Um jesuíta amigo da Al-Qaeda? Paolo Dall'Oglio responde às acusações do governo sírio

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26 Setembro 2012

O padre Paolo Dall'Oglio é pago por fantasmagóricas "entidades" para apoiar os inimigos da Síria, incluindo a Al-Qaeda. Essa é a última acusação que o regime de Bashar al-Assad dirigiu ao jesuíta, envolvido na Síria durante 30 anos no diálogo com o Islã e expulso do país há três meses.

A reportagem é de Danilo Elia, publicada na revista dos jesuítas italianos, Popoli, 21-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo o comunicado emitido no dia 20 de setembro pela agência de notícias oficial Sana, o Ministério das Relações Exteriores em Damasco teria manifestado o seu pesar diante das declarações de Dall'Oglio, culpado por ter "rompido o seu mandato espiritual e participado da campanha de desinformação contra a Síria".

A nota continua de modo ainda mais duro, defendendo que Dall'Oglio está se engajando em uma "campanha midiática patrocinada por certos grupos, ataca a Síria e justifica os atos terroristas cometidos por grupos armados, jihadistas, salafistas, takfiris, incluindo a Al-Qaeda".

O padre Dall'Oglio, que assina uma coluna na versão impressa da Popoli e um blog no site, responde neste entrevista às acusações.

"Esse comunicado infelizmente demonstra a paranoia de um regime à deriva e o seu descolamento da realidade. A declaração, paradoxalmente, reconhece o papel positivo que eu desempenhei, quando diz que nos 30 anos transcorridos no país eu fui 'testemunha de todos os sucessos alcançados pela Síria nos âmbitos político, econômico e social". E agora se descobre que – como eu sou solidário com os jovens que pedem democracia e são presos, torturados ou assassinados – eu me tornei um agente terrorista. Como em toda parte se declarou sistematicamente a contiguidade entre extremismo muçulmano e conspiração sionista, é claro que o círculo se fecha e se entende de quem o padre Paolo é agente. Isso é um contrassenso. Eu estive com eles durante 30 anos e agora faço parte dos muitos traidores que abandonaram o barco do regime que afunda. E assim se descobre quem são os verdadeiros amigos e quem são os traidores introduzidas, e que eu era um lobo em pele de cordeiro".

Segundo o senhor, qual é o objetivo desse comunicado?

Responder ao impacto psicológico da minha atividade sobre o porte "cultural" do regime, no sentido de que Assad precisa manter compacta a aliança das minorias contra a revolução síria. Na ótica do regime, essas minorias devem viver na convicção de que, diante deles, não há senão o terrorismo islâmico, massacrador de alauítas. Um comunicado de uso interno, enviado a todas as antenas do sistema, que tem uma rede de associados em todos os países, especialmente no Ocidente.

No comunicado também se diz que o senhor teria sido afastado pelas autoridades eclesiásticas.

Segundo eles, foi o bispo que me expulsou. A Igreja estaria com o regime e se deu conta de que o padre Paolo é um traidor. Há uma pressão sistemática sobre os líderes religiosos para que permaneçam com o regime até o fim.

Em particular, acusam-no de ter se intrometido em questões internas, que não diziam respeito ao seu papel de religioso.

O fato de eu ter falado de questões técnicas sobre como salvar o povo sírio do massacre perpetrado pelo regime de Assad (por exemplo, com relação a uma no-fly zone) os perturba. De fato, Assad coloca as suas próprias esperanças nos bombardeios aéreos e nos da artilharia pesada. A no-fly zone sozinha, no entanto, pode não ser oportuna, porque poderia facilitar o aumento dos massacres de natureza  comunitária, especialmente na região do rio Orontes e da montanha habitada principalmente pelos alauítas a oeste do rio. A no-fly zone deveria ser acoplada à presença das tropas da ONU nos territórios em risco.

Mas aqui novamente nos confrontamos com o veto russo. Está sendo estudada, em alternativa, a possibilidade de garantir militarmente (especialmente com mísseis terra-ar e armas antitanque) a segurança de zonas ao redor das fronteiras externas, também de modo a elaborar uma metodologia que garanta que as armas fiquem, por assim dizer, em boas mãos! Se funcionar, isso poderá ser ampliado progressivamente, criando zonas libertadas e asseguradas, e nas quais o novo Estado deve se preparar para as responsabilidades nacionais ajudado por países amigos.

Ora, no plano militar, as coisas estão estagnadas, e parece que os bombardeios diminuíram parcialmente. Muitas reportagens estão mostrando os efeitos catastróficos dos bombardeios sobre a população: os homens do regime se dão conta de que puxaram a corda demais, e talvez os seus conselheiros russos os estão aconselhando a liberar a tensão. Certamente, não parece que eles sofram de escrúpulos morais.