O ser humano não é escravo do trabalho, mas senhor, defende o Papa Francisco

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Por: André | 13 Agosto 2015

“A ideologia do lucro e do consumo quer abocanhar também a festa”. O Papa Francisco dedicou a audiência geral desta quarta-feira, 12 de agosto, ao tema da “festa”, e destacou que não se trata “da preguiça de ficar deitado no sofá ou da emoção de uma vã evasão”, embora a “obsessão pelo lucro econômico e pela eficiência da técnica” e a “cobiça do consumo” levem a “ritmos desregulados da festa”, que, com referência implícita aos recentes acontecimentos trágicos de mortes em discotecas na Itália, “causam vítimas, frequentemente os jovens”. A festa, ao contrário, é um tempo “sagrado” de repouso e agradecimento pelo bom trabalho desempenhado, porque o homem “não é escravo do trabalho, mas ‘senhor’”; uma verdade que deve ser recordada, sobretudo, quando no mundo há “milhões de homens e mulheres, e inclusive crianças, escravos do trabalho!”

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi e publicada por Vatican Insider, 12-08-2015. A tradução é de André Langer.

No marco de um ciclo de catequese que o Papa está dedicando à família, em vista do Sínodo de outubro, “hoje abrimos um pequeno caminho de reflexão sobre três dimensões que marcam, por assim dizer, o ritmo da vida familiar: a festa, o trabalho e a oração”, explicou aos mais de 4.000 fiéis que se encontravam no Salão Paulo VI. “Começamos pela festa. Hoje – prosseguiu citando o livro do Gênesis – vamos falar da festa. E dizemos imediatamente que a festa é uma invenção de Deus”, que, recordou o Papa, “nos ensina a importância de dedicar um tempo para usufruir daquilo que, no trabalho, foi bem feito. Falo do trabalho, naturalmente, não somente no sentido da arte manual e da profissão, mas no sentido mais amplo: cada ação com que nós, homens e mulheres, podemos colaborar com a obra criadora de Deus”.

A festa “não é a preguiça de ficar deitado no sofá ou a emoção de uma vã evasão... Não, a festa é em primeiro lugar um olhar amoroso e grato sobre o trabalho bem feito; festejamos um trabalho. Também vocês, recém casados, estão festejando o trabalho de um lindo tempo de noivado: e isto é bonito! É o tempo para ver os filhos, ou os netos, que estão crescendo, e pensar: que bonito! É o tempo para olhar para a nossa casa, os amigos que hospedamos, a comunidade que nos cerca, e pensar: que coisa boa! Deus fez assim quando criou o mundo. E continuamente faz assim, porque Deus cria sempre, também neste momento!”

Pode acontecer, continuou Francisco, que “uma festa aconteça em circunstâncias difíceis e dolorosas, e se celebra talvez ‘com um nó na garganta’. E, no entanto, também nestes casos, pedimos a Deus a força para não esvaziá-la completamente. Vocês mães e pais sabem bem isto: quantas vezes, por amor aos filhos, são capazes de afastar os sofrimentos para deixar que eles vivam bem a festa, desfrutem o sentido bom da vida! Há tanto amor nisto!” E também no trabalho, “às vezes – sem falar dos deveres! –, nós sabemos “filtrar” alguma faísca de festa: um aniversário, um casamento, um novo nascimento, assim como também uma despedida ou uma nova chegada..., é importante. É importante fazer festa. São momentos de familiaridade na engrenagem da máquina produtiva: isso nos faz bem”.

O verdadeiro tempo da festa “suspende o trabalho profissional, e é sagrado”, prosseguiu o Papa argentino, “porque recorda que o homem e a mulher foram feitos à imagem de Deus, que não é escravo do trabalho, mas Senhor. Portanto, também nós nunca devemos ser escravos do trabalho, mas ‘senhores’. Há um mandamento para isto, um mandamento que se aplica a todos, ninguém é excluído! E, ao invés disso, sabemos que há milhões de homens e mulheres, e inclusive crianças, escravos do trabalho! Neste tempo existem escravos. São explorados, escravos do trabalho, e isto vai contra a vontade de Deus e é contra a dignidade da pessoa humana. A obsessão pelo lucro econômico e a eficiência da técnica ameaça os ritmos humanos da vida, porque a vida tem seus ritmos humanos.”

“O tempo de descanso, sobretudo o dominical – prosseguiu o Papa –, está destinado a nós, para que possamos gozar daquilo que não se produz e não se consome, não se compra e não se vende. Mas, vemos que a ideologia do lucro e do consumo quer abocanhar também a festa: esta, às vezes, também é reduzida a um ‘negócio’, um modo para ganhar dinheiro e gastá-lo. Mas, é para isso que trabalhamos? A cobiça do consumo, que comporta o desperdício, é um vírus cruel que, entre outras coisas, nos faz reencontrar-nos, ao final, mais cansados do que antes. É nocivo ao verdadeiro trabalho e consome a vida. Os ritmos desregulados da festa fazem vítimas, frequentemente os jovens”.

Segundo o Papa Francisco, que antes da audiência geral recebeu o embaixador húngaro na Santa Sé, em uma visita de despedida, Gabor Gyorivanyi, “o tempo da festa é sagrado, porque nele Deus está presente de modo especial” com a Eucaristia dominical. E a família “está dotada de uma competência extraordinária para entender, endereçar e apoiar o autêntico valor do tempo da festa. Mas, quão bonitas são as festas em família, são belíssimas! E em particular no domingo. Não é mera coincidência se as festas nas quais há lugar para toda a família são aquelas que saem melhor! A mesma vida familiar, vista com os olhos da fé, sai melhor dos cansaços que implicam. Aparece-nos como uma obra de arte por sua simplicidade, bela porque não é artificial, não fingida, mas capaz de incorporar em si mesma todos os aspectos da verdadeira vida. Aparece-nos como uma coisa ‘muita boa’, como Deus diz no final da criação do homem e da mulher. Portanto, a festa é um precioso presente de Deus; um precioso presente de Deus à família humana: não estraguemos isso!”