Focos leais a Kadafi ainda mostram força em Trípoli

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24 Agosto 2011

Às 23h50 de ontem em Trípoli, projetéis incandescentes de armas pesadas e leves cruzavam o céu, quase 40 horas depois que rebeldes tomaram Bab al-Azizia, a fortaleza de Muamar Kadafi. Buzinas constantes, alternadas com gritos de "Deus é grande!", completavam uma atmosfera contraditória na cidade de 1 milhão de habitantes, a maior da Líbia. A contradição está no fato de que os ruídos são ao mesmo tempo a celebração da vitória e o confronto com os focos de resistência pró-regime.

A reportagem é de Andrei Netto e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 25-08-2011.

Trípoli ganhou nas últimas 48 horas o mesmo contorno de outras cidades rebeldes do oeste da Líbia, como Zintan e Nalut. Prédios semidestruídos por disparos de canhões ou incêndios, barricadas de insurgentes nas grandes avenidas, bandeiras tricolores em vermelho, verde e negro e, sobretudo, violência e mortes. Mais de mil corpos, entre os de insurgentes, de um lado, e militares e milicianos, de outro, empilham-se no necrotério e nas câmaras frias do hospital da capital desde a sexta-feira.

O resultado do banho de sangue é a alternância de poder. Há seis meses, a reportagem do Estado esteve pela primeira vez em Trípoli e verificou a hegemonia absoluta do regime de Kadafi, frente a pequenos focos rebeldes em Taluja e outros bairros periféricos. Agora, a situação é inversa. Insurgentes ostentam a pretensa vitória com todos os meios. Nas paredes, pichações reiteram palavras de ordem. Em uma delas, na entrada oeste da cidade, lia-se em árabe e inglês: "Líbia é nosso país; Trípoli, nossa capital", um lema recorrente que conclama os revolucionários e resistir à tentação separatista e lutar pela vitória sobre Kadafi em seu maior bastião.

A hegemonia rebelde, entretanto, não reduz os riscos. Em pelo menos quatro regiões da capital - Bab al-Azizia, o aeroporto de Trípoli, o Hotel Rixos e o bairro de Abou Slim -, militares e milicianos resistem. Na mira de atiradores de elite e nas vias de acesso, jornalistas se tornam alvo.

Para combater as forças do regime, voluntários de todo o país e do exterior convergem para a capital. Aos 20 anos, Zain queria participar da tomada da fortaleza. "Vim aqui porque precisava ver com meus próprios olhos a nossa vitória", resumiu. Americano descendente de líbios, Ben Elemen, de 40 anos, participava de barreiras na entrada da capital na manhã de ontem, depois de abandonar a Califórnia, participar da revolta em Benghazi e viajar de Sabba nas últimas horas. "Eu acredito que Kadafi esteja pela Argélia", afirmou, sem perder a disposição de caçar o ex-ditador. "Ainda espero que ele seja preso e julgado na Líbia."