A época das novas famílias

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31 Março 2014

Em Roma, entre os dias 7 a 9 de março, no Salão da Igreja Metodista, foi realizado o congresso da Rede Evangélica Fé e Homossexualidade (Refo), sobre o tema "Uma, nenhuma, cem mil. A sociedade civil, as Igrejas e as novas famílias".

A reportagem é de Claudia Angeletti, publicada na revista Riforma, das Igrejas evangélicas batista, metodista e valdense italianas, 28-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A explosão de famílias diferentes, ligadas também à possibilidade do divórcio e de novas núpcias ou uniões, se deve substancialmente – de acordo com o que foi levantado pela palestra da pastora Mirella Manocchio – ao fato de que, hoje, o que importa na família é, em primeiro lugar, a afetividade que nela pode encontrar expressão, enquanto são colocados em segundo plano outros escopos tradicionais, como o cuidado aos idosos e a proteção da propriedade. Além disso, cada vez mais frequentemente, tende-se a pensar o casal como algo primário em relação à filiação.

Essas duas ideias-chave já estavam presentes em um documento valdense sobre o matrimônio de 1971, além do de 1997 sobre os casamentos inter-confessionais, que testemunhava como a abertura para as bênçãos para os casais homossexuais, à qual o Sínodo das Igrejas valdenses e metodistas chegou em 2010, foi precedida por uma progressiva elaboração teológica dentro das nossas Igrejas e não nasceu na onda de modismos ou conformismos deste século.

Por outro lado, na Itália, ainda não se viu um governo capaz de aprovar nem mesmo uma mínima regulamentação dos direitos das uniões de fato, sejam elas hetero ou homossexuais. Ao contrário, como bem enfatizou a pastora Elizabeth Green, a ideia patriarcal da família ainda está bem viva, apesar dos golpes que recebeu da teologia feminista e, em geral, do movimento das mulheres e do movimento gay/lésbico no século passado, e é reproposta em forma sutis também: entre os muitos exemplos, o muito difundido do trabalho doméstico, ainda confiado às mulheres que também realizam um trabalho fora de casa. Sem falar do aumento dos feminicídios, forma extrema de violência doméstica, determinados em grande parte pela reprodução de uma cultura arcaica na qual o homem é o dono da vida da mulher.

À teologia patriarcal que justifica como único conceito de família desejado por Deus a família heterossexual com prole – defendendo que é a única família natural – opõe-se a teologia queer. Trata-se de um pensamento que põe em questão toda política identitária, pois defende que cada sujeito humano é portador de uma identidade múltipla, que os termos polares das oposições binárias se reforçam mutuamente, ao passo que existem encruzilhadas em que toda oposição se cruza com outros sujeitos. Consequentemente, é possível buscar alianças e fazer redes para mandar aos pedaços as oposições e destruir, assim, as hierarquias.

De fato, para a teologia queer, não pode existir um conceito de família, assim como o anúncio do Evangelho não diz respeito à família, mas sim ao indivíduo em relação, propondo uma família não de sangue, mas de espírito ("Quem é minha mãe e meus irmãos? (…) Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.", Mc 3, 33.35).

Sobre a mesma linha moveu-se também a fala de Roberto Villa, psicólogo-psicoterapeuta com uma vasta experiência no tratamento de relacionamentos problemáticos, que apresentou um amplo panorama de tipologias de famílias no mundo, que demonstra a construção cultural e não natural da família. Da sua experiência, é terapêutico definir as relações não sobre um modelo abstrato, mas sim na busca da felicidade dos parceiros ou dos indivíduos em relação ao contexto, assim como para as adoções ou o acolhimento familiar é prioritário que o psicólogo verifique o equilíbrio da pessoa ou das pessoas às quais o menor será confiado e não tanto o sexo ou a tipologia do casal.

As outras duas conferências diziam respeito ao aspecto mais eclesiástico da questão, ou seja, as bênçãos de casais do mesmo sexo. Falaram a respeito o pastor Luca M. Negro, que examinou particularmente a situação na Itália, inserindo-a em um quadro europeu, e o pastor luterano Christophe Kocher, de Estrasburgo, em relação à França.

Quanto à Itália, Negro destacou como a bênção é a prova de fogo do nível de efetiva acolhida de uma Igreja em relação aos homossexuais: ou seja, trata-se não apenas de ser welcoming (acolhedores), mas também affirming, isto é, defensores dos projetos de vida comum dos casais do mesmo sexo.

A conferência terminou com a participação no culto da comunidade metodista, com a pregação do pastor Eric Noffke.