Tensões entre católicos e ortodoxos

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06 Junho 2014

Foi uma abertura ao futuro o encontro de uma semana atrás, em Jerusalém, entre o Papa Francisco e o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, que hipotetizaram que os seus sucessores celebrem juntos em 2025 o 1.700º aniversário do Concílio de Niceia, a primeira e mais influente assembleia da série. Mas o caminho para chegar a essa grande festa é íngreme e cheia de obstáculos.

A reportagem é de Luigi Sandri, publicada no jornal Trentino, 02-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Francisco e Bartolomeu estão conscientes da necessidade de continuar fazendo gestos de amizade para aproximar cada vez mais as suas Igrejas, separadas há 960 anos, reciprocamente excomungadas de 1054 a 1965, e desde então caracterizadas pela crescente vontade de superar os obstáculos teológicos que as dividem para chegar finalmente a compartilhar a mesma mesa eucarística.

Entre estes gestos – revelou o primus inter pares entre os hierarcas ortodoxos à agência Asia-News – despontou a ideia de celebrar juntos o centenário do Concílio de Niceia. Nessa cidade – que hoje em turco se chama Iznik e está situada a 140 km de Istambul, na península anatólica – por vontade de Constantino (não do bispo de Roma da época, Silvestre), em 325, reuniram-se cerca de 300 bispos provenientes de todos os lados do Império Romano, especialmente da parte oriental, para responder a Ário.

Esse padre de Alexandria do Egito defendia que o Verbo – lá no céu – é "semelhante" ao Pai; mas os Padres nicenos proclamaram, ao contrário, que Ele é "igual" ao Pai. E o imperador mandou para o exílio o "herege" Ário – embora, anos depois, ele tenha passado a apoiar os "arianos", quando considerou obter vantagens políticas.

Todas as Igrejas hoje existentes reconhecem a autoridade e as definições do Concílio de Niceia, e sem ele entrariam em colapso todos os Concílios "ecumênicos" sucessivos (latinos e bizantinos juntos) e/ou "gerais" (somente latinos), que se sucederam de 325 a 1962-1965 (Vaticano II).

Portanto, a celebração proposta para 2015 representa um marco importante. Mas as Igrejas, além das cerimônias, estão prontas para honrar Niceia? A questão do primado de jurisdição do bispo de Roma continua dividindo catolicidade e ortodoxia. A Igreja russa, em particular, se opõe ferozmente aos dogmas romanos do primado pontifício e da infalibilidade papal. E a ortodoxia, que também decidiu celebrar em Istambul, em 2016, um "Santo e Grande Concílio pan-ortodoxo", está dilacerada por cismas internos.

Por exemplo, no fim de abril, o Patriarcado Ortodoxo de Antioquia (com sede em Damasco) interrompeu a comunhão eucarística – isto é, iniciou, eclesiologicamente, um cisma – com o patriarcado de Jerusalém, por uma disputa irresolvida sobre a jurisdição dos fiéis ortodoxos no emirado do Qatar.

Também são muito tensas as relações entre Moscou (o patriarcado mais importante em número de fiéis – 100 milhões – da ortodoxia) e Constantinopla (que, na Turquia, tem apenas cinco mil fiéis). É possível celebrar Niceia dignamente, se a túnica inconsútil de Cristo continua dividida?

Tensões entre católicos e ortodoxos


Foi uma abertura ao futuro o encontro de uma semana atrás, em Jerusalém, entre o Papa Francisco e o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, que hipotetizaram que os seus sucessores celebrem juntos em 2025 o 1.700º aniversário do Concílio de Niceia, a primeira e mais influente assembleia da série. Mas o caminho para chegar a essa grande festa é íngreme e cheia de obstáculos.


A reportagem é de Luigi Sandri, publicada no jornal Trentino, 02-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Francisco e Bartolomeu estão conscientes da necessidade de continuar fazendo gestos de amizade para aproximar cada vez mais as suas Igrejas, separadas há 960 anos, reciprocamente excomungadas de 1054 a 1965, e desde então caracterizadas pela crescente vontade de superar os obstáculos teológicos que as dividem para chegar finalmente a compartilhar a mesma mesa eucarística.


Entre estes gestos – revelou o primus inter pares entre os hierarcas ortodoxos à agência Asia-News – despontou a ideia de celebrar juntos o centenário do Concílio de Niceia. Nessa cidade – que hoje em turco se chama Iznik e está situada a 140 km de Istambul, na península anatólica – por vontade de Constantino (não do bispo de Roma da época, Silvestre), em 325, reuniram-se cerca de 300 bispos provenientes de todos os lados do Império Romano, especialmente da parte oriental, para responder a Ário.


Esse padre de Alexandria do Egito defendia que o Verbo – lá no céu – é "semelhante" ao Pai; mas os Padres nicenos proclamaram, ao contrário, que Ele é "igual" ao Pai. E o imperador mandou para o exílio o "herege" Ário – embora, anos depois, ele tenha passado a apoiar os "arianos", quando considerou obter vantagens políticas.


Todas as Igrejas hoje existentes reconhecem a autoridade e as definições do Concílio de Niceia, e sem ele entrariam em colapso todos os Concílios "ecumênicos" sucessivos (latinos e bizantinos juntos) e/ou "gerais" (somente latinos), que se sucederam de 325 a 1962-1965 (Vaticano II).


Portanto, a celebração proposta para 2015 representa um marco importante. Mas as Igrejas, além das cerimônias, estão prontas para honrar Niceia? A questão do primado de jurisdição do bispo de Roma continua dividindo catolicidade e ortodoxia. A Igreja russa, em particular, se opõe ferozmente aos dogmas romanos do primado pontifício e da infalibilidade papal. E a ortodoxia, que também decidiu celebrar em Istambul, em 2016, um "Santo e Grande Concílio pan-ortodoxo", está dilacerada por cismas internos.


Por exemplo, no fim de abril, o Patriarcado Ortodoxo de Antioquia (com sede em Damasco) interrompeu a comunhão eucarística – isto é, iniciou, eclesiologicamente, um cisma – com o patriarcado de Jerusalém, por uma disputa irresolvida sobre a jurisdição dos fiéis ortodoxos no emirado do Qatar.


Também são muito tensas as relações entre Moscou (o patriarcado mais importante em número de fiéis – 100 milhões – da ortodoxia) e Constantinopla (que, na Turquia, tem apenas cinco mil fiéis). É possível celebrar Niceia dignamente, se a túnica inconsútil de Cristo continua dividida?