Como a Igreja alemã combate os pedófilos

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27 Junho 2012

Stephan Ackermann, 49 anos, bispo de Trier, é delegado da Conferência Episcopal Alemã para o dossiê dos abusos do clero. Um papel criado em 2010, quando, na Alemanha, explodiu o escândalo da revelação de milhares de abusos perpetrados em prestigiados colégios religiosos. O sistema alemão é o exemplo de como se pode organizar seriamente o combate contra a pedofilia. Se não houver a limitação a alguma diretriz burocrática como fez a Conferência Episcopal Italiana.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 24-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Dom Ackermann, por que um "delegado nacional" para a luta contra os abusos?


Queríamos dar um rosto ao compromisso do episcopado. Naturalmente, todo bispo é autônomo nas suas responsabilidades. Digamos que nos foi dada a tarefa de lembrar às dioceses as nossas diretrizes e exortar à sua realização.

Diretrizes que preveem pessoas referências aos abusos em todas as dioceses.

A referência, obrigatoriamente, não deve fazer parte da direção diocesana para não dar origem a conflitos de papéis. Às vezes, o padre corre o risco de defender exclusivamente o padre. Por isso, é bom que haja pessoas terceiras. Depois, há os encarregados aos quais a vítima pode se voltar para assinalar o seu caso. Os avisos divulgados pela diocese de Trier, também via Internet, indicam uma mulher, jurista, e um psicólogo-teólogo. São as pessoas as quais se pode assinalar casos suspeitos. É um sistema que funciona bem. Cada vez mais pessoas estão se pronunciando.

Na tempestade de 2010, um de seus coirmãos exclamou: "Sofreremos os efeitos disso por 10 anos...".

Eu não sei quanto tempo vai durar. Foi um choque enorme, um golpe muito forte que sacudiu toda a vida eclesial. Foi posta em risco toda a nossa credibilidade, desacreditando o nosso papel moral. Com o resultado de provocar uma falta de confiança no papel do sacerdote.

Bento XVI reconhece que os abusos abalaram a fé de muitos.

Diante de abusadores, que anunciavam o Santíssimo e distribuíam o Santíssimo na comunhão, como não poderia acontecer que, para muitos, se despedaçasse também a relação com Deus? Mas outros também me dizem: apesar de tudo, eu não perdi a fé.

O que o senhor mais teme?

Mais até do que as polêmicas midiáticas, eu temo a retirada silenciosa dos fiéis. A atitude daqueles que se distanciam se fazer barulho. É um dano profundo.

O senhor não gosta da palavra "abuso". Insiste no termo violência.

É uma terminologia sugerida pelos especialistas e pelas próprias vítimas. Porque "ab-uso" sexual parece deixar transparecer que pode ter havido um "uso" positivo dessas relações. Ao contrário, sempre há violência. Porque, por parte do abusador, não se trata de atração sexual. Aqui não falamos de eros. Trata-se unicamente de poder, de uso violento do poder. Em uma situação assimétrica em que a criança ou o menor é sempre uma vítima, até mesmo no caso hipotético em que ela fosse "atraída" por aqueles que lhe fazem mal.

O senhor também não gosta simplesmente de "vítima".

Acho que é mais correto falar de pessoas atingidas. Os próprios abusados estão cansados de ser chamados constantemente de vítimas. Nos Estados Unidos, se usa um termo duplo, victim-survivors, sobreviventes da violência.

Como vocês fazem a denúncia do culpado?

Não é automática justamente por respeito às pessoas atingidas. Para deixá-las livres para falar. Nós as encorajamos a fazer a denúncia e pressionamos o culpado para que denuncie a si mesmo.

Há situações em que vocês fazem a denúncia?

Nós assumimos a obrigação de informar a polícia e a magistratura em dois casos específicos: o perigo de reiteração do delito e o surgimento de fatos que indiquem a existência de outras vítimas. Em todo caso, os responsáveis pelos abusos não têm mais contato com os menores nem são envolvidos no serviço paroquial regular.

No ano passado, vocês tomaram uma decisão crucial: confiar ao Instituto Criminológico da Baixa Saxônia uma pesquisa sobre eventuais abusos perpetrados em todas as 27 dioceses alemãs de 2000 a 2010 e uma outra investigação em nove dioceses-amostra sobre os eventos de 1945 até hoje.

Permitimos que uma equipe de juristas independentes examinassem os arquivos pessoais de padres, diáconos e religiosos. É algo delicado. Nenhuma outra instituição, nenhum ministério deixa que outros olhem dessa forma em seus próprios documentos. Nós somos os únicos na Alemanha.

Por que vocês decidiram dar esse passo?

Porque, como Conferência Episcopal, queremos entender melhor o que ocorreu. Descobrir o que aconteceu. Olhar a realidade de frente.

Vocês também têm um sistema de indenizações?

Decidimos isso no ano passado. Não são um fato jurídico, são chamados de "reconhecimento material da injustiça sofrida" [de 5.000 euros ou mais]. Mas quem paga é o autor do delito e a diocese ou a ordem religiosa. Nós, na sede central, apenas formulamos uma proposta de indenização. É importante que o responsável reconheça a sua culpa e pague. Mas há quem recuse o dinheiro dizendo: "Seria como me prostituir".

Quantos pedidos vocês já receberam até agora?

Cerca de 1.100. À parte estão os custos de terapias individuais ou de casais. Além de nós, Estados, regiões e Igrejas criaram um Fundo especial para as Crianças dos Internatos, financiado com 120 milhões de euros.

Se o senhor tivesse que fazer um balanço: em que ponto a Igreja está hoje?

Entre polêmicas e suspeitas, a nossa credibilidade ainda é fraca. Um bispo norte-americano diz que sobe e desce como a maré. Estamos a caminho. Trata-se de saber se deparar com as deficiências e as culpas da Igreja sem subestimar os crimes, querendo encontrar a verdade.

Há alguma questão que se imponha?

Devemos nos perguntar: o que é a Igreja? Certamente, o milagre do amor de Cristo para com a sua Igreja permanece, mas também é preciso um olhar desencantado para a Igreja na sua existência real.

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