Efeito 'pós-usinas' já preocupa economia de Porto Velho

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17 Abril 2012

Com uma equipe de mais cem corretores trabalhando em cinco filiais, Ailton Arthur deve muito da explosão recente de sua imobiliária a Jirau e a Santo Antônio. As obras das duas usinas hidrelétricas trouxeram uma repentina busca por casas e apartamentos em Porto Velho, onde ele tem seus negócios. A demanda e os preços dispararam e Arthur soube aproveitar. "Do início das obras para cá, a imobiliária cresceu 70%", diz o empresário. Hotéis novos, galpões, novas empresas, revendas de carros, arrecadação, é difícil encontrar na cidade o que não aumentou por reflexo dos dois empreendimentos. Mas Arthur, assim como muitos empresários em Porto Velho, já começa a ver o fim dessa história.

A reportagem é de Marcos de Moura e Souza e publicada pelo jornal Valor, 17-04-2012.

As obras de Santo Antônio vão até 2015. O número de funcionários, que já chegou a 20 mil, está hoje em 15 mil e continuará caindo gradativamente. Segundo o consórcio Santo Antônio Energia, os trabalhadores são todos qualificados, o que dará mais chances de conseguirem emprego depois da obra pronta. Em Jirau, as obras vão até 2014 e o pico da mão de obra também já ficou para trás. Hoje são cerca 15 mil, número que só cairá daqui para a frente.

A fase de pico no ritmo dos negócios na cidade também já se foi. "Os preços dos imóveis não estão mais subindo tanto como estavam. Estão estabilizados agora e começando a cair", diz Arthur. Sua equipe em breve, prevê ele, não será tão grande. "Terei de me ajustar ao mercado."

Assim como quem vende ou aluga imóvel, donos de hotéis já parecem estar se ressentindo. Os preços das diárias de alguns deles têm sido revistos para baixo e o que se diz é que os pedidos de crédito para investimentos em hotelaria na cidade ficaram mais complicados.

Alguns setores já tentam se preparar para a redução do ritmo das obras das usinas. "Muitas empresas do setor de alimentos, que hoje vendem carne, peixe, hortifruti, e também que vendem madeira e vestuário, por exemplo, vão ter de deslocar o fornecimento que hoje é absorvido pelo complexo do rio Madeira", diz Gilberto Baptista, superintendente da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (Fiero). "Por isso estamos tentando encontrar outros mercados, levando empresários a cada dois meses para o Peru, que é a melhor alternativa que temos e é um mercado pronto para crescer."

A transição para a fase que em Rondônia muitos chamam de "pós-usinas" também é um desafio para o governo e para prefeitura de Porto Velho.

A arrecadação de ISS, imposto que é o carro-chefe na cidade, saltou de R$ 41,3 milhões em 2008 (um ano antes dos trabalhos das usinas começarem de fato) para R$ 169,9 milhões no ano passado. O município passará a receber royalties uma vez que as usinas estiverem gerando energia. Mas uma estimativa da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que a partir de 2014, os royalties referentes só a Jirau serão de R$ 5 milhões, chegando a R$ 31 milhões em 2020.

"A nossa preocupação é com os efeitos do pós-usina. Haverá um reflexo direto na arrecadação e na economia local", diz a secretária municipal da Fazenda, Ana Cristina Cordeiro. "Só o que vem das usinas representa aproximadamente 45% do bolo do ISS", diz. Os dois empreendimentos estão no território de Porto Velho. O secretário estadual de Planejamento, George Alessandro Gonçalves Braga, faz coro: "O Estado tem uma preocupação muito grande com o que ocorrerá depois das obras", diz.

Com uma receita corrente anual de R$ 849,5 milhões no ano passado, Porto Velho apareceu em primeiro lugar no ranking feito pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) sobre gestão fiscal. O governo do Estado se gaba de outro título que também tem muito a muito a ver com as obras. Em 2011, a economia de Rondônia foi a que mais cresceu no Brasil, 7,3%. Assim como no caixa da capital, os efeitos sobre o caixa do Estado têm sido notáveis. A cada ano, desde o início das obras, a arrecadação subiu ao redor dos 20%. Em 2008, a receita de Rondônia foi de R$ 3,9 bilhões e no ano passado, de R$ 5,7 bilhões. A previsão oficial é que este ano feche em R$ 6 bilhões.

Para tentar manter a economia rodando em alta rotação depois das obras, o Estado e o município apostam em um plano de desenvolvimento com recursos do BNDES, em projetos para atrair e indústrias do setor alimentício, na ampliação do porto da capital. Assim como os empresários da Fiero, governo e prefeitura acreditam que muito do futuro econômico local está associado à sua proximidade com o Peru (via a rodovia Transoceânica e por hidrovia), mercado a ser ainda mais explorado pelas empresas em Rondônia e do Centro-Oeste. Para os exportadores, o porto de Ilo, em solo peruano, é uma porta para o mercado asiático.

Se derem certo, esses e outros projetos ajudarão o Estado a sair de uma fase de crescimento econômico para entrar noutra. Hoje, no entanto, em Porto Velho, assim como secretários do Estado e do município, muitas pessoas veem ainda com preocupação os reflexos que o fim das obras trarão.

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