Mais carne, menos Água. Entrevista especial com Guilherme Carvalho

Mais Lidos

  • O Pentágono ameaçou o Vaticano. É o confronto final entre Trump e Leão. Artigo de Mattia Ferraresi

    LER MAIS
  • As ameaças de Trump obrigam os católicos a decidir se serão cúmplices. Editorial do National Catholic Reporter

    LER MAIS
  • O encontro entre o Pentágono e o Vaticano é o mais recente ponto de atrito no conflito de Trump com líderes religiosos

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

10 Mai 2011

Um dos principais reflexos da produção intensiva de carne se dá na água da região onde a pecuária existe. O problema é ainda maior quando se analisa a produção de alimentos para animais que depois vão para o prato das pessoas. Guilherme Carvalho concedeu a entrevista a seguir por telefone à IHU On-Line em que falou a respeito das consequências e alternativas para o consumo e para a produção de carne no mundo.

Guilherme Carvalho é biólogo, gerente de campanhas da Humane Society International – HSI no Brasil, uma ONG internacional de proteção animal, e coordenador do departamento de meio ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você relaciona a questão das mudanças climáticas com o consumo de carne?

Guilherme Carvalho –
Há uma relação muito próxima entre a produção animal e as mudanças climáticas. Segundo um relatório de 2006 da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO, 18% dos gases de efeito estufa emitidos por atividades humanas vem deste setor, da agricultura animal. Isso vem de vários subsetores, incluindo principalmente o uso de combustíveis fósseis nas propriedades, a utilização de fertilizantes para cultivo de grão que vão virar ração animal, grandes quantidades de metano a partir da fermentação entérica dos ruminantes, o manejo, destinação e tratamento dos dejetos animais... Somando isso tudo, segundo os cálculos da FAO, 18% dos gases do efeito estufa emitidos por atividades humanas vêm da criação de animais terrestres para alimentos.

IHU On-Line – Quanto o consumo de carne no mundo pode alterar o atual patamar das mudanças climáticas?

Guilherme Carvalho –
Sem dúvida uma redução gradual do consumo per capita de produtos animais, principalmente em países desenvolvidos e nas classes médias e urbanas de países em desenvolvimento tem potencial, sim, de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Hoje, criam-se mais de 67 bilhões de animais terrestres por ano, somente para consumo de carne, leite e ovos. Este é um número astronômico.

Os Estados Unidos conseguiram, pela primeira vez em décadas, reduzir o número de animais que criam e abatem anualmente. Entre 2000 e 2009 reduziram de 10 bilhões para 9 bilhões, ou seja, ainda é um número enorme. Mas isso mostra que a redução do consumo de carne, que é uma questão que está sendo lentamente conquistada nos Estados Unidos, tem potencial de diminuir o número de animais criados - e assim diminuir os impactos sobre as mudanças climáticas.

IHU On-Line – Que tipo de movimentos existem hoje na luta pela diminuição do consumo de carne no mundo?

Guilherme Carvalho –
Existem várias opções de estilos de vida que trazem a ideia de diminuir o consumo de carne. Há vegetariano ou vegano e também o flexitariano, como se tem chamado aquele que come carne apenas às vezes. Nos Estados Unidos, há um movimento chamado Weekday Vegetarian, ou seja, aquele que só come carne nos finais de semana. Há ainda um movimento conhecido por "Segunda sem carne", que faz uma campanha internacional de grande potencial que está ganhando força no Brasil e pode ajudar a reduzir o nosso impacto no efeito estufa. Inclusive esta é uma das principais medidas que podemos empreender – junto com outras, é claro, tal como reduzir o uso do transporte individual.

IHU On-Line – E o que o consumo de água tem a ver com o consumo de carne?

Guilherme Carvalho –
Uma questão essencial de ser entendida na cadeia de produção de carne, leite e ovos, é a da conversão alimentar. Quando consumimos a carne de um animal que se alimentou durante a sua vida de alimentos de origem vegetal, estamos diminuindo a eficiência do uso daquele alimento de origem vegetal. Porque cada espécie tem uma taxa de conversão alimentar, ela come X quilos de alimento vegetal para produzir Y quilos de carne. No caso dos bovinos, essa taxa de conversão está na casa dos 7 a 10, ou seja, para cada 7 a 10 quilos de proteína vegetal ingerida, é gerado um quilo de proteína animal.

No caso dos frangos que vêm sendo geneticamente selecionados, isso está na casa dos 2 a 3 quilos ingeridos para um quilo produzido. Isso tem uma série de impactos inclusive sobre a água, porque significa que existe por trás da produção animal uma produção vegetal enorme, que está dedicada exclusivamente a alimentar estes animais de produção. Hoje, 97% do farelo de soja produzida no mundo é usada para alimentar animais. Além disso, polui muito água com o uso de fertilizantes e agrotóxicos. Este é um dos muitos componentes do impacto que temos da agricultura animal sobre a água.

Podendo contaminar a água, o solo e o ar, as granjas industriais tipicamente despejam os dejetos sem tratamento ou com tratamento mínimo sobre os campos. Patógenos dos dejetos podem terminar na água de superfície, e nutrientes como nitrogênio e fósforo podem penetrar nos lençóis freáticos ou escoar pelos campos.

IHU On-Line – Essa água utilizada na produção animal é descartada de que maneira? Ela pode ser recuperada?

Guilherme Carvalho –
Ela não costuma ser descartada de maneira correta. Existe um relatório que apontou que uma grande quantidade de animais pode facilmente igualar-se a uma pequena cidade em termos de produção de dejetos. Existe uma iniciativa que pretende gerar combustível a partir dos gases destes dejetos animais, e, portanto, minimizar o impacto ambiental. Se financiados através de certos subsídios, o uso dos biodigestores de metano em larga escala podem promover um "boom" econômico para granjas industriais, de grande escala. Nós não queremos incentivar  mais unidades de produção de grande escala que podem levar a níveis mais altos de produção de gases de efeito estufa e mesmo a níveis mais altos de emissões líquidas - o que também traria prejuízos ao bem-estar dos animais. Por outro lado, digestores de pequena escala, que favorecem os pequenos agricultores que trabalham com altos padrões de bem-estar animal, são bem-vindos.

IHU On-Line – Sendo o Brasil o país com maior porcentagem de água doce e, ao mesmo tempo, um dos maiores produtores de carne, como esse processo afeta o meio ambiente do país?

Guilherme Carvalho –
Existem uma série de efeitos que a agricultura causa no meio ambiente, um deles é o despejo de dejetos animais, como dissemos antes. Além disso, temos outro dado que revela o quanto a produção de carne é prejudicial: hoje, a pecuária é, no Brasil, a maior causa de desmatamento na Amazônia. Água e floresta são coisas que andam muito juntos. Então, quando se suprem áreas de floresta, a água aproveitável do local está sendo perdida.

IHU On-Line – Como mudar essa lógica de produção?

Guilherme Carvalho –
O primeiro processo é a conscientização do consumidor. É preciso consumir menos e o consumidor precisa se conscientizar a respeito da qualidade ética e ambiental dos produtos animais que ele consome. É a partir daí que podemos efetivar a pressão sobre o poder público. As políticas públicas também desde já precisam levar em conta o setor da agricultura animal porque ele tem que ser reconhecido como um causador e algum dos maiores impactos no meio ambiente brasileiro. Além disso, a pecuária é a maior utilizadora de terras dentre as atividades humanas.

IHU On-Line – Que outros hábitos alimentares humanos vêm interferindo no clima?

Guilherme Carvalho –
AConsumir produtos locais pode reduzir emissões. Mas um estudo concluiu que esta redução é pequena em comparação com aquela de uma mudança para uma alimentação a base de produtos vegetais.

Individualmente, incorporar no nosso dia-a-dia práticas menos nocivas ao meio ambiente e ao bem- estar dos animais, como a redução do consumo de carnes, leite e ovos, pode reduzir nosso impacto ambiental. As consequências de substituir produtos animais por opções vegetarianas saudáveis são enormes - não apenas para os animais, mas também para a preservação do meio ambiente.