Uma Igreja ainda masculina: ''Muitos pensam nelas como servas''. Entrevista com Lucetta Scaraffia

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05 Fevereiro 2015

"Francisco, ele mesmo, disse isso muito claramente. Esta frase, especialmente: 'Sofro quando vejo na Igreja que o papel de serviço da mulher – aquele papel que todos nós devemos ter – desliza para a servidão'. Pois bem, ainda há muitas mulheres que, na Igreja, vivem em condições de servidão, são empregadas domésticas ou cuidadoras dos padres e são tratadas como servas."

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 04-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A historiadora Lucetta Scaraffia, coordenadora do caderno Donne, Chiesa, Mondo [Mulheres, Igreja, Mundo] do jornal L'Osservatore Romano, foi chamada para concluir, no próximo sábado, a assembleia sobre as "culturas femininas" no Vaticano. Ela vai falar sobre o futuro.

Eis a entrevista.

Parece que há o pedido de que, na Igreja, haja uma maior atenção, não?

Sim, por um motivo inevitável. A Igreja, especialmente no Ocidente, está desorientada. É um mundo absolutamente no masculino, em nível decisional, mas composta na maior parte de mulheres. Dois terços dos religiosos são mulheres, das missionárias às freiras de clausura. E são as mulheres que já levam as paróquias para a frente, ensinam o catecismo, cuidam das crianças, ajudam idosos e doentes.

Mas?

Mas a sua voz não é ouvida. Não é uma questão de poder, mas de voz. De escuta da sua voz e de participação nos processos decisionais. Não se trata de sacerdócio ou de mulheres cardeais. Não haveria a necessidade de mudar nada...

Por exemplo?

Acho vergonhoso, por assim dizer, que as mulheres não façam parte das congregações que precedem o conclave. Há cardeais, bispos e as ordens religiosas masculinas, justamente. Mas as madres gerais, as representantes de organizações internacionais, estas não. Mulheres muito importantes, que teriam muito a dizer, e ninguém as escuta. Além disso, é ridículo que não haja mulheres na cúpula dos dicastérios dos leigos ou da família. Mesmo entre os religiosos, a única mulher é subsecretária.

Como as mulheres reagem?

Eu as vejo exasperadas, sem confiança. Estão por conta própria. Essa é uma perda grave para a Igreja.

Porém, algo se move. O caderno feminino do L'Osservatore Romano, as cinco mulheres nomeadas para a comissão teológica internacional...

O caderno nasceu há três anos, sob o pontificado de Bento XVI, justamente para mostrar que as mulheres existiam, para que não fossem ignoradas.

Você falava do Ocidente. E em outros lugares?

Em muitas partes do mundo, a Igreja é a instituição mais feminista que existe, graças às mulheres. Pense nas missionárias que, na África ou na Ásia, fazem estudar as meninas que, de outra forma, seriam excluídas das escolas. Ou a assistência das irmãs às mulheres que sofrem violência. Há países onde só os cristãos defendem as mulheres. Porém: você já ouviu reivindicarem isso? É como se nem se dessem conta disso...

Francisco disse: "É preciso fazer mais".

Francisco se dá conta disso e repetiu isso, do seu modo franco. Mas será muito difícil. E eu desconfio das consultas femininas. Acho que elas devem entrar nas estruturas que já existem.

Você não cria muitas ilusões...

Eu não sei quanto os homens estão dispostos a renunciar a uma fatia de poder. Poucos sentem o problema. Além disso, muitos são idosos, passaram a vida vendo mulheres sendo servas. Por isso, é fundamental que haja mulheres lecionando nos seminários: assim, os futuros padres não as verão apenas lavando pratos ou meias. Terão uma ideia diferente.

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