29 Mai 2026
Os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira (28) a classificação das facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, em uma decisão que pode ter impactos econômicos, políticos e diplomáticos para o Brasil.
A reportagem é de Luciana Rosa, publicada por RFI, 29-05-2026.
Para o especialista em segurança e crime organizado Robert Muggah, do Instituto Igarapé, a medida não chega a ser uma surpresa e faz parte de uma mudança mais ampla na forma como Washington passou a tratar o crime organizado na América Latina.
Segundo ele, os Estados Unidos vêm deixando de enxergar grandes facções criminosas apenas como um problema de polícia e passaram a tratá-las como ameaças à segurança nacional, estratégia que já foi aplicada a grupos na Colômbia, no Equador, no México, no Haiti e na Venezuela.
Na avaliação de Muggah, o Brasil passa agora a ser incorporado a essa nova estratégia americana, baseada em sanções, designações terroristas e pressão financeira contra organizações criminosas.
Entendo que, à primeira vista, declarar criminosos como terroristas pode parecer a estratégia certa. Mas vale lembrar:
— Oliver Stuenkel 🇧🇷 (@OliverStuenkel) May 29, 2026
Segundo duas das maiores autoridades brasileiras no combate ao PCC e ao CV — o promotor Lincoln Gakiya e o ex-secretário nacional de Segurança Mário Sarrubbo —…
O especialista afirma, porém, que o impacto mais imediato pode não ser necessariamente sobre o PCC e o Comando Vermelho, mas sobre a economia brasileira.
Isso porque, segundo ele, as duas facções estão profundamente infiltradas em diferentes setores econômicos e investigações recentes apontaram a presença de recursos ligados ao crime organizado em áreas como transporte, distribuição de combustíveis, construção civil, agronegócio e até fintechs.
A preocupação é que a nova classificação dê aos Estados Unidos mais instrumentos para perseguir ativos, fluxos financeiros, intermediários e empresas que possam ter algum tipo de vínculo com essas estruturas.
Segundo ele, essas organizações sobreviveram a operações policiais, repressões no sistema prisional e grandes investigações de lavagem de dinheiro. Por isso, para alguns setores, a pressão dos Estados Unidos pode parecer uma das poucas ferramentas capazes de aumentar o custo de fazer negócios com essas facções.
Mas o especialista alerta para um possível efeito colateral sobre empresas legítimas.
“Os bancos nos Estados Unidos vão se tornar mais cautelosos. Investidores estrangeiros podem passar a ser mais seletivos. E multinacionais provavelmente vão exigir mais garantias de que fornecedores e prestadores de serviço estejam livres de qualquer ligação com o crime organizado.”
Para o promotor de justiça do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (MP-SP) Lincoln Gakiya, a decisão dos EUA em classificar PCC e CV como terroristas é "muito grave" e "vai causar problemas" ao Brasil:
— Blog do Noblat (@BlogdoNoblat) May 29, 2026
"Eu não tenho dúvida, vai causar problemas de toda…
Acirramento da disputa política
Para Muggah, a medida também deve gerar uma forte disputa política dentro do Brasil.
“Para a direita brasileira, isso é visto como uma vitória política, pelo menos por enquanto. Isso permite dizer que os Estados Unidos estão sendo mais duros contra o PCC e o Comando Vermelho do que o governo Lula.”
O especialista acredita que o debate político deve girar em torno de duas narrativas opostas: de um lado, a defesa de uma postura mais dura contra o crime organizado; do outro, críticas ao que pode ser interpretado como interferência americana em assuntos internos brasileiros.
Muggah alerta ainda que o impacto econômico da medida pode acabar ampliando a disputa política no Brasil.
“Se empresas brasileiras começarem a enfrentar custos mais altos, atrasos em pagamentos ou dificuldades para acessar o sistema financeiro internacional, o cenário político pode ficar bastante turbulento.”
Segundo o cientista político, setores empresariais podem apoiar um combate mais duro ao crime organizado, mas dificilmente aceitarão se tornar “dano colateral” de uma estratégia americana de repressão financeira.
Na avaliação dele, o governo Lula deve tentar transformar o tema em um debate sobre soberania nacional e possível interferência americana em assuntos internos do Brasil.
“Lula pode argumentar que Washington está interferindo nos assuntos do Brasil e expondo empresas brasileiras a sanções sem necessariamente tornar os brasileiros mais seguros”, avalia.
Todos aliados do Flávio Bolsonaro e/ou de sua base política:
— Lucas Mourão (@lucasmourao_) May 29, 2026
Alessandro Pitombeira Carracena: ex-secretário estadual do RJ, preso acusado de envolvimento com o Comando Vermelho.
Carlos Bertozzo: piloto de avião, investigado pela PF e denunciado pelo MPF acusado de envolvimento…
Consequências para PCC E CV
Apesar do endurecimento da postura americana, Muggah avalia que os efeitos sobre as facções podem ser limitados.
Segundo ele, PCC e Comando Vermelho são organizações altamente adaptáveis, capazes de criar novos intermediários, descentralizar operações e movimentar recursos por canais alternativos para escapar da fiscalização.
O anúncio do Departamento de Estado ocorreu um dia após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário de Estado Marco Rubio, em Washington. Segundo o parlamentar, Rubio teria se mostrado favorável à classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. Flávio Bolsonaro também afirmou ter discutido o tema com Donald Trump durante um encontro na Casa Branca.
Em comunicado, o governo americano afirmou que PCC e Comando Vermelho serão designados como “Terroristas Globais Especialmente Designados” e também como “Organizações Terroristas Estrangeiras”, classificação que passa a valer oficialmente em 5 de junho.
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