Nikolas Rose: Por uma amizade crítica entre as ciências

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

21 Outubro 2014

                                                                         Foto: Andriolli Costa
Foto: Andriolli Costa

Sociólogo e pesquisador de longa data da área da Saúde e da Medicina, o britânico Nikolas Rose acredita no estabelecimento de um diálogo mais profícuo entre as ciências da vida e as ciências sociais humanas. Sociologia e Biologia, afinal, se estabeleceram como disciplina ao mesmo tempo, em meados do século XIX. No entanto, em pouco tempo a razão empirista e cientificista fez com que uma se distanciasse da outra – e assim permanecessem.

Professor do King’s College de Londres, um dos maiores centros de formação médica da Europa, Rose fala em uma amizade crítica entre elas. “É uma amizade, e não uma parceria, porque eu posso ser seu amigo sem esperar algo em troca”, explica ele. A crítica, no caso, vem de uma postura de mútua colaboração, e não de um entusiasmo ingênuo que leva a uma “virada neurológica das humanidades”, por exemplo, ou da recusa ao progresso científico. Para Rose, é preciso “parar de analisar as regras e tomar parte no jogo”.

Tal amizade é construída a partir da percepção de que não há diferença entre o “lado de dentro e o lado de fora”. O ser humano, tal como é, não é resultado apenas da ação biológica, das ligações cromossômicas, da herança genética. Seu contexto histórico-cultural de inserção, suas experiências de vida, suas relações consigo e com o outro também são fundamentais para definir o que será ativado ou desativado na estrutura genômica (a chamada “epigenética”).

Rose palestrou na última sexta-feira (17) no Auditório Central da Unisinos, durante o XVII Colóquio Filosofia Unisinos: Filosofia e Bioética - Entre o cuidado e administração da vida. Ele afirma: “O fato de o ser humano ser um primata já diz muito sobre o seu modo de se relacionar com o mundo, das associações que fará com outros humanos e assim por diante”, relata ele, destacando um elemento primordial que mostra a ligação entre as duas ciências. Mas não é a única.

No próprio século XIX, a preocupação com a questão das populações também foi uma grande interface entre as ciências da vida e as sociais. O crescimento populacional, a natalidade e a mortalidade, a teoria malthusiana e a eugenia vinculam de imediato preocupações biopolíticas. Mesmo conceitos, como “evolução”, acabam ultrapassando os limites biológicos e ganhando os jargões sociais.

“Eu trabalho há quase uma década com neurocientistas e posso dizer que neste espaço de tempo a ontologia do ser humano mudou, assim como a própria biologia”, defende Rose. Esta não é mais considerada com fatalismo, como determinadora de um destino inexorável para o indivíduo, mas como um horizonte de possibilidades. “Na era da biologia, o que existia era a visão molecular da vida. Não mais mistério, mas mecanismo”. Com a abertura para a o contexto, o cultural, a emoção e o sensível, no entanto, essa redução perde espaço para um neovitalismo. “O vitalismo, para mim, é um lembrete da essencialidade do vivo”, defende.

Quem é Nikolas Rose
Nikolas Rose é professor de Sociologia e diretor do Departamento de Ciências Sociais, Saúde e Medicina do King's College de Londres. Rose é codiretor do Centro de Biologia Sintética e Inovação (CSynBI), uma importante colaboração de pesquisa entre o King's College e o Imperial College de Londres.

Biólogo, psicólogo e sociólogo, Rose cofundou duas influentes revistas radicais nos anos 1970 e 1980, desempenhando um papel fundamental na introdução do pensamento crítico pós-estruturalista francês para o público anglófono e ajudou a desenvolver novas abordagens para a análise e a estratégia políticas.

Publicou amplamente sobre vários campos e disciplinas, e sua obra foi traduzida para 13 idiomas. É ex-editor administrativo e coeditor-chefe da revista interdisciplinar BioSocieties. Seu último livro, escrito com Joelle Abi-Rached, intitula-se Neuro: The New Brain Sciences and the Management of Life (Princeton: University Press, 2013), obra debatida no Evento Abrindo o Livro do IHU, no dia 09-10-2014.

XIV Simpósio Internacional IHU

O professor apresenta a conferência A biopolítica no século XXI: cidadania biológica e ética somática, no dia 22-10-2014, às 9h, no Auditório Central da Unisinos. O evento integra a programação do XIV Simpósio Internacional IHU - Revoluções Tecnocientíficas, Culturas, Indivíduos e Sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea.

 

(Por Andriolli Costa)