Biodiversidade ilhada sucumbe em lagos de hidrelétricas

Mais Lidos

  • Em vez de as transformações tecnológicas trazerem mais liberdade aos humanos, colocou-os em uma situação de precarização radical do trabalho e adoecimento psicológico

    Tecnofascismo: do rádio de pilha nazista às redes antissociais, a monstruosa transformação humana. Entrevista especial com Vinício Carrilho Martinez

    LER MAIS
  • Desatai o futuro! Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • Como o dinheiro dos combustíveis fósseis transformou a negação climática na “palavra de Deus”. Artigo de Henrique Cortez

    LER MAIS

Revista ihu on-line

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

Entre códigos e consciência: desafios da IA

Edição: 555

Leia mais

04 Julho 2015

Pesquisadores calculam que pelo menos 70% das populações de animais selvagens que sobreviveram nas ilhas formadas pelo Lago da Hidrelétrica de Balbina estão condenadas à extinção. O número é resultado de um estudo liderado pela bióloga brasileira Maíra Benchimol, publicado nesta quarta-feira (01/07), na revista científica on-line PLOS ONE.

A reportagem é de Vandré Fonseca, publicada por Amazônia.org, 03-07-2015.

O estudo demonstra que os efeitos das barragens vão além das perdas provocadas diretamente pela inundação. “Estamos apenas começando a perceber a extensão impressionante de extinções em áreas de floresta que permanecem acima da água como ilhas de habitat”, afirma Carlos Peres, professor da escola de Ciências Ambientais da Universidade de East Anglia, Reino Unido, co-autores do artigo.

Durante dois anos, os pesquisadores fizeram uma intensiva busca pela biodiversidade em 37 ilhas isoladas pelo reservatório e também em três áreas de floresta contínua vizinhas ao lago. Além de analisarem a presença de vertebrados terrestre e arbóreos, buscaram conhecer o nível de degradação da mata encontrada nestas ilhas, por meio de estudos da flora e imagens de satélite de alta resolução.

A Hidrelétrica de Balbina foi construída durante a década de 1980 e possui uma das maiores áreas alagadas do mundo. São 2,36 mil quilômetros quadrados, duas vezes maior do que o município do Rio de Janeiro, onde os locais mais altos deram origem a 3.456 ilhas. Agora os pesquisadores demonstram que, 26 anos após a criação do lago, a inundação e a fragmentação da floresta continuam a ter efeitos severos sobre a biodiversidade.

“Estudos anteriores demonstraram que as grandes barragens resultam em severas perdas de receita na pesca e em aumento de emissões de gases de efeito estufa e dos custos socioeconômicos para as comunidades locais”, destaca Maíra Benchimol. “Nossa pesquisa acrescenta evidências de que a biodiversidade da floresta também paga um preço alto quando as barragens são construídas”, completa a doutora pela Universidade de East Anglia, Reino Unido e atualmente bolsista de pós-doutorado na Universidade Estadual de Santa Cruz, na Bahia.

Os pesquisadores verificaram que grandes vertebrados, incluindo mamíferos, quelônios e aves predadoras, desapareceram na maior parte das ilhas formadas pelo reservatório. De um total de quase 3,5 mil ilhas que se formaram no lago, apenas 25 tinham condições de abrigar pelo menos 28 das 35 espécies analisadas.

Eles descobriram também que nas ilhas com mais de 475 hectares ainda existe uma boa diversidade remanescente de animais. Infelizmente elas correspondem a apenas 0,7% de todas as porções de terra que ficaram acima do nível do lago. “Além do efeito da redução da área, a maioria das pequenas ilhas sucumbiram à exposição ao vento e fogos eventuais que ocorreram durante a severa seca do El Nino entre 1997 e 1998″, conta a bióloga. “Após o fogo, essas ilhas passaram a ter menos espécies do que ilhas de tamanho semelhante que não tinham sido queimadas”, conclui.

Os pesquisadores da Universidade de East Anglia já haviam demonstrado, em estudo anterior, que o fogo em pequenas ilhas tem um efeito devastador para a vida animal, pois acelera as taxas de extinção devido a redução da floresta habitável. Apesar das espécies reagirem de maneira diferente às mudanças provocadas pelo fogo, a viabilidade genética e o futuro destas população é sombrio, de acordo com Maíra Benchimol.