09 Junho 2016
“Hoje em dia, diante da propagação do subjetivismo e do relativismo, imersos, como estamos, na cultura “líquida” da pós-modernidade, exposta ao risco de ver desaparecer todos os instrumentos capazes de garantir uma avaliação moral, o velho paradigma (do Vaticano II) pode ainda constituir a chave de leitura principal? Hoje, até mesmo como Igreja, não arriscamos estar demasiado imersos na história e incapazes de fornecer pontos de referência estáveis, capazes de guiar a humanidade moralmente desorientada?”, questiona Aldo Maria Valli, jornalista, vaticanista da RAI, televisão italiana, em artigo publicado no seu blog, 02-06-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.
Eis o artigo.
O professor Andrea Grillo, em sua intervenção, bastante interessante, responde às observações do artigo A igreja e a lógica do “mas também”. Minha gratidão, tanto pela forma, como pelo conteúdo. Tentarei replicar.
Sei que no mundo, na cultura e na mentalidade comum tudo mudou. E sei muito bem que Francisco sabe disso. Consequentemente, o papa sabe também que no trabalho de evangelização não adianta concentrar-se nos preceitos da lei, nas obrigações morais, sobre o que é obrigatório. A mesa sobre a qual o papa decidiu jogar é outra: o anúncio da misericórdia. Quer anunciar claramente a todos, mesmo aos mais distantes, que o Deus cristão é um pai bondoso e amigável, um Deus pessoal, sempre pronto a perdoar. Ele disse, uma vez, que o nosso, não é um "Deus spray", genérico e vaporizado, um pouco por todos os lados, mas é um Deus a quem todos nós podemos nos dirigir, como a um pai que se preocupa com o destino de cada filho, especialmente quando está sofrendo. E pede à Igreja para agir assim. Daí a imagem da Igreja hospital de campanha, onde se tratam as feridas mais profundas da alma. Daí o convite repetido para sair, ir para os subúrbios, para atendê-los com mente aberta e disposição para ouvir. Francisco sabe que, no Ocidente, a sociedade já não é mais cristã, mas pagã. Foi cristã, mas não é mais. Por isso, é como se todos devêssemos ser evangelizados pela primeira vez.
Hoje, a Igreja, explicou, tem apenas uma ovelha no curral e noventa e nove fora. O dever do pastor é procurar as noventa e nove. Mas como fazer isto? Pode-se, talvez, partir da lei, dos preceitos, dos deveres morais? Pode-se, talvez, falar de contrição, arrependimento, do sentido do pecado, do temor de Deus? Certamente não, pensa Francisco. Para uma sociedade que precisa reaprender a esperança cristã, que é, em grande parte, superficial e desatenta, se não abertamente hostil à mensagem da Igreja, só se pode avançar propondo a imagem do pai misericordioso. Porque ninguém vai se enamorar de uma lei.
Daí a tentativa de Francisco: unir doutrina e pastoral, evitando que a primeira tenha vantagens sobre a segunda, que a preocupação com a lei, com o conjunto de regras, torne-se preponderante respeito pelas criaturas, do jeito como elas são, com todas as suas contradições, limites e pobreza interior.
A figura de referência é o samaritano, enquanto seu oposto é o doutor da lei.
Segundo Bergoglio, a inspiração samaritana deve encarrilhar toda a ação da Igreja, até mesmo os assuntos relativos à doutrina. Eis, então, uma imagem cara a Francisco: uma "Igreja acidentada", no sentido de que participa, esta envolvida, que ele prefere ao de uma Igreja doutrinariamente bem equipada, atenta e rigorosa em reiterar a verdade, mas fria e distante das pessoas. Daí seu pedido, insistente, aos crentes, de sujarem as mãos com a realidade, especialmente com os pobres e abandonados, e não tornarem-se "cristãos de sala de visita», educados, mas frios, emprenhados em tergiversar sobre os grandes problemas do mundo, mas mantendo-se à distância deles.
Em Amoris Laetitia o paradigma pastoral foi fortemente empurrado para a frente: Francisco sustenta que não se pode ter uma norma universal, obrigatória para todos, e que a Igreja deve, portanto, levar em conta, em sua avaliação, caso a caso.
Nesta estratégia, porém, há um desequilíbrio. A atenção dada à misericórdia e à ternura de Deus, se não for acompanhada por um esforço igualmente assíduo com a questão da verdade, do verdadeiro bem e do modo para atingi-lo, corre o risco da indeterminação e do sentimentalismo.
Quando se refere à doutrina, Francisco o faz principalmente estigmatizando o comportamento dos doutores da lei, identificados com os hipócritas fariseus, interiormente corruptos, e para alertar contra os sofismas dos teólogos, cuja ocupação principal, diz o Papa, é tornar mais difícil o acesso à Palavra de Deus. Há muito mais fé nos simples e no povo de Deus que nos escribas, diz Francisco. Com isso, no entanto, ele revela-se um pouco injusto, porque pode-se estar atento à doutrina, sem necessariamente ser um hipócrita fariseu ou teólogo sofista. Além do mais, continua não abordando a questão do verdadeiro bem.
Para Francisco, o importante é "acompanhar" o homem no seu caminho, tendo olhos misericordiosos com suas contradições e limites, mas a ação de acompanhar, esta proposta light, não é suficiente por si só. Ela necessita fundamentos.
O ministério em si mesmo é uma práxis e, como tal, necessita de uma doutrina que o sustente. Uma pastoral sem doutrina, ou com uma doutrina vaga e ambígua, pode ir contra a verdade do Evangelho. A pastoral desvinculada da lei, pode tornar-se simples consolo de corte sentimental, privado de indicações com relação ao verdadeiro bem e ao caminho a seguir, em vista da salvação da alma. E se a Igreja limitar-se a este tipo de acompanhamento, facilmente cederá, de fato, à lógica do mundo.
O papa, continuamente, recomenda uma Igreja missionária e em “saída”, mas, contrariamente ao seu antecessor, não parece interessado na questão da verdade. Daqui vem o desconforto que alguns experimentam diante dos seus pronunciamentos.
A própria imagem de ''hospital de campanha”, onde curar as feridas mais graves, precisa de especificações. Curar em que sentido? Tratar como? Para chegar aonde? Num hospital, pode-se deixar tratar e curar quem não acredita nos médicos e nos medicamentos? Bergoglio, sobre isto, é esquivo.
A Igreja sempre considerou a doutrina de um único modo, como caminho que conduz a Deus. Claro, também cometeu erros, também foi protagonista de crimes, mas nunca questionou seu direito e seu dever de indicar a doutrina correta como caminho para Deus. A palavra “doutrina” tem a mesma raiz de “doutor”, “docente”. Deriva do verbo docere, ensinar. É uma ferramenta, cuja validade pode ser julgada pelos resultados: se conduz a Deus é verdadeira, se não conduz a Deus, é falsa.
Em Collaboratori della verità (2006), Bento XVI dizia: "Quando a Igreja denuncia os verdadeiros pecados desta época (a destruição da família, a morte de crianças não nascidas, as deformações da fé) se lhe contrapõe um Jesus, que seria unicamente misericordioso. Formulou-se a máxima: não se pode ser cristão às custas do ser homem. E por "ser homem" entendia-se o que agrada a todos. Ser cristão tornou-se assim um opcional gratuito, que não deve custar nada. Mas Cristo sofreu a cruz: um Jesus disposto a tolerar tudo, não teria sido crucificado".
Juan Carlos Scannone, teólogo argentino, amigo de Bergoglio, também jesuíta (teórico, com Lucio Gera, da Teologia do Povo que influenciou, não pouco, o atual papa), explica que, com Francisco, a Igreja adotou o paradigma do Vaticano II. Do paradigma anterior, que era a-histórico, porque partia do "dever ser", sem fazer as contas com a realidade do tempo, desembarcamos no paradigma histórico, desejado por João XXIII, com o pedido de ter-se mais consideração com o pessoal e o subjetivo. A mudança, explica o padre Scannone, evidente na Gaudium et Spes, raiz e inspiração da Evangelii Gaudium, coloca em prática o método "ver, julgar, agir", que estava no centro da Conferência dos Bispos latino-americanos em Medellín (1968), e que a Igreja da América do Sul aplicou até Conferência Aparecida (2007), cujo documento final, elaborado sob a guia de Bergoglio, é outra fonte de inspiração de Francisco. Eis porque, explica Scannone, o papa está hoje empenhado no acompanhamento dos pobres, eis porque denuncia a cultura do descartável, e pede aos pastores atenção e solicitude para cada pessoa individualmente. A realidade é mais importante do que a ideia, Bergoglio já dissera, em 1974, como provincial dos jesuítas.
Investigar as raízes do pensamento do papa, ajuda-nos a perceber como Francisco está ligado a certo clima cultural, social e teológico, que continua a influenciá-lo. Mas aqui é legítima uma pergunta: aquela temporada, por mais emocionante, já não foi talvez superada? Ou, pelo menos, não o foi em alguns dos seus aspectos?
Hoje em dia, diante da propagação do subjetivismo e do relativismo, imersos, como estamos, na cultura “líquida” da pós-modernidade, exposta ao risco de ver desaparecer todos os instrumentos capazes de garantir uma avaliação moral, o velho paradigma pode ainda constituir a chave de leitura principal? Hoje, até mesmo como Igreja, não arriscamos estar demasiado imersos na história e incapazes de fornecer pontos de referência estáveis, capazes de guiar a humanidade moralmente desorientada?
O teólogo Inos Biffi (Osservatore Romano, 12 de abril de 2016) adverte contra algumas tendências da cultura contemporânea, que podem ser assumidas, até mesmo pela Igreja. Quando a subjetividade prevalece acima de tudo, o sujeito fica à mercê das impressões e a ação humana não contará com uma “razão iluminada e sólida", capaz de fundamentar as escolhas. É o grande problema do nosso tempo. Não temos princípios e conceitos básicos para explicar o que somos e o que fazemos. Ou melhor, temos princípios e conceitos que, fatalmente, nos levarão de volta "à instintividade e a opiniões incontestáveis", o que significa arbítrios "alérgicos a qualquer controle". Eis, então nossa ''absolutização do sujeito, transformado radicalmente em princípio imune do bem e do mal, do válido e do inválido". Questão que, observa Biffi, se no início parecia antropológica e racional, tornou-se necessariamente teológica.
Desmascarar a visão “líquida” da realidade humana e voltar a reivindicar o direito de "encontrar a inteligibilidade, a ordem, a luz das coisas, o seu ser reflexo do Verbo, e por isso do Pai, que chamou para vida". Esse é o desafio dramático, diante de todos nós, e ainda mais diante do crente, em tempo de sociedade líquida.
No entanto, Francisco não parece interessado em assumir este desafio. Em algumas ocasiões, ele usou palavras duras contra o que chamou de "pensamento único", mas interpretando-o a partir de um ponto de vista social e econômico, e não sob o perfil filosófico e suas possíveis implicações teológicas. Sua teologia, portanto, parece reduzir-se a uma teologia de direitos, que exclui, ou deixa em segundo plano, os deveres.
"A ingerência espiritual na vida pessoal não é possível". Francisco o disse na entrevista à Civiltà Cattolica e, entre todas as suas declarações, é uma das mais problemáticas.
Aqui Bergoglio parece tornar próprio, voluntariamente ou não, um clichê típico da pós-modernidade: a decisão individual, se tomada com consciência, é sempre boa, ou pelo menos sempre tem valor, de modo que, ninguém pode julgá-la a partir de fora, com uma norma universal. Mas se a escolha individual, pelo simples fato de ter sido tomada com consciência, é em si boa e inquestionável, não estamos no relativismo total? E não é, talvez, verdade, que ao longo desta estrada, é fácil ancorar-se à ideia, agora difundida também na ação pastoral da Igreja, de que sinceridade e espontaneidade cancelam a natureza do pecado?
É realmente tão misericordioso respeitar a escolha de vida de cada um só porque é uma escolha feita livre e sinceramente? A Igreja não deveria, talvez, trazer à luz o modo de vida marcado pelo pecado? E não está, exatamente, neste exercício a forma mais elevada de misericórdia? Se a Igreja não mostra o pecado, se não consente ao pecador percebê-lo, com clareza, dentro de si mesmo, de acordo com a lei de Jesus, de que modo poderá colocar-se a serviço das pessoas? O primado da consciência não pode ser confundido com a impossibilidade ou a incapacidade de julgar. Está em risco aqui a própria autoridade do papa, mas sobretudo, o destino eterno das almas.
Quando Francisco, conversando com Scalfari, argumenta que "todo mundo tem sua própria ideia do bem e do mal, e que cada um deve optar por seguir o bem e lutar contra o mal, como ele o concebe", o que devemos pensar? Aqui surge uma concepção subjetivista e relativista da consciência moral, que certamente não se casa com o que a Igreja sempre ensinou. Para o católico, não existe, talvez, o verdadeiro bem, o bem objetivo?
E como julgar a passagem na qual o Papa afirma que, na busca do bem, "temos de incitá-lo [o indivíduo] para que continue em direção daquilo que ele pensa ser o bem”? Sustentar que a tarefa da Igreja não é aquela de mostrar o verdadeiro bem, mas simplesmente aquele de incitar cada indivíduo "em direção ao que ele pensa ser o bem", não é uma cedência ao pensamento relativista?
"A imagem do Juízo final é, primariamente, não uma imagem de terror, mas uma imagem de esperança; pode até ser, para nós, uma imagem decisiva da esperança. Mas não é também uma imagem assustadora? Eu diria: é uma imagem que põe em causa a responsabilidade". Bento XVI escreveu assim no Spe Salvi (n. 44), refletindo sobre o juízo de Deus.
Responsabilidade. É preciso admitir que esta palavra tão cara a Ratzinger soa, hoje, obsoleta.
Quando rezamos o Credo dizemos em certo ponto: "... donde há de vir e julgar os vivos e os mortos." A ideia do juízo divino nunca foi estranho para os cristãos. Ao contrário, desde o início, tem sido apelo à consciência e uma bússola para o comportamento. Como é possível, portanto, um cristianismo sem julgamento? A que fica reduzido o homem se colocamos na sombra a liberdade na responsabilidade para escolher entre o bem e o mal? E a que é reduzido Deus, se não lhe reconhecemos a faculdade de julgar, mas apenas aquela da "misericordiar"?
"Na era moderna, a ideia do juízo final se desvanece". Escreveu Bento XVI.
Não é por acaso que o Ano Santo de misericórdia, querido e proclamado por Francisco, é o primeiro na história que quase fez desaparecer a ideia de indulgência, isto é, da remissão das penas temporais a serem descontadas na vida eterna por causa dos pecados cometidos, uma remissão que pode ser plenária, ou seja, total ou parcial, que se pode obter a certas condições estabelecidas pela Igreja. A indulgência nos lembra que há uma vida após a morte, e que, no além, pode haver uma pena a ser descontada. Deste modo, lembramos que haverá um julgamento de Deus. Conceito desconfortável para uma espiritualidade light. Melhor removê-lo.
Papa Francisco não cansa de pregar sobre a ternura do Bom Pai, um Pai que não é juiz, que tem os braços abertos e acolhe a todos, mas como se pode exercer o papel e a responsabilidade de pai, sem também ser, em alguma medida, juiz dos comportamentos dos filhos? Nós pertencemos a uma época e a uma cultura em que a figura do pai sofreu uma metamorfose repentina: de pai demasiado frequentemente juiz e patrão, tornou-se um amigo e companheiro, mas vimos os danos que essa transformação trouxe consigo.
Nenhuma nostalgia dos tempos em que os pais puniam e reprimiam severamente, mas passamos de um extremo ao outro. O pai não pode ser amigo e companheiro, como agora é pintado. Se agir assim, ele trai sua missão, ou pelo menos a degrada. Da mesma forma, seria uma violência pintar o bom Deus apenas como terno e amoroso Pai, privando-o das funções de direção moral e, portanto, do dever de denunciar a má conduta e, eventualmente, sancioná-la. Num mundo que, do ponto de vista moral, já está em desordem, com uma sociedade cultural e espiritualmente "líquida", sem pontos de referência sólidos e credíveis, é adequado introduzir a "liquidez" também na imagem de Deus?
Durante a apresentação oficial do Amoris Laetitia, no Vaticano, o cardeal Christoph Schönborn se perguntou: "Este contínuo princípio da inclusão preocupa, obviamente, alguns. Não há menção aqui em favor do relativismo? Não se torna permissivismo a tanto evocada misericórdia? Não se tem mais clareza dos limites que não podem ser ultrapassados, das situações que, objetivamente, são definidas irregulares, pecaminosas? Esta exortação não favorece [sic] um certo laxismo, um "everything goes" (tudo serve)? A misericórdia de Jesus não é, ao contrário, frequentemente, uma misericórdia severa, exigente?".
Embora ciente do problema, o arcebispo de Viena deu uma resposta que não me convence. Ele disse: sabendo que "não faz sentido uma denúncia retórica dos males atuais", e que "nem mesmo serve tentar impor normas com a força da autoridade", Francisco pede uma "conversão pastoral". O que significa isso?
Papa Francisco, explicou ainda o cardeal, como um bom jesuíta, tem no coração a questão da educação para a responsabilidade pessoal. Por isso ele fala que "há sempre necessidade de vigilância". No entanto, "a vigilância também pode ser exagerada". Lemos isso na Exortação: "A obsessão, porém, não é educativa; e também não é possível ter o controle de todas as situações em que o filho poderá chegar a encontrar-se [...]. Se um pai está obcecado com saber onde está o seu filho e controlar todos os seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço. Mas, desta forma, não o educará, não o reforçará, não o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa, acima de tudo, é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento de sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia" (n. 261).
De acordo com o arcebispo, é "muito esclarecedor vincular este pensamento sobre a educação com aqueles relativos à prática pastoral da Igreja. Na verdade, neste sentido, o Papa Francisco volta frequentemente a falar da confiança na consciência dos fiéis: "Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las" (n 37).
Estamos, aqui, no coração do problema. Compreendo bem que o educador não deve estar obcecado com a vigilância, mas isto não impede que a regra e a lei permaneçam decisivas. Quem quer que tenha sido educador sabe que não se pode educar ignorando o problema das regras, e que introduzir regras não significa automaticamente estar obcecado.
É preciso seguir, diz o cardeal Schönborn, a "via caritatis", que se externa precisamente no discernimento e no acompanhamento, não no juízo. Francisco compreende as preocupações daqueles que preferem "uma pastoral mais rígida que não dê lugar a confusão alguma" (n. 308), mas a todos objeta, dizendo: "Pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de frustrar o Evangelho" (n. 311).
Papa Francisco, conclui Schönborn, "confia ‘na alegria do amor’. O amor sabe como encontrar o caminho. É a bússola que indica a estrada. É o objetivo e o próprio caminho, porque Deus é amor e porque o amor vem de Deus. Nada é tão exigente quanto o amor. É por isso que ninguém deve temer que o Papa Francisco nos convide, com Amoris Laetitia, a um caminho demasiado fácil. O caminho não é fácil, mas é cheio de alegria!"
Ora, todos sabemos que o arcebispo de Viena é um teólogo arguto, mas suas observações não explicam muito. A chamada final ao amor, que sabe como encontrar o caminho, soa realmente muito genérica e superficial. Qual amor? Qual caminho? Para chegar aonde?
A referência à função educativa é certa, mas repetimos: educadores atentos estão bem conscientes de que a questão das normas, e portanto, dos limites e da doutrina, não pode ser contornada. Nenhum pai, diante da questão de como fazer crescer um filho na responsabilidade, pode dar-se ao luxo de responder, referindo-se, genericamente, ao amor. É preciso especificar. O amor deve ser declinado. Também através das regras, sem as quais não poderá haver verdadeira educação para a liberdade responsável. Caso contrário, o salto para o relativismo, já foi feito.