A reconciliação da Igreja com os pobres e os mártires

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22 Março 2013

"Para nós, brasileiros e latino-americanos, o fato sem dúvida mais significativo do Concílio Ecumênico Vaticano II, realizado 50 anos atrás, foi o Pacto das Catacumbas", escreve Antonio Cechin, irmão marista e militante social.

Eis o artigo.

Para nós, brasileiros e latino-americanos, o fato sem dúvida mais significativo do Concílio Ecumênico Vaticano II, realizado 50 anos atrás, foi o Pacto das Catacumbas.

Nosso bispo-profeta Dom Hélder Câmara que realizou toda uma iniciação da Igreja do Brasil à opção pelos pobres, depois estendida para toda a AmeríndiaLatina e para o mundo, fiel a uma sugestão do Papa João XXIII já havia criado a Conferência Nacional dos Bispos como um colegiado.

Fazendo parte do povo brasileiro, com seu jeitinho brasileiríssimo, Dom Hélder não fez absolutamente nenhuma intervenção na aula magna do Concílio. Em vez de discursos, ocupou-se em fazer conchavos, isto é conversas ao pé do ouvido. Dentro dessa estratégia, conseguiu convencer 40 bispos conciliares, num trabalho de pescador artesanal, isto é um a um, dos mais diversos países do mundo, entre os quais cinco do Brasil, a fim de realizarem uma espécie de conciliábulo, para não dizer concílio mais restrito, embaixo da terra, como uma espécie de concílio especial, num autêntico pacto entre as quatro dezenas de participantes, firmado por todos num compromisso formal a que denominaram Pacto das Catacumbas.

O documento assinado e compactuado é um desafio aos "irmãos no Episcopado" a levar adiante uma "vida de pobreza", uma Igreja "serva e pobre", como sugerira o Papa João XXIII.

Os signatários do pactp – entre eles cinco brasileiros e muitos latino-americanos, embora inúmeros outros tenham aderido ao pacto mais tarde – se comprometiam a viver em pobreza, a renunciar a todos os símbolos ou privilégios do poder e a pôr os pobres no centro do seu ministério pastoral. O texto teve uma forte influência sobre a Teologia da Libertação, que surgiria nos anos seguintes.

Nesse início do pontificado de Papa Francisco, estamos convencidos de que o referencial por excelência dele, demonstrado de sobejo em seus primeiros gestos e em suas primeiras palavras é o Pacto das Catacumbas.

Vale a pena citar por inteiro este pacto,  uma vez mais, aqui abaixo o texto original.

Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre

“Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo e todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:
•    a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
•    a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.
12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:
•    esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles;
•    suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
•    procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
•    mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.
13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

Ajude-nos Deus a sermos fiéis.”

No noticiario do dia de ontem, 20 de março, a presidenta Dilma, entusiasmada com sua entrevista com o papa Francisco, declarou ter-se sentido inteiramente à vontade com o pontífice, tendo trocado com ele ideias relativas aos pobres, aos programas do Brasil a fim de acabar com a pobreza.

Aos jornalistas referiu que o Papa, abrindo o diálogo, em se tratando da presidente do nosso país, referiu-se à tragédia acontecida em nossa cidade rio-grandense de Santa Maria em que 240 jovens morreram na boate Kiss, que tinha comovido imensamente o papa Bergoglio e que também havia acompanhado tragédia semelhante em sua capital Argentina, da qual é o titular como arcebispo. “Em ocasiões dessas, disse o sumo pontífice é necessário força e ternura e que o povo brasileiro manifestou para o mundo muita força e muita ternura!”

Papa Francisco, com essa última frase, nada mais fez do que parafrasear o lema do guerrilheiro Guevara seu compatriota argentino: “hay que endurecer, pero sin nunca perder la ternura” e logo para a ex-guerrilheira Dilma.

Nos jornais de hoje, 21 de março, está a entrevista do prêmio Nobel da Paz argentino, Pérez Esquivel com nosso queridíssimo papa Francisco. A linda e comovedora notícia caiu dentro de meu computador enviada que me foi pelo grupo internacional Proconcil. Ei-la aqui abaixo na íntegra, por mim traduzida da língua espanhola:

Este prêmio Nobel, mais que entusiasmado relata, através de uma jornalista que o entrevistou:

Informamos que no dia de ontem o Papa Francisco recebeu a Adolfo Pérez Esquivel numa audiência privada dentro do Vaticano. O encontro foi amável, emotivo e durante o mesmo falaram acerca dos novos caminhos da Igreja, com um olhar voltado para os mais despossuídos, os marginalizados e privados de seus direitos mais elementares.

O Prêmio Nobel da Paz, argentino, é a terceira figura da América Latina com quem se reuniu, logo em seguida a ter-se encontrado com Cristina Fernándes e Dilma Rousseff, mandatárias de Argentina e Brasil.

Logo após o encontro, Pérez Esquivel falou o seguinte numa conferência com a imprensa:

“A reunião foi muito boa, falamos da situação geral da Igreja, do mundo, da América Latina, da Argentina e do Oriente Médio. O Papa expressou-me sua convicção para avançar na verdade, na justiça e na reparação do dano realizado pelas ditaduras. Mas também falamos que os Direitos Humanos são integrais e que não se deve limitá-los aos assassinatos da ditadura, mas também à pobreza, ao ambiente e à vida do povo.

Juntos, recordamos os mártires da América Latina, sementes de vida, e as vozes proféticas do continente americano, como Dom Hélder Câmara, Monsenhor Romero, Pedro Casaldáliga, Leônidas Proaño, Enrique Angelelli, entre outros.

Outro tema tratado foi o ecumenismo, onde o Papa me afirmou que a Igreja tem que dialogar com todas as religiões num mesmo plano de igualdade.

Além disso o Papa Francisco me expressou sua preocupação em reduzir os índices de pobreza no mundo trabalhando junto aos pobres.”

Finalizando, o Papa pediu a Adolfo Pérez Esquivel o apoio, assim como o de todos os cristãos, através das orações para poder levar adiante sua missão”. (Emília Robles, comunicadora)

Estamos convencidos de que no arrastão do Pacto das Catacumbas sonhado e realizado por Dom Hélder e os 40 bispos que o acompanharam, nada mais foi do que o primeiro grande grito de uma nova primavera para a nossa Igreja que anunciara o bom papa Giovanni quando deu a notícia da convocação do Concílio Vaticano II. Primavera que pudemos usufruir durante alguns anos nos bons tempos de João XXIII e de papa Montini.

No fundo o que foi o Pacto das Catacumbas? Nada mais do que a reconciliação da Igreja em cima da Terra com a Igreja embaixo da Terra dos tempos de Cristo e dos Apóstolos, uma Igreja de Pobres e de Mártires.

Em seu gesto profético, Dom Hélder e companheiros profetizaram uma nova leva de mártires na América Latina, quase todos gente pobre, tal como os convertidos por Jesus, seus apóstolos e seus seguidores. Naqueles tempos era Igreja clandestina que só podia se reunir pelas casas ou nos cemitérios das catacumbas. Foram comunidades primeiro de palestinos e romanos, que se espalharam depois pelo mundo inteiro. Hoje essa mesma Igreja latino-americana reconciliada com os pobres e mártires no seguimento do Nazareno crucificado, é a Igreja das Comunidades Eclesiais de Base, da Catequese Libertadora e da Teologia da Libertação.

Em entrevistas dos últimos dias, nosso teólogo-historiador José Oscar Beozzo, tentando decifrar a renúncia ao pontificado de papa Bento XVI, disse que Ratzinger teimou em trabalhar do lado errado que é o continente europeu, secularista e relativista.

Em nosso modesto entender, não tem libertação e muito menos conversão dos países ricos do continente europeu porque a Igreja Católica europeia teima em não se reconciliar com a Igreja das Catacumbas dos três primeiros séculos do cristianismo, quando foi essencialmente Igreja de Pobres e de Mártires.

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