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24 Abril 2012

O exemplo mais admirável e cordial de pobreza escolhida – o casamento de amor com a Senhora Pobreza – é o de Francisco.

Publicamos aqui um trecho da contribuição do jornalista e ativista político italiano Adriano Sofri, em livro publicado de coautoria do cardeal Gianfranco Ravasi, intitulado Beati i poveri in spirito, perché di essi è il regno dei cieli [Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus] (Ed. Lindau).

O trecho foi publicado no jornal La Repubblica, 20-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu não tenho nenhum título para abordar tema. Portanto, tratarei de questões abertas ou, melhor, escancaradas para cada um de nós. Por que a guerra enfurece entre os pobres? E como poderemos explicar a guerra entre os pobres, se os pobres são bem-aventurados porque são herdeiros do reino? E depois: como aconteceu que, na imaginação e na linguagem comum às Bem-aventuranças que abrem o discurso da montanha, tenha se misturado a declaração: "Ora, muitos dos primeiros serão os últimos, e os últimos, primeiros"? Nós repetimos, de fato: "Bem-aventurados os últimos, porque serão os o primeiros".

Mas esse "Bem-aventurados" em Marcos não existe, e nem em Mateus e Lucas ("Há últimos que serão os primeiros, e há primeiros que serão os últimos"). Temos, portanto, condensadas em uma única expressão, que se tornou proverbial, as Bem-aventuranças e, em particular, a primeira – "Bem-aventurados os pobres" – com o dito sobre os últimos e os primeiros. Essa transfusão é fecunda, porque nos leva a aproximar os pobres dos últimos, e a buscar, por essa via, uma resposta à pergunta inicial: por que a guerra entre os pobres. Se aos últimos cabe o reino dos céus, o que será, no céu e na terra, dos penúltimos? Os penúltimos, de fato, não o são por estarem a um passo de se tornarem os últimos, mas sim porque recém deixaram de ser os últimos. Foram despojados.

(...) Se os pobres são, portanto, bem-aventurados porque deles é o reino dos céus, como explicar a guerra entre os pobres? Não as guerras guerreadas, que, aliás, são também combatidas por pobres, guerras entre ricos por pessoas interpostas: mas sim aquela luta enfurecida entre pobres da qual o tempos de paz é denso.

Responder-se-á que dividir os pobres e colocá-los uns contra os outros é uma artimanha típica dos ricos e dos poderosos, e que, mesmo no caso dessa guerra metafórica (que, além disso, se torna muitas vezes a premissa da guerra guerreada), trata-se de um combate para pessoas interpostas. É verdade e é evidente o cálculo de soprar o fogo do empobrecimento para desviar a desilusão e o protesto social, mas não basta para tornar abrangente a resposta.

Se os pobres são os herdeiros do reino, se eles são chamados de bem-aventurados, como é possível que eles cheguem a se detestar, a se invejar e a combater entre si? Ou, melhor, a partir do momento em que se vê muito bem como é possível: como é aceitável? O exemplo mais admirável e cordial de pobreza escolhida – o casamento de amor com a Senhora Pobreza – é o de Francisco. O filho do rico mercador que vende realmente tudo e dá o obtido aos pobres, que beija o leproso e prega aos pássaros, visto que aqueles que deveriam lhe escutar têm ouvidos, justamente, de mercador. O amor pela pobreza está sobre um fio de navalha.