O novo bispo de Roma

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17 Março 2013

"O evangelho deste domingo, o quinto da quaresma, tem uma afirmação de Paulo em sua carta aos Filipenses (3, 13): “Uma coisa, porém, eu faço: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Corro direto para a meta ... que Deus me chama a receber em Cristo Jesus”. Agora não temos mais Bergoglio e seu passado, mas Francisco e seu futuro", escreve Luiz Alberto Gómez de Souza, sociólogo e cristão.

Segundo ele, "agora Francisco, quem sabe, não custa esperar, poderia abrir uma reflexão coletiva com tantos temas “disputados”, com liberdade e sem censura, para que os anseios da base da Igreja se exprimam e subam até futuros atos do magistério".

Eis o artigo.

Quero fazer uma breve nota, depois de ler e ouvir tantas declarações contraditórias. Há uma avalanche de textos e reflexões sobre Francisco e uma estranha superexposição sua na mídia.  A sempre lúcida Ivone Gebara denunciou esse grande número de informações da sociedade do espetáculo, que podem ter “o poder de amortizar as mentes e de impedir que perguntas críticas aflorem”. Também muitas das leituras fazem uma análise puramente sociológica ou política, e tratam do fato como fariam com um novo presidente da república ou o novo rei da Holanda ( com sua rainha, também argentina!).

Muitos dizem, com intenções ideológicas evidentes, que Francisco, falando dos pobres, retira a bandeira dos governos progressistas da América Latina. Uma grande tolice. Ao contrário, se coloca na mesma onda para exigir justiça social. Essa centralidade do pobre vem lá de trás, da Igreja primitiva e, mais recentemente, do “pacto das catacumbas” de muitos bispos ao final do Vaticano II, em 1965, pedindo uma Igreja despojada e pobre, e foi fortemente afirmada nas reuniões dos bispos da América Latina em Medellín (1968) e em Puebla (1979), com a declaração da “opção preferencial pelos pobres”. Está, além disso, no centro da teologia da libertação das últimas décadas. Dizem que Francisco não seria favorável a essa teologia, mas ele propõe o que está no coração dela e que vem sendo afirmado nas pastorais sociais e nas comunidades eclesiais de base. É uma alegria ver o novo bispo de Roma confirmar o que tem sido o centro das comunidades cristãs católicas latino-americanas mais evangélicas, comprometidas e espirituais. Os pobres evangelizam, foi dito em Puebla.

O outro ponto que quero realçar é que Francisco se apresentou fundamentalmente como bispo de Roma e, nessa condição, ele é o primeiro entre os bispos, com quem terá de estar em profunda comunhão. Ele era, até então, cardeal arcebispo de Buenos Aires. Agora é antes de tudo, e isso basta, bispo de Roma. O título de cardeal é uma criação histórica de alguns séculos, para aqueles bispos (e mesmo sacerdotes e leigos no passado) que se ligam a Roma, teoricamente como auxiliares, onde tem uma igreja da qual são titulares. São chamados indevidamente de “príncipes da Igreja”, numa acepção de cunho monárquico, anacrônica e duvidosa, sem real sentido evangélico. Arcebispo é também uma criação para indicar que são bispos à frente de uma província eclesiástica, estrutura agora praticamente em desuso. Essas denominações históricas em nada acrescentam às funções pastorais dos bispos. Oxalá os títulos de cardeal e de arcebispo venham um dia a desaparecer e o colégio dos cardeais possa ser substituído por um colégio dos presidentes das conferências nacionais dos bispos, como a nossa CNBB. Seria uma maneira de limpar a Igreja de títulos nobiliárquicos ou atos administrativos já caducando, e de afirmar a colegialidade real prevista pelo Vaticano II. Além disso, prefiro chamar Francisco de bispo de Roma antes que de papa. Assim, podemos ver melhor os bispos do mundo unidos a seu irmão maior, o bispo romano. É mais eclesial e de uma tradição mais evangélica.  Na Igreja primitiva, o bispo de Roma era o primus inter pares entre os patriarcas de Constantinopla, Antioquia e Alexandria. Poderia no futuro, quem sabe, não custa esperar, estar em comunhão com Igrejas articuladas no Conselho Ecumênico das Igrejas. Mas antes dessa praticamente impossível comunhão ecumênica nos nossos dias, intenção provável de João XXIII ao convocar o Vaticano II (depois posta de lado pelos entraves concretos), no momento atual Francisco é basicamente o bispo primeiro da Igreja Católica Romana e com isso tem o magistério universal em sua Igreja.

Vejo muitas perplexidades em caros amigos da Argentina, diante das posições do provincial dos jesuítas Bergoglio; pelo menos, há que reconhecer seu pesado silêncio durante a ditadura argentina (como o de Pio XII durante a segunda guerra mundial). Há também a insistência de que tem posições conservadoras diante de problemas até agora congelados, como o celibato obrigatório, o uso dos contraceptivos, a moral sexual em geral, a união de homosexuais, o segundo casamento, a ordenação de mulheres e muitos outros. Lembremos que Roncalli, patriarca de Veneza, era um bispo considerado conservador, mas, como João XXIII, transformou profundamente a Igreja e quis pô-la em dia com os “sinais dos tempos” (aggiornamento).

O evangelho deste domingo, o quinto da quaresma, tem uma afirmação de Paulo em sua carta aos Filipenses (3, 13): “Uma coisa, porém, eu faço: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Corro direto para a meta ... que Deus me chama a receber em Cristo Jesus”. Agora não temos mais Bergoglio e seu passado, mas Francisco e seu futuro.

Esperemos os sinais e as decisões de Francisco. Já mostrou humildade e despojamento em suas primeiras manifestações públicas, no seguimento de Francisco de Assis. Ele foi eleito possivelmente a partir de uma crítica à cúria romana. Mas também, transformar a cúria não basta, ainda que isso seja inadiável. Não são suficientes apenas atos administrativos. Oxalá inaugure um grande diálogo, sem medos nem autocensuras, sobre problemas como os citados acima e muitos outros, alguns já assinalados em 1999 por Carlo Martini, bispo de Milão, outro jesuíta, que tínhamos sonhado como bispo de Roma.

Agora Francisco, quem sabe, não custa esperar, poderia abrir uma reflexão coletiva com tantos temas “disputados”, com liberdade e sem censura, para que os anseios da base da Igreja se exprimam e subam até futuros atos do magistério. Francisco e seus irmãos bispos poderiam recolher desejos que são ditos em voz baixa por leigas e leigos, religiosas e religiosos, teólogas e teólogos, sacerdotes e inclusive outros bispos, para fazer um discernimento – palavra cara aos jesuítas - e para que possamos viver na Igreja, como disse o bom João XXIII, “uma inesperada primavera”. Para realizar isso, não se deveriam reduzir a análise e as práticas a posições ideológicas, ou a classificações próprias de movimentos políticos, porém explicitar uma postura valente de profunda religiosidade e com uma espiritualidade renovada e aberta aos anseios e às carências do mundo de hoje.

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