismal, que define "essencial", um sacerdócio "que é exercido no realismo incorporado do cotidiano, onde se trata de servir a carne do outro, seguindo o exemplo de Cristo" e "é também um testemunho para todos que na igreja não há outro ministério além do serviço, e todo ministério nada mais é que uma organização para o serviço".

Pelletier está convencida de que só uma nova eclesiologia, que adote um centro de gravidade batismal em vez de clerical, possa oferecer um verdadeiro antídoto aos clericalismos. E ela ainda tem a coragem de escrever que o clericalismo atual apresenta pontos de contato com a reivindicação feita por grupos de mulheres de ter acesso ao sacerdócio ordenado.

Essa e outras reflexões constituem pontos de partidas criativos, que nos levam a repensar a questão de mulheres de maneira diferente, e isso "pode ter efeitos positivos e importantes na forma de considerar o corpo eclesial como um todo." Porque, na origem das reflexões de Pelletier, existe uma pergunta essencial: "Que contribuição específica as mulheres oferecem à conscientização que a igreja deve ter de si mesma?".

Precisamente por essa razão, a igreja deve escutar as mulheres, não simplesmente por ser um ato de justiça. Porque as mulheres vivem na realidade a face da igreja serva e pobre, materna, a face que os sacerdotes exaltam em seus discursos, mas dificilmente vivem nos fatos.

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