16 Mai 2011
A resposta dos bispos australianos à remoção forçada de Dom Bill Morris foi tão boa quanto se poderia esperar. Ela afirmou o direito do papa de julgar os bispos, afirmou as qualidades pessoais e pastorais de Dom Morris, apenas relatou a situação que levou à remoção e prometeu levantar a questão sobre o processo junto ao papa.
A análise é de Andrew Hamilton, publicada no sítio Eureka Street, revista eletrônica dos jesuítas da Austrália, 15-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O tom gentil da carta oferece uma boa esperança de que os bispos vão manter os laços pessoais com Dom Morris, que importam mais do que as palavras.
Pode ser útil para olhar ao que aconteceu em Toowoomba contra a questão muito maior da confiança no governo. Mudanças culturais significativas têm afetado todas as instituições, incluindo os governos nacionais, assim como as Igrejas.
Todo governo depende de uma confiança passiva por parte das pessoas se for para funcionar bem. Se a confiança não for dada, as leis não serão obedecidas. Quando a confiança é retirada, as sociedades se estagnam, porque deixam de ter qualquer sentido do bem comum. Elas se tornam polarizadas, e os governos frequentemente legislam pela repressão. As autoridades responsáveis pelo governo do dia a dia ficam desmoralizados e sem entusiasmo.
Na Europa Oriental, e agora no Oriente Médio, regimes aparentemente inexpugnáveis podem ser derrubados porque falta confiança.
Tradicionalmente, as instituições estimularam a confiança descrevendo seus governantes como fortes e benignos, e guiados pelo melhores valores. Mas essas imagens, e a confiança que engendram, foram colocadas sob pressão pelo desenvolvimento das tecnologias da comunicação e pela falta de controle sobre elas. As imagens se tornaram personalizadas.
Dirigentes de instituições devem usar meios sofisticados de comunicação para projetar sua própria imagem e os valores que representam. Suas personalidades se tornam o rosto da instituição e a garantia de um bom governo.
Mas a incapacidade das instituições de controlar a comunicação os deixa vulneráveis. A ligação entre a imagem projetada e os valores e a realidade é constantemente testada por um fluxo de informações e de julgamentos críticos. O líder forte mostra-se curvado a grupos de pressão; o defensor dos valores da família revela-se um namorador; o administrador exato mostra-se gerindo um caos.
Essa erosão da confiança resulta em uma desilusão pública geral com os líderes e seus programas professos. Ela também encoraja a paralisia política visível na Austrália, na Europa e nos Estados Unidos.
Podemos esperar para ver duas respostas a esse desafio. A primeira será olhar para a substância ao invés do estilo da liderança, e garantir que o ajuste entre a imagem dos líderes, seus valores declarados e seu governo seja tão íntegro que a exposição não corroa a imagem. A segunda é controlar a imagem através do controle das comunicações, marginalizando as críticas e criminalizando os vazamentos. Essa difícil escolha subjaz às ansiedades reveladas pelo debate sobre o Wikileaks.
A retirada de Dom Morris é iluminada quando vista contra esse contexto mais amplo. A Igreja Católica também tem sido afetada pelas mudanças na comunicação. Particularmente durante o pontificado de João Paulo II, cujas viagens eram cuidadosamente coreografadas, promoveu-se a imagem do papa e dos valores que ele professa focando-se em sua personalidade.
Esse foco, inevitavelmente, também leva à especulação sobre a correspondência entre a imagem do papa e dos bispos e a realidade do seu compromisso com os valores do Evangelho que professam. A imagem torna-se incontrolável.
O catalisador para uma percepção generalizada de que, na Igreja Católica, imagem e realidade não coincidem foi a publicidade dada pela mídia à incidência generalizada dos abusos sexuais na Igreja e ao seu mau manejo por parte dos bispos, incluindo o Papa João Paulo II. Parecia que os seres humanos importavam menos do que os interesses institucionais da Igreja.
O tratamento de Dom Bill Morris corre o risco de borrar ainda mais a imagem da Igreja Católica. A história contada de um homem bom que encorajou a sua Igreja, que estava resoluta no tratamento do abuso sexual, mas foi removido em um processo não transparente, vai confirmar grande parte da sua desconfiança perante a Igreja Católica. Eles irão concluir que ela fez a opção autoritária.
Podemos perguntar, é claro, se isso importa. Tais julgamentos podem ser representados como uma simples questão de relações públicas, sem ter nada a ver com a verdade e a realidade.
Esse argumento tem algum peso. Para a maioria dos católicos, bispos e papas não são centrais em sua fé. Eles continuam comprometidos com as Igrejas, porque encontram Deus na conexão face a face com outros cristãos. Eles presumem que seus bispos e o Vaticano têm a tendência pelo bem da Igreja, mas não estão muito interessados em suas inter-relações.
Mas, para muitas pessoas, especialmente para aqueles que vivem na própria Igreja de Dom Morris e para aqueles que são bem instruídos, isso vai corroer a confiança no papa e nos bispos.
Papa e bispos são imagens da Igreja e do seu compromisso com o Evangelho de Jesus Cristo. É importante que os valores do Evangelho e os melhores valores da nossa sociedade se reflitam na forma como eles atuam. É a condição para louvar o Evangelho e seus valores dentro de uma sociedade cética.