Polônia, no país do Papa Wojtyla, os jovens viram as costas à Igreja

Basílica de Nossa Senhora de Licheń. na Polônia | Foto: Wikimedia Commons

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04 Janeiro 2021

Cardeais, bispos e párocos temem um futuro de igrejas vazias e abandonadas especialmente pelos jovens da Polônia, país do grande papa Karol Wojtyla, partidário antinazista e depois primeiro "papa global" e líder da revolução global não violenta contra o comunismo. Isso foi afirmado pela fonte mais confiável e insuspeitada, o Iskk, o Instituto de Estatística da Igreja Católica Polonesa. Confirmando os dados de uma tendência crescente de pedidos de apostasia, especialmente, mas não exclusivamente, entre jovens e menos jovens nas cultas classes médias urbanas europeístas: apenas 9-9,2 por cento dos jovens poloneses afirma que acredita na Igreja ou tem uma opinião positiva sobre ela, em um país 76% católico.

A reportagem é de Andrea Tarquini, publicada por La Repubblica, 02-12-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

É um ponto de virada histórico que marcará 2021 no maior estado oriental membro da União Europeia, OTAN e mundo livre. E onde a Igreja Católica, desde os séculos gloriosos do Reino da Lituânia e da Polônia, grande potência europeia e das armadas poloneses que pararam os turcos às portas de Viena, até a divisão brutal da Polônia entre a Rússia, Prússia e Áustria-Hungria, da agressão criminosa e ocupação exterminadora nazista até as décadas do comunismo e depois, sempre desempenhou o papel de refúgio, voz crítica e protetora da cultura da Nação e da sociedade civil.

A fonte da notícia fornecida pelo Iskk não é suspeita. É a respeitada mídia on-line Nfp, Notes from Poland. Segundo ela, o Iskk começou a trabalhar em um estudo e censo de católicos e apóstatas, pela primeira vez desde 2010. Naquela época, havia apenas 459 pedidos de apostasia, hoje os levantamentos e reportagens investigativas das mídias de todas as tendências anunciam um recorde histórico. Obter a apostasia e deixar a Igreja hoje se tornou fácil: basta comparecer à paróquia ou diocese com um documento de identidade e uma certidão de batismo. A presença de testemunhas, ao contrário do passado, não é mais necessária.

“Pelo que sabemos, no momento as apostasias ainda estão bem abaixo do número de batismos, mas a tendência do adeus à Igreja está aumentando”, afirma o diretor do Instituto, professor Monsenhor Wojchiech Sadlon. Os motivos são explicados por várias fontes com argumentos sólidos. Os jovens e as classes médias urbanas europeístas modernas, globais e trabalhadoras, beneficiárias da revolução não violenta com a qual em 1989 a transição da Polônia do comunismo para a democracia e para a economia de mercado produzia um boom extraordinário, não suportam mais tantas, demasiadas tomadas de posição de cardeais e conferência episcopal que julgam reacionárias e alheias ao seu mundo, à sua vida quotidiana, à sua Weltanschauung.

As censuras dos fiéis desapontados e dos aspirantes a apóstatas são precisas: a Igreja encobriu e continua a encobrir um grande número de casos de abusos contra menores cometidos por religiosos. A igreja é uma ponta de lança da campanha hostil do governo soberanista nacional-clerical livremente eleito e liderado pelo PiS (Prawo i Sprawiedlywosc, Direito e Justiça, do líder histórico da direita, vice-primeiro-ministro e carismático número um, aliado de Orbán) para a luta do movimento de mulheres contra as novas leis e mudanças constitucionais que proíbem o aborto mesmo em caso de malformações letais do feto. Muitos fiéis poloneses também estão fartos da hostilidade implícita, mas muito perceptível, do episcopado à linha do Papa Francisco, "e a desconfiança das instituições eclesiásticas é tal que leva mesmo à falsa convicção de que a Igreja sonega impostos", diz o professor Monsenhor Sadlon .

A oposição europeísta é católica e não favorável ao aborto, mas muitas vezes acompanha o protesto das mulheres. As recentes campanhas homofóbicas do PiS, com quase um terço do território declarado "conjunto de zonas livres da ideologia LGBT", as comparações de não poucos bispos entre os homossexuais e os opressores nazistas e depois comunistas, a preparação pela maioria de uma lei que proíbe qualquer marcha ou reunião LGBT, completam o quadro.

O partido de esquerda, não comunista, mas anticlerical, Wiosna (Primavera) chegou a abrir escritórios e sites que ajudam aqueles que querem buscar a apostasia. Um fato positivo sobre o clima não opressivo e revelador da modernidade polonesa é a facilidade com que se consegue a apostasia hoje, muito maior do que nas décadas anteriores. 76 por cento dos fiéis que deixaram a Igreja Católica Apostólica Romana declaram que o fizeram sem encontrar dificuldades ou pressões, contra apenas 7 por cento. A nova tendência dos fiéis poloneses faz parte do clima geral que preanuncia um possível 2021 difícil para os autocratas soberanistas da Europa Central em suas contínuas restrições e confronto com a sociedade civil.

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