México. Outro padre executado

Pe. Román de la Cruz Hernández (Fonte: Reprodução | Youtube)

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26 Setembro 2026

O crime organizado, e de maneira preponderante o narcoterrorismo, se espalha aceleradamente por todo o país, nas vias públicas, escolas, festas, comércios e até mesmo nas redes sociais. Não se trata apenas da dependência de drogas, homicídios ou das guerras entre facções, mas de um poder que vai destruindo o tecido social.

A reportagem é de Simón Vargas Aguilar, publicada por La Jornada, 25-09-2026.

Seu método de apropriação da sociedade já não depende apenas da ameaça direta: há pobreza, evasão escolar, famílias destruídas e, sobretudo, uma narcocultura que se disseminou. Isso não é “crime comum”, mas uma política de captura geracional. Diante de todos esses problemas sociais, as igrejas têm sido, há décadas, um divisor de águas diante dos conflitos e buscam ajudar a população.

Os padres e pastores conhecem as famílias, acompanham os enfermos, escutam o que as pessoas não se atrevem a dizer diante da Justiça, celebram os sacramentos e, em mais de uma comunidade, acabam sendo a última instância de mediação quando as autoridades se calam e as instituições de segurança chegam tarde ou jamais chegam. Denunciar o crime, pregar contra a violência ou simplesmente não pagar uma taxa de extorsão não é um ato de rebeldia, mas uma voz que se ergue quando a indiferença ganha cada vez mais espaço.

E talvez seja por isso que eles tenham se tornado um alvo. O assassinato ou o ataque contra um padre não é um dano colateral da violência generalizada; trata-se de uma mensagem de controle social, porque quem tira a vida de um pároco não elimina apenas um homem, mas diz ao povo que nem mesmo a Igreja serve de refúgio e que a coragem tem um preço.

No dia 15 de setembro de 2026, em plena véspera das Festas Pátrias, o corpo do padre Román de la Cruz Hernández, de 48 anos, pároco da comunidade de Santa Cruz, em Huejutla, no estado de Hidalgo, foi encontrado com ferimentos provocados por arma de fogo ao lado da rodovia de Lolotla. Junto dele havia uma mensagem intimidatória, cujo conteúdo as autoridades não revelaram. De la Cruz coordenava a comissão pastoral profética da Diocese de Huejutla, que um mês antes havia alertado que criminosos hackeavam telefones de padres para se passar por eles e extorquir os fiéis.

A Conferência do Episcopado Mexicano expressou sua indignação e solidariedade a dom José Hiraís Acosta Beltrán, bispo de Huejutla, e exigiu “uma investigação exaustiva que permita esclarecer esses fatos e fazer justiça rapidamente”. O próprio bispo Hiraís pediu que não houvesse especulações para não atrapalhar as investigações, mas não suavizou o diagnóstico. Diante da “situação alarmante de violência vivida em nosso país”, conclamou as autoridades a esclarecer o crime e a “não permitir que este acontecimento, nem os demais crimes que têm ferido nossa nação, fiquem impunes”.

Até o momento, os resultados apresentados pelas autoridades não correspondem à gravidade do apelo. Francisco Ángel Fernández Hasbun, chefe do gabinete da Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de Hidalgo, afirmou que existem hipóteses, que “as investigações correspondentes” estão ocorrendo e que “acredita que em breve resolverão”. No entanto, não há detidos e nem se percebe um compromisso federal à altura de um homicídio como o ocorrido. Hipóteses sem prisões, em nosso país, tendem a se traduzir em mais um crime que ficará apenas em uma pasta de investigação.

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O Centro Católico Multimedial, que documenta a violência contra membros da Igreja, registra quatro sacerdotes assassinados durante o governo da presidente Claudia Sheinbaum Pardo: Marcelo Pérez Pérez, em Chiapas; Bertoldo Pantaleón Estrada, em Guerrero; Ernesto Baltazar Hernández Vilchis, no Estado do México; e Román de la Cruz Hernández, em Hidalgo. Desde 1990, já são mais de 60 padres assassinados.

O aspecto paradoxal da situação é que tudo parece indicar que não importa quantos padres sejam assassinados, porque a impunidade protege muitas figuras relevantes da sociedade. Recentemente, durante seu segundo informe de governo, quando o corpo do padre Román ainda nem havia terminado de ser velado, o prefeito de Jaltocán, Guillermo Amador Lara, lançou uma advertência pública ao pároco José Rosario Arévalo Cervantes, o padre Chayo, da Igreja de São João Batista. Exigiu que ele se concentrasse em “seu sermão religioso”, que não ofendesse a população e que não se envolvesse “em situações que não lhe dizem respeito, pois nós não nos metemos com o clero... que ele não se meta com a nossa política”, disse, acrescentando que acreditava que seria ouvido pelo padre.

Um prefeito que, poucas horas após o assassinato de um membro da Igreja na mesma diocese, censura publicamente outro padre, não está defendendo a laicidade. E um governo que acumula hipóteses, comunicados e missas de desagravo sem prender ninguém está enviando uma mensagem: que o controle social do crime é tolerado enquanto não ganhar repercussão nos meios de comunicação da capital.

O México não pode continuar tratando esses crimes como casos sem importância. Matar um padre é advertir todo um povo de que o silêncio é a única saída permitida e, enquanto essa advertência permanecer impune, os diferentes níveis de governo não estarão combatendo o crime; na realidade, estarão cedendo terreno a ele.

Esclarecer esses crimes é importante já que o padre costuma ser uma das poucas pessoas que percorrem as comunidades sem proteção: conhece a família que está sendo extorquida, sabe qual jovem desapareceu e qual autoridade não faz justiça e prefere ignorar a situação. Retirar essa figura é vulnerar a comunidade.

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