Os horrores neonazistas na Ucrânia e a guerra sem fim da OTAN

Soldados do Batalhão Azov. (Foto: Wikimedia Commons)

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10 Mai 2022

 

"O rearmamento e o alargamento da OTAN para o leste, combinados com a impudência dos esquecimentos históricos e das frases de Stoltenberg, criaram entre a Rússia e a Europa um fosso quase intransponível, político e também cultural. Este é o propósito do "ladrar ocidental às portas da Rússia" denunciado pelo Papa, o esquecimento do "espírito de Helsinque", a crescente russofobia. São malfeitos que não justificam a brutal agressão russa de 24 de fevereiro, mas que certamente a facilitaram. E que levarão a Rússia, por muito tempo, a se afastar de uma Europa que cada vez mais acredita estar progredindo ao confundir seus próprios interesses com aqueles dos Estados Unidos", escreve Barbara Spinelli, jornalista e filósofa italiana, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 09-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Com o passar dos dias, os neonazistas que lutam ao lado das tropas regulares ucranianas, e em particular aqueles barricados no Usina de aço Azovstal, são chamados por nomes mais benévolos: são apresentados como heroicos resistentes, os últimos defensores da independência ucraniana. Zelensky que inicialmente queria se livrar dos neonazistas hoje depende de sua resistência e os elogia. Sua genealogia é sistematicamente ocultada e até os jornalistas enviados tendem a ignorar, raramente lembrando que no Donbass esta maldita guerra não nasceu em 2022, mas em 2014, semeando 14.000 mortes em oito anos. Ou diz-se que o batalhão Azov é um grupo descontrolado, certamente perigosa, mas não diferente de grupos tipo Forza Nuova na Itália.

 

Em vez disso, o batalhão Azov é outra coisa: é um regimento inserido estruturalmente na Guarda Nacional reconstituído em 2014 após os tumultos do Euromaidan e tem ligações orgânicas com os serviços (SBU, substituto ucraniano da KGB soviética). Portanto, são tudo menos grupos descontrolados as formações neonazistas ou os partidos próximos ao batalhão: Right Sector (Setor de Direita), Bratstvo, National Druzhina, a formação C14, o partido Svoboda hoje em declínio e vários esquadrões militarizados. Estes são os partidos com que Washington e a OTAN contaram durante a revolução colorida Euromaidan, para que Kiev rompesse com Moscou.

 

São estrategicamente cruciais para que a guerra por procuração EUA-OTAN-Moscou continue sem prazo para terminar. Se realmente fosse uma guerra local entre Kiev e Moscou, o secretário da OTAN Stoltenberg não teria rejeitado com tanta veemência a renúncia à Crimeia, proposta algumas horas antes por Zelensky como um primeiro passo para uma trégua.

 

Oleksiy Arestovych foi um dos principais líderes do Bratsvo e é um dos conselheiros políticos de Zelensky: ele mesmo também ator, especialista em propaganda, é major do exército e ingressou nos serviços secretos em 1990. Em 2014, se uniu à guerra contra os separatistas pró-russos das repúblicas de Donetsk e Luhans'k, participando de 33 missões militares. O auge do sucesso, como blogueiro, veio quando o presidente era Poroshenko, que mais se empenhou para legitimar as direitas russofóbicas e neonazistas, inserindo-as no sistema militar e administrativo. Quando Zelensky venceu as eleições, Arestovych foi nomeado seu conselheiro especial e porta-voz do Grupo de Contato Trilateral de Minsk, criado em 2014 para negociar com Moscou sobre o Donbass. Faziam parte do grupo Rússia, Ucrânia e OSCE (Organização das Nações Unidas para Segurança e Cooperação na Europa).

 

Em 2015, foi à OSCE que a Fundação para o Estudo da Democracia (associação civil russa) enviou um relatório sobre as violências perpetradas pelos serviços do Sbu e por paramilitares neonazistas não apenas contra militantes separatistas, mas também contra russófonos não-combatentes do Donbass capturados junto com os combatentes. O relatório cita e amplia um primeiro relatório, publicado em 24 de novembro de 2014. O segundo relatório menciona eletrocussão, tortura com varas de ferro e facas, waterboarding (simulações de afogamento usadas pelos EUA no Afeganistão, Iraque e Guantánamo), asfixia com sacos plásticos, torturas das unhas, estrangulamento com garrote (também conhecido como "garrote banderista" em homenagem a Stepan Bandera, colaborador dos nazistas nas guerras hitleristas, herói nacional da extrema direita e ocasionalmente também dos governos ucranianos).

 

Em outros casos, os prisioneiros eram empurrados à força para campos minados ou esmagados por tanques. A isso se acrescenta o esmagamento de ossos, as temperaturas congelantes das prisões, a retirada de alimentos, a administração de psicotrópicos letais. O Estado deixou impune tais torturas e tratamentos desumanos, proibidos pela Convenção Europeia de Direitos Humanos. Essas foram ações deliberadamente nazistas se é verdade que muitos prisioneiros receberam, na própria pele, o carimbo da suástica ou a palavra "SEPR" (separatista) gravada com lâminas em brasa no peito ou nas nádegas. A Constituição ucraniana, no artigo 37, proíbe a existência de grupos paramilitares nos partidos e nas instituições públicas.

 

Tortura e violência semelhante também são evocadas em documentos posteriores, incluindo aquele da associação ucraniana "Successful Guards" (14 de setembro de 2018). O relatório enumera as atrocidades envolvendo partidos de extrema-direita como National Druzhina, Bratstvo, Right Sector e, em especial o grupo C14, conhecido por ter firmado com numerosas administrações distritais – incluindo Kiev - um Memorando de Parceria e Cooperação. O C14 é responsável não apenas de ações violentas no Donbass, mas também de pogrom contra os Roms e de violências contra as comemorações anuais de heróis antinazistas russos, como Anastasia Baburova e Stanislav Markelov. No Donbass, o C14 muitas vezes realiza ações que o SBU não pode legalmente se permitir, escreve o relatório.

 

O método é sempre o mesmo: o exército, o SBU ou os ministérios do Interior e dos Veteranos entregam os prisioneiros suspeitos de colaboração com Moscou aos seus braços torturadores: batalhão Azov ou C14.

 

Essas violências deveriam ser lembradas no dia que comemora a vitória soviética de 1945 e aquela que Moscou chama de "grande guerra patriótica". Os comentaristas ocidentais também a chamam assim, para dissimular o fato de que foi uma vitória que libertou toda a Europa do nazismo, com os aliados ocidentais, e que custou à Rússia pelo menos 30 milhões de mortos.

 

Há tempo se relativiza, a ponto de fazê-la desaparecer, a contribuição decisiva do exército russo na libertação europeia. A contribuição é obliterada, como se nunca tivesse existido, até mesmo pelo Parlamento Europeu (é memorável uma resolução de setembro de 2019 que atribui apenas ao pacto Ribbentrop-Stalin as culpas pela guerra e não faz menção à resistência russa).

 

O rearmamento e o alargamento da OTAN para o leste, combinados com a impudência dos esquecimentos históricos e das frases de Stoltenberg, criaram entre a Rússia e a Europa um fosso quase intransponível, político e também cultural. Este é o propósito do "ladrar ocidental às portas da Rússia" denunciado pelo Papa, o esquecimento do "espírito de Helsinque", a crescente russofobia. São malfeitos que não justificam a brutal agressão russa de 24 de fevereiro, mas que certamente a facilitaram. E que levarão a Rússia, por muito tempo, a se afastar de uma Europa que cada vez mais acredita estar progredindo ao confundir seus próprios interesses com aqueles dos Estados Unidos.

 

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