07 Janeiro 2011
"Há raiva lá fora", conta, por telefone, Stefano Zannini (foto), chefe de missão dos Médicos Sem Fronteiras no Haiti, "muita raiva misturada a um sentimento difundido de desencorajamento. E é compreensível: 12 meses depois do imenso tremor do terremoto, não mudou nada na ilha. A reconstrução está praticamente na estaca zero, as pessoas continuam vivendo em barracas. Só 5% da massa de detritos foi retirada das ruas. E depois a cólera, que fez milhares de mortos. As pessoas estão com raiva porque tudo permaneceu como no dia 12 de janeiro de 2010. Estão desencorajadas porque não têm perspectivas. Não têm futuro, não têm nem mais a possibilidade de sonhar. As pessoas não acreditam mais em nada".
A reportagem é de Daniele Mastrogiacomo, publicada no jornal La Repubblica, 07-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Stefano Zannini conhece a fundo a ilha onde, em primeiro lugar, chegaram os escravos arrancados das florestas da Guiné e onde, em primeiro lugar, se rebelaram contra o tráfico de seres humanos.
Eis a entrevista.
Deve haver algum elemento positivo nesse quadro de desespero.
A única coisa positiva é a queda no número dos desalojados. Eram um milhão e meio, hoje são um milhão.
E aonde foi parar o outro meio milhão?
Não se sabe para onde foram, nem onde acabaram. Desaparecidos, engolidos pelo nada. É impossível saber. Ninguém sabe quantos habitantes vivem no Haiti.
Por que a reconstrução não inicia?
A Comissão para a Reconstrução, formada no dia 31 de março do ano passado, se reuniu três vezes em 12 meses. Há uma quantidade enorme de projetos financiados e aprovados. Continuam no papel.
Por um problema de fundos?
Não só. Falta a operatividade. O país é como um palácio formado por planos sem estruturas de sustentação. Não existe.
Mas que fim deram ao dinheiro arrecadado em todo o mundo?
Há uma diferença entre os fundos recolhidos e destinados às ONGs para as ajudas iniciadas e os fundos para a reconstrução. Os primeiros, que serviram para cuidar das pessoas, para as intervenções cirúrgicas, para a comida, para as coberturas de emergência, foram gastos, embora grande parte ainda não foi utilizada e mais da metade continua nas contas correntes de algumas ONGs.
E os da reconstrução?
Dos 5,3 bilhões destinados na reunião de Nova York para os três primeiros meses, restou pouco ou nada. E sem fundos os projetos não são nem estudados. E depois há uma responsabilidade operativa. A Comissão para a Reconstrução, formada por 30 pessoas (15 especialistas internacionais e 15 representantes da sociedade civil haitiana) não foi capaz de elaborar um plano mínimo de renascimento. Porém, como copresidente, há um personagem como Bill Clinton, que é enviado especial da ONU. É o responsável do renascimento do Haiti.
Mas ele não consegue desenvolver esse mandato. Por quê?
Não sei do que ele depende. A realidade é que um milhão de pessoas continua vivendo em barracas, não sabem quando irão voltar para casa, quando voltarão a trabalhar, como pagarão os estudos dos filhos.
O Haiti tem instituições: estas também não decidem?
As instituições sociais, as de base assim como a saúde e a educação, nunca existiram. Já eram ineficientes antes do terremoto. Cerca de 80% eram confiados aos chamados atores não estatais: instituições privadas, ONGs e organizações sem fins lucrativos.
E hoje?
O exemplo da epidemia da cólera é inconfundível. Mais de 80% das pessoas foram tratadas pela MSF e pela cooperação cubana. Hoje, o Haiti se confirma, infelizmente, como muito dependente da comunidade internacional: só esta pode fazer com que a ilha renasça.
A cólera foi contida e já faz parte da realidade de saúde da ilha?
Em Porto Príncipe, nunca houve tanta assistência de saúde como a dos últimos 12 meses. A fotografia mais clara da ilha foi dada justamente pela cólera: quando existem só dois atores internacionais que assistem 80% dos casos, é evidente que as instituições locais não são capazes de garantir a saúde.
As ONGs geraram trabalho?
Em parte, mas é sempre precário. Só a reconstrução pode criar trabalho e colocar a economia novamente em ação. Hoje, domina um clima obscuro, em que a violência é o único instrumento de sobrevivência.