MPT investiga suspeita de assédio eleitoral após fala de Luciano Hang sobre fim da 6×1

Foto: Leopoldo Silva | Agência Senado

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02 Setembro 2026

Ministério Público do Trabalho já recebeu 256 denúncias de assédio eleitoral em ambiente de trabalho em 2026, até 1º de setembro, sendo 126 delas só em agosto, mês que marcou o início da campanha eleitoral.

A reportagem é de Niara Aureliano, publicada por ExtraClasse, 01-09-2026. 

O Ministério Público do Trabalho (MPT) instaurou uma Notícia de Fato para apurar possível prática de assédio eleitoral após o empresário Luciano Hang, dono da Havan, reunir funcionários da rede em Goiás e discursar contra a proposta de fim da escala 6×1. No vídeo que circula nas redes sociais, Hang afirmou que a mudança aumentaria o custo da mão de obra na Havan e faria com que parte dos trabalhadores precisasse procurar "um subemprego".

O discurso ocorreu no sábado, 29 de agosto, em Caldas Novas (GO), durante a inauguração da 196ª unidade da rede. Ao final da fala, o empresário também classificou a proposta como "estelionato eleitoral". A declaração do empresário acontece às vésperas de a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado apreciar a matéria, marcada para a próxima quarta-feira, 2 de setembro.

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Hang alegou que a mudança na jornada de trabalho no país, prevista na proposta de emenda à Constituição (PEC) 221/2019, poderia aumentar em 15% os custos da Havan com mão de obra. Ele também apontou que empresas menores enfrentariam impactos maiores e que o aumento das despesas seria repassado aos consumidores.

"A liberdade do trabalho é de vocês, não é do Congresso Nacional. Eles querem ganhar o voto de vocês", disse Hang.

O MPT confirmou que tomou conhecimento da gravação na segunda, 31, e determinou a instauração de Notícia de Fato para apuração dos fatos. Até o momento, contudo, não há outros elementos ou informações que possam ser divulgados, considerando que o procedimento se encontra em fase inicial de apuração, informou o órgão.

A redução da jornada de trabalho é uma das principais bandeiras do presidente Lula (PT) e conta com o apoio de 71% da população brasileira, afirma pesquisa Datafolha divulgada em março deste ano.

O jornal Extra Classe procurou a defesa de Luciano Hang e a matéria será atualizada assim que obtiver retorno.

Denúncias dispararam em agosto

O MPT recebeu 256 denúncias de assédio eleitoral no ambiente de trabalho em 2026, até 1º de setembro, sendo 126 delas só no mês de agosto. O aumento dos registros ocorreu junto ao início da campanha eleitoral, em 16 de agosto, quando passa a ser permitido o pedido explícito de votos e é liberada a propaganda eleitoral.

A prática de assédio eleitoral ocorre quando alguém em posição de poder tenta manipular o voto de outra pessoa, o que não necessariamente envolve ameaças diretas aos trabalhadores.

De acordo com o Tribunal Superior do Trabalho (TST), promessas de benefícios, pressão para participar de atos políticos, insistência para usar adesivos de campanha ou até pedidos para comprovar o voto, no ambiente de trabalho, podem configurar a prática, que é considerada crime no Brasil.

Para denunciar, o MPT recomenda que o cidadão reúna provas, que podem ser mensagens de WhatsApp, e-mails, áudios, vídeos, documentos internos, comunicados, fotografias, registros de reuniões e depoimentos de testemunhas. O denunciante também não deve alterar as provas, de forma que seja possível demonstrar não apenas o conteúdo da mensagem, mas quem a enviou, quando foi enviada, para quem foi dirigida e em qual contexto profissional ocorreu.

"O trabalhador pode procurar o Ministério Público do Trabalho e relatar o que está acontecendo, inclusive solicitando a preservação de sua identidade. É importante também, sempre que isso puder ser feito de maneira lícita e segura, preservar as provas da conduta. O trabalhador deve preservar, sempre que possível, as mensagens originais, prints, áudios, vídeos, e-mails, comunicados e informações sobre data, local e participantes das reuniões. É recomendável evitar alterações ou edições nos arquivos originais, porque a preservação da integridade da prova facilita sua utilização posteriormente. O conjunto probatório é que permite reconstruir o que aconteceu", reforça o órgão.

Histórico da Havan

Durante a eleição presidencial de 2018, o MPT de Santa Catarina ajuizou uma ação após receber denúncias de possível coação ou direcionamento das escolhas políticas dos empregados da Havan. Na ação os procuradores do Trabalho ressaltaram que o empresário declarava que iria fechar milhares de postos de trabalho caso seu candidato não fosse eleito. Também eram realizados eventos em unidades da empresa com ostensiva campanha política partidária para presidência da república. Hang apoiou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na época, a 7ª Vara do Trabalho de Florianópolis proibiu a empresa e Luciano Hang de fazer propaganda política entre os funcionários, coagir ou influenciar o voto dos trabalhadores e realizar pesquisas de intenção de voto. A ação do MPT foi motivada por 47 denúncias.

Em 2024, a Havan e Hang foram condenados por assédio eleitoral pela Justiça do Trabalho de Santa Catarina. A decisão determinou o pagamento de R$ 1 milhão por dano moral coletivo e de R$ 1 mil por dano moral individual a cada empregado com vínculo com a empresa até 1º de outubro de 2018.

Processos na Justiça do Trabalho

Uma pesquisa inédita da Justiça do Trabalho (JT) examinou 662 processos de assédio eleitoral ajuizados entre maio de 2023 e dezembro de 2025. Segundo a pesquisa, há predominância de ações ajuizadas por pessoas físicas, indicando que o assédio eleitoral chega à JT principalmente sob a forma de demandas de trabalhadores ou trabalhadoras individuais que buscam reparar danos que já aconteceram.

A pesquisa Assédio eleitoral nas relações de trabalho: diagnóstico empírico dos processos judiciais e das práticas institucionais na Justiça do Trabalho foi divulgada no último dia 18 de agosto.

Os dados usam como ponto de partida o ano de 2023, quando foi criado o marcador específico "Assédio Eleitoral" no Processo Judicial Eletrônico (PJe) pela Resolução CSJT 355/2023.

Até agosto de 2026, são 738 processos na JT sobre o tema, e cinco estados concentram mais da metade deles: São Paulo (17,5%), Paraná (14,6%), Rio Grande do Sul (10,5%), Rio de Janeiro (7%) e Santa Catarina (6,3%).

Sindicatos criam canal para receber denúncias

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e outras centrais lançaram um canal nacional para receber denúncias de assédio eleitoral nas eleições de 2026.

A iniciativa permitirá registrar casos de ameaças, constrangimentos, demissões, retirada de benefícios e outras formas de pressão relacionadas à preferência política. Os relatos serão organizados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e poderão resultar em ações dos sindicatos e das centrais. Quando houver elementos suficientes, os casos serão encaminhados ao MPT.

Campanha empresarial contra fim da 6×1

No mesmo fim de semana, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) lançou uma campanha para pressionar o Senado a não decidir sobre o fim da escala 6×1 durante as eleições.

Com o lema A conta já está alta demais. Mudança das regras do trabalho às vésperas da eleição? Agora não, empresários defendem que a atualização da jornada significará repassar aos consumidores o aumento de preços em forma de inflação, crescimento da informalização e redução dos lucros.

Mobilização nas ruas

Do outro lado, trabalhadores organizaram atos em diversos municípios em mobilização nacional pela aprovação da PEC 221/2019, no último domingo, dia 30. Nesta terça, 1º de setembro, sindicalistas convocam uma campanha nas redes sociais e via a plataforma Na Pressão. O objetivo é pressionar os senadores. A CCJ aprecia a matéria nesta quarta, 2, durante esforço concentrado do Congresso Nacional.

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