O montinismo antes de Montini

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30 Abril 2012

Um livro que revela a importância de Montini e do montinismo em suas ambiguidades com relação à modernidade, principalmente no rastro das reviravoltas intelectuais de Maritain. Uma defesa argumentada da contribuição de Montini e da sua obra de rebocador do Concílio Vaticano II e de papa reformador.

A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 21-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Giovanni Battista Montini (Papa Paulo VI de 1963 a 1978) é uma das figuras-chave do século XX italiano, católico e não só. Deve-se ao denso livro de De Giorgi (Mons. Montini. Chiesa cattolica e scontri di civiltà nella prima metà del Novecento [Mons. Montini. Igreja Católica e choques de civilização na primeira metade do século XX], Ed. Il Mulino, 2012, 357 páginas) uma análise de Montini anterior ao seu episcopado em Milão e o pontificado dedicada ao período da formação até a primeira década do segundo pós-guerra, transcorrido entre os andares superiores da Cúria Romana como pró-secretário de Estado de Pio XII.

Um primeiro capítulo traça as linhas de um "montinismo antes de Montini" (nascido em 1897); o segundo a história juvenil (1913-1925); o terceiro, os primeiros anos na Secretaria de Estado entre Fuci [Federação Universitária Católica Italiana] e fascismo (1925-1935); o quarto, os anos como sostituto [vice-secretário] de Estado até a Segunda Guerra Mundial (1935-1945); e o quinto capítulo vai até 1955, com a sua promoção-remoção em Milão por parte de uma Cúria Romana a qual retornará como papa depois do conclave de junho de 1963.

A análise de De Giorgi é uma análise aprofundada das raízes intelectuais do percurso teológico e eclesial de Montini: São Tomás e Jacques Maritain, típicos do mundo da Fuci e dos graduados católicos (mas, em seguida, também de Giuseppe Lazzati); o pensamento de Santo Agostinho e de Romano Guardini; a herança da "teologia da história" durante Pio XII, especialmente graças à eclesiologia francesa (Charles Journet, Henri de Lubac, Jean Daniélou); a herança democrática, que havia sido de Alcide De Gasperi e que, no fim do seu percurso na Cúria Romana, era representada por democratas-cristãos como Fanfani e Moro.

Na conclusão, De Giorgi afirma que "não é arbitrário ver em todo o desdobramento histórico da experiência montiniana a maior e mais importante contribuição intelectual italiana ao século XX cristão" (p. 340).

De Giorgi sabe bem que, para boa parte do catolicismo conciliar e mais gauchista [de esquerda], a importância de Montini e do montinismo também está nas suas ambiguidades com relação à modernidade, principalmente no rastro das reviravoltas intelectuais de Maritain. Mas devemos ser gratos a De Giorgi por essa obra, uma defesa argumentada da contribuição de Montini, que, nessa intempérie histórica, política e teológica, goza de poucas atenções, senão, às vezes, especialmente em alguns ambientes católicos, de uma verdadeira damnatio memoriae da sua obra de rebocador do Concílio Vaticano II e de papa reformador.