Esperança como bússola num tempo de incertezas

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26 Janeiro 2016

“Vivemos o fim de um ciclo histórico, no esgotamento da modernidade. Tempo de incertezas, caem paradigmas. Estamos num ponto de mutação. Mais do que nunca é necessário apostar na Esperança. Para Péguy, ela é a pequena virtude que leva as duas irmãs, a Fé e a Caridade, pela mão”, escreve Luiz Alberto Gómez de Souza, sociólogo, em texto publicado em italiano na revista Madrugada, da Associação Macondode Pove del Grappa, na comemoração de seu número 100, dezembro de 2015.

Eis o artigo.

Vivemos o fim de um ciclo histórico, no esgotamento da modernidade. Tempo de incertezas, caem paradigmas. Estamos num ponto de mutação. Mais do que nunca é necessário apostar na Esperança. Para Péguy, ela é a pequena virtude que leva as duas irmãs, a Fé e a Caridade, pela mão. Ela nos guia para saber apostar em planos provisórios e ainda incertos da história. Há que deixar de lado dogmatismos e leis deterministas. É preciso uma abertura ao novo, ao inédito, que vai subindo das frestas da sociedade. Um mundo desaparece e o novo ainda é frágil e experimental. Mas há práticas fecundas, portadoras de futuro. Escrevi faz anos um livro, A utopia surgindo no meio de nós (Mauad, 2003). Há várias utopias concretas, pequeninas como a virtude da Esperança. Saberemos descobri-las e ajudar a que se desenvolvam?

O bispo de Roma, Francisco, nos convoca a construir um mundo mais humano, que vença uma sociedade da indiferença. Mas, à primeira vista, o que vemos é o oposto: violências, milhões de seres humanos fugindo do terror. Francisco fala de uma terceira guerra por partes. Logo que foi eleito desceu a Lampedusa e abraçou os sobreviventes de um terrível êxodo.

Desde então, a situação foi ficando cada vez mais trágica. Formigueiros humanos chegam a Lesbos, sobem pela Sérvia e pela Croácia, encontram os muros de arame farpado da Hungria.

Grande parte dos fugitivos vem da Síria, envolta numa guerra de três frentes: a repressão de Bashar, os vários grupos insurgentes e, agora, ainda pior, o Estado Islâmico. Todos lutando com todos e, no meio, populações indefesas, com muitas crianças. Há que buscar ali, no meio da destruição, um sinal. E descubro o testemunho radical do jesuíta italiano Paolo Dall’Oglio, que criara nesse país hoje martirizado, o Mosteiro Deir Mar Musa, encontro de religiões e culturas, possivelmente destruído. Paolo foi expulso em 2012, mas voltou clandestinamente no ano seguinte. Talvez tenha sido sequestrado pelo Estado Islâmico. Estará vivo ou sofreu o martírio? Não há traços dele. Esteja na Casa do Pai, ou num recanto qualquer do país, é a sinalização de uma luz mais à frente.

Giuseppe Dossetti, deixando uma carreira brilhante na vida política, fez-se sacerdote e criou um centro de reflexão e de espiritualidade. Mas em 1994, sentindo uma terrível crise política e ética, saiu de seu isolamento e exigiu uma mudança de rumos na Itália. Tomou como referência um texto de Isaías, com uma pergunta a alguém que via a realidade do alto e pela frente: “Sentinela, quanto falta para acabar a noite?” E veio a resposta: “o amanhecer vai chegar” (Is. 21, 11-12). Para além das crises e das violências, temos de trabalhar com um horizonte utópico ambicioso.

Para o cristão, a história tem um sentido. Teilhard de Chardin falava de uma direção axial, a ser construída, na direção de um ponto ômega. Para Paulo, há que recapitular todas as coisas em Cristo (Efesios,1,10). E tudo isso impulsado pela Esperança, que não aguarda alguma solução determinista, mas que exige uma prática concreta de amor e de responsabilidade cidadã.

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