Estatísticas ocultam números reais da pobreza na Argentina

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08 Mai 2013

A redução da pobreza foi um dos méritos dos dez anos de governos kirchneristas na Argentina, aniversário que se completará em 25 de maio próximo. No entanto, a subestimativa da quantidade de pobres por parte do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) obscurece as conquistas.

A reportagem é de Alejandro Rebossio, publicada no jornal El País e reproduzida pelo Portal Uol, 07-05-2013.

No final de abril, o Indec informou que a pobreza afetava somente 5,4% dos argentinos e a indigência, isto é, os pobres que nem sequer têm renda suficiente para comprar a alimentação básica, foi de apenas 1,5% em 2012. Alguns jornais comentaram ironicamente que a Argentina se encontrava na altura da Alemanha.

Nem sequer a ala kirchnerista da CTA (Central de Trabalhadores da Argentina) acredita nos dados divulgados pelo governo de Cristina Fernández de Kirchner, que chega a essas conclusões porque se baseia em números subestimados da inflação. O Cifra (Centro de Investigação e Formação da República Argentina) calcula que a pobreza e a indigência baixaram, como diz o Indec, mas para 19,9% e 4,3%, respectivamente.

Isto representa uma queda de 1,5 ponto percentual em relação a 2011, apesar da forte desaceleração do crescimento econômico (de 7% para 1%) e da elevada inflação (23%) e porque o desemprego quase não subiu (de 7,2 para 7,3%) e as receitas dos trabalhadores, segundo seus cálculos, aumentaram mais que os preços.

O pesquisador Mariano Barrera, da Cifra-CTA, explica a diferença com o Indec pelo fato de que este toma como referência o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) elaborado por nove províncias, a maioria delas governada por kirchneristas, "porque reflete melhor" a inflação que o do governo Kirchner.

"Há várias conquistas que começam a ser questionadas socialmente porque se questiona o que o Indec reflete", lamenta Barrera. Quando Néstor Kirchner assumiu o poder, em 2003, a metade dos argentinos era pobre e um quarto deles passava fome.

Todos os analistas concordam sobre a drástica redução da carestia nos últimos dez anos, mas alguns centros de estudos refletem um aumento do número de pobres em 2012. O pesquisador Agustín Salvia, que dirige uma pesquisa de renda na Universidade Católica Argentina (UCA), considera que a pobreza subiu para 24,5%, 1,5 ponto a mais que em 2011, devido à suposta retração do mercado de trabalho informal e seu consequente impacto nas remunerações.

Salvia, que também pesquisa no Instituto Gino Germani da UBA (Universidade de Buenos Aires), calcula que os empregados e trabalhadores autônomos da economia informal representem 45% do total. Entretanto, a pesquisa da UCA destaca que a indigência caiu para 4,9%, 0,6 ponto abaixo de 2011, graças ao aumento da chamada gratificação universal por filho, que os desempregados e trabalhadores informais recebem desde 2009.

Com base nos dados do Indec, Kirchner destacou no mês passado que na humilde cidade de La Rioja (noroeste da Argentina) a pobreza havia baixado para 2,7% e a indigência para 0,1%. Suas declarações provocaram a reação do prefeito de La Rioja, Ricardo Quintela, que até há pouco tempo se identificava com o kirchnerismo: "Dizer que em La Rioja há 0,1% de indigência me parece uma barbaridade. Se fosse assim, existiriam 360 pessoas indigentes, e isso é um absurdo.

Neste momento tenho na porta de minha casa 40 ou 50 pessoas indigentes. Há muita gente que precisa muito".

"É repulsivo que digam que estamos igual ao Canadá ou à Suíça", opina o economista Federico Muñoz, que calcula que a pobreza se manteve praticamente em 21,1% em 2012.

"Houve uma redução da pobreza em dez anos porque foram criados 3,5 milhões de postos de trabalho, mas desde 2008 só baixou dois pontos devido à perda da estabilidade de preços", conta Muñoz. Exatamente, a subestimativa do IPC e da quantidade de pobres e indigentes começou em 2007 diante da alta da inflação.

O pior de tudo é que esse mau exemplo parece ter contagiado agora também o governo chileno, encabeçado por Sebastián Piñera, e que é acusado desde 2012 de manipular essas variáveis.

É claro que a pobreza baixou muito nos tempos do kirchnerismo, mas até o centro Cifra-CTA adverte que diminui "em menor ritmo" desde 2008 e considera "importante continuar avançando nesse sentido, dado que ainda há muitas pessoas que continuam vivendo em condições de pobreza".