08 Setembro 2012
Na Venezuela, a construção civil prospera, as betoneiras funcionam a todo vapor, prédios e casas sobem a olhos vistos. O programa de construção de moradias lançado pelo presidente Hugo Chávez em dezembro de 2010 está em todo lugar, tanto em Caracas quanto no interior. Na televisão estatal há um programa dedicado ao assunto, “As quintas-feiras da moradia”, mostrando depoimentos dos felizes escolhidos que estão se mudando para uma casa nova. Todos agradecem ao “comandante Chávez” e a sua “revolução bolivariana”.
“Vivi toda minha vida de aluguel, com medo de ser despejada. Hoje, estou na minha casa. Acho que estou sonhando!”, diz Rosalba Benítez, 58, chorando de emoção. Para sua moradia de 64 metros quadrados, ela deverá pagar, durante vinte anos, 300 bolívares por mês (R$ 144), ou seja, 15% do salário mínimo.
A reportagem é de Marie Delcas, publicada pelo jornal Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 08-09-2012.
Assim como os outros programas sociais, a “grande missão habitação” é financiada pelas gigantescas receitas petroleiras da Venezuela. Não faltam críticas: a licitação dos contratos carece de transparência, a qualidade das construções é discutível, os números oficiais são controversos. Mas o governo Chávez, que, durante quatorze anos, pareceu incapaz de construir, está correndo atrás do atraso. Segundo números do Ministério da Habitação, 243.943 unidades forem entregues desde o final de 2010. O objetivo declarado é construir 2 milhões de moradias até 2019. Os “chavistas” não duvidam que seu presidente vencerá a eleição presidencial do dia 7 de outubro.
“A criação da missão moradia explica a reconquista de popularidade de Hugo Chávez, cuja gestão hoje é aprovada por 65% dos entrevistados”, considera Óscar Schemel, do instituto de pesquisas Hinterlaces.
No dia 17 de agosto, o presidente Chávez anunciou uma política de acesso à moradia dedicada especificamente à classe média. As famílias que ganham mais de quatro salários mínimos poderão obter condições de crédito particularmente favoráveis.
Reinaldo e sua família vivem há mais de um ano e meio em um quarto de hotel de 20 metros quadrados, no centro de Caracas. Sua casa – um barraco na encosta do morro no Estado de Vargas – foi levada pelas enchentes de dezembro de 2010. Para responder à emergência, Chávez requisitou centenas de quartos em todos os hotéis do país, inclusive os cinco estrelas.
A situação tem perdurado, para desgosto dos hoteleiros e dos refugiados. “Há muita gente que conseguiu moradias antes de nós, sendo que elas não precisavam. É sempre o mesmo problema, os que têm pistolão são os mais bem servidos”, se queixa Reinaldo. Mas ele confia na “revolução”, que lhe prometeu um apartamento na Ciudad Caribia, uma nova cidade construída a cerca de vinte quilômetros de Caracas. “Foi Deus quem nos enviou o Chávez”, conclui Reinaldo.
“Pouco importa que o presidente tenha decidido criar a missão moradia com fins eleitorais. O poder público finalmente está cuidando do problema, é isso que conta”, acredita Rafael Uzcategui. Especialista em questões de habitação dentro da ONG de defesa dos direitos humanos Provea, ele tem acompanhado de perto a missão moradia.
Segundo as contas de Uzcategui, somente 44.954 casas foram entregues entre o dia 1º de março de 2011 e 15 de maio de 2012. Já o governo anunciava o número de 202 mil unidades. “Os números oficiais, quando disponíveis, são impossíveis de verificar, o que limita qualquer possibilidade de auditoria e de fiscalização social sobre as obras iniciadas”, lamenta Uzcategui.
O acompanhamento dos contratos assinados desde 2006 com empresas estrangeiras é ainda mais difícil. O Brasil, a China, a Rússia e o Irã foram associados à construção de moradias.
Uzcategui chama atenção para o paradoxo: “Em nome da construção do socialismo, Hugo Chávez quebrou o setor privado venezuelano. Mas ele não hesita em escancarar o país para empresas estrangeiras, dignas representantes desse capitalismo global que ele denuncia continuamente”.
As incorporadoras venezuelanas estão ainda mais insatisfeitas pelo fato de o setor da construção comercial estar enfrentando dificuldades. Dezenas de obras estão paralisadas pela falta de cimento. Oito das nove fábricas de cimento foram nacionalizadas por Chávez, e sua “missão moradia” evidentemente tem prioridade. “O setor privado, que em 2010 construiu 80 mil unidades de moradia, deverá entregar somente 30 mil este ano”, lamenta Gilbert Dao, presidente da Câmara das Construtoras.
Segundo os números do Banco Central, a construção civil cresceu 22% no primeiro semestre. Esse boom tem alavancado o crescimento da Venezuela, que poderá ultrapassar os 5% este ano.