“A visita de Hebe ao Papa é uma bofetada no atual governo”. Entrevista com Loris Zanatta

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Por: André | 30 Mai 2016

“O convite do Papa a Hebe de Bonafini é ecumênico, em nome de uma reconciliação. Mas não creio que seja para reconciliar os argentinos, mas o peronismo – afirma o historiador italiano Loris Zanatta, professor da Universidade de Bolonha e estudioso da relação entre a política e a religião na Argentina. Também pode ser interpretado como uma esperteza por parte de Bergoglio”.

A entrevista é de Marina Artusa e publicada por Clarín, 27-05-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Em que sentido a viagem de Bonafini seria uma esperteza do Papa?

É um pouco forte fazer esta afirmação, mas para a opinião pública europeia, que não conhece as questões argentinas em profundidade, Hebe de Bonafini é uma dócil velhinha com um passado heróico que ninguém pode discutir. Enfrentou uma feroz ditadura, padeceu sofrimentos injustos. Além disso, é uma pessoa que tratou muito mal o Papa. Sabe-se aqui, na Europa, que o insultou.

Então, por um lado, o Papa terá a imagem do bom cristão que oferece a outra face e abraça a quem o insulta. E, por outro lado, vai gozar do reflexo da popularidade de uma mulher que na opinião pública mundial é uma heróica combatente pelos direitos humanos.

Se esta é a leitura adocicada para quem a realidade argentina é algo distante, como o interpretam aqueles que a conhecem profundamente?

Quem conhece um pouco mais a Argentina sabe que se trata de um personagem um pouco mais discutido e discutível. Hebe de Bonafini transformou, com a colaboração de muitos, os direitos humanos em um instrumento político de um governo. Transformou os direitos humanos em um império, até em um business. Porque em nome dos direitos humanos criou uma universidade, fez circular muito dinheiro, construiu casas populares.

Ela fez muitas coisas em nome dos direitos humanos e, ao final, os direitos humanos se perderam, porque sua utilização foi instrumental do ponto de vista político. A opinião pública europeia pode não conhecer estas coisas ou talvez até não lhe interessem, porque é mais importante o que Hebe de Bonafini fez há 40 anos. Mas o Papa sabe disso.

Qual seria, então, a mensagem política da presença de Bonafini no Vaticano?

É uma bofetada no atual governo. Na Argentina, no campo popular e nacional houve uma profunda divisão nos últimos anos. A polêmica de Bergoglio com o governo dos Kirchner foi uma divisão do peronismo e não nos esqueçamos de que a divisão do peronismo é responsável pela vitória eleitoral daquelas forças políticas que, na perspectiva do Papa, não pertencem ao campo popular e nacional.

A mensagem, portanto, é a seguinte: o campo popular e nacional reconcilia-se, esqueçamos o passado que nos fez perder as eleições, que nos fez brigar tanto e que permitiu que a oligarquia chegasse ao poder. Reunamo-nos no campo nacional e popular e enviemos esta mensagem à opinião pública argentina. A visita de Hebe ao Papa é uma bofetada no atual governo. Porque Hebe não é apenas contra o governo, algo que é legítimo, mas que o insultou e o tratou como se não fosse um governo legítimo. Ao convidá-la e abraçá-la, a mensagem do Papa ao governo é que ele também não lhe reconhece plena legitimidade.

Quais são as consequências deste gesto?

A partir da visão populista do Papa, é certo que este governo ganhou as eleições democráticas, mas não é plenamente legítimo. É como dizer que sim, que ganhou, mas que na realidade não representa o povo. Representa uma minoria, porque o verdadeiro povo, aquele que conserva a identidade da Nação, como defende o populismo, está do outro lado. Isto cria problemas no discurso populista porque enquanto o populismo pode unir o povo mítico e a vitória eleitoral, não há inconvenientes.

O problema nasce quando a ideia de povo não corresponde à maioria eleitoral. Neste caso, abre-se uma brecha. Ao querer reconciliar os argentinos, ajudaria muito afirmar a necessidade de reconhecer a plena legitimidade do atual governo, o que não implica apoiar o que o governo está fazendo, mas reconhecer a decisão dos argentinos. Mas suspeito que o Papa esteja mais interessado em reconciliar os peronistas do que em reconciliar os argentinos. Deste modo, hostiliza o governo e isso é desestabilizador.

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