Irlanda, uma ferida para a Igreja católica

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15 Julho 2011

A polêmica retorna depois da publicação do novo documento sobre os abusos de menores dedicado à diocese de Cloyne.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 14-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A publicação do quarto relatório sobre os abusos sexuais cometidos por clérigos na Irlanda, dedicado à diocese de Cloyne, representa para a Igreja Católica mais uma ferida. Quem é fortemente criticado no relatório é um bispo, John Magee, bem conhecido na Cúria Romana por ter sido secretário de três papas: Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II.

O relatório estava concluído há algum tempo, mas foi publicado apenas há poucos dias porque um capítulo havia sido bloqueado por um processo em andamento contra um sacerdote pedófilo. Nas 341 páginas, descrevem-se 19 casos e se acusa o bispo por não ter dado respostas adequadas às denúncias durante o período de 1996 a 2008. Magee, que deixou a diocese há um ano, apresentando sua renúncia, assumiu "total responsabilidade" pelos erros cometidos e por ter subestimado o fenômeno.

Um dos pontos sobre os quais se concentrou a atenção da mídia anglo-saxônica refere-se à resposta que o Vaticano deu aos bispos irlandeses em 1997, depois de terem discutido o "Framework document", que continha novas disposições para lidar com casos de pedofilia, que previa, entre outras coisas, a denúncia obrigatória à polícia nos casos em que o bispo considerasse fundamentadas as acusações contra um padre.

A Congregação para o Clero, depois de examinar o texto, fez saber, por meio do Núncio Apostólico, que o documento continha "procedimentos e disposições que parecem ser contrários à disciplina canônica e que, se aplicados, poderiam invalidar os próprios atos dos bispos que estão tentando pôr fim ao problema", em caso de recurso à Santa Sé por parte dos padres acusados. Em particular, o Vaticano contestava a "mandatory reporting", ou seja, a denúncia obrigatória.

Do ponto de vista técnico, tendo em vista as leis canônicas vigentes, a posição das autoridades vaticanas era correta. Mas aquela carta de 1997 atesta, mais uma vez, como, do outro lado do Tibre e na Igreja universal, se tendia a subestimar o fenômeno e não se compreendia sua verdadeira dimensão e a urgência de respostas adequadas e fortes.

Seria inútil procurar bodes expiatórios individuais: a subestimação era generalizada, e a linha expressada pela Santa Sé aos bispos irlandeses não era fruto das ideias pessoais deste ou daquele cardeal, mas era compartilhada.

Foram necessários os graves escândalos dos Estados Unidos para que, em 2001, João Paulo II e o então cardeal Joseph Ratzinger introduzissem regras novas e mais rigorosas.

A gravidade do Relatório Cloyne está no fato de ter mostrado como, mesmo depois daquela reviravolta decisiva na luta contra a pedofilia dos clérigos, bispos individuais podiam continuar resistindo e continuavam a subestimar, como aconteceu na diocese dirigida por Magee.

Em todo caso, com as novas regras canônicas e as novas diretrizes introduzidas há quase 10 anos, há a necessidade de uma mudança de mentalidade, que Bento XVI testemunhou nesses primeiros seis anos de pontificado encontrando as vítimas e mostrando-se decidido a enfrentar sem nenhuma hesitação os casos de abuso, como testemunham as tantas reduções ao estado laical de sacerdotes culpados ocorridas no último período.