Por que os navios encalhados no Estreito de Ormuz se tornaram uma ameaça de “bioinvasão” para o mundo todo?

Foto: MC2 Indra Beaufort | Wikimedia Commons

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30 Julho 2026

Um estudo aponta que os navios de carga encalhados no Golfo poderiam transportar, incrustadas em seus cascos, espécies invasoras muito potentes para todo o mundo à medida que o comércio for retomado.

A reportagem é de Matthew Pearce, publicada por The Guardian, e reproduzida por elDiario.es, 29-07-2026.

O fechamento do Estreito de Ormuz criou as condições para uma ameaça extrema à biodiversidade mundial. Cientistas alertam que milhares de navios encalhados poderiam espalhar espécies marinhas invasoras pelos oceanos de todo o mundo quando voltarem a navegar.

Mais de 1.500 embarcações comerciais estão encalhadas no Golfo desde que essa via navegável estratégica foi fechada em 28 de fevereiro, após a eclosão da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Uma equipe internacional de biólogos marinhos apontou que, ao permanecerem imóveis, os cascos dos navios estavam se cobrindo de vida marinha, desde micróbios e algas até cracas e outros invertebrados, que poderiam viajar como clandestinos para portos de todo o mundo quando o comércio for retomado.

O professor Mario Tamburri, do Centro de Ciências Ambientais da Universidade de Maryland e autor principal do estudo, afirma que a situação é "uma tempestade perfeita": "Se eu tivesse que imaginar o pior cenário possível, não sei se eu o teria imaginado diferente."

A pesquisa descreve a situação como um possível "evento de superpropagação de bioinvasão" marinha, argumentando que nenhuma interrupção anterior do tráfego marítimo fez com que tantos navios permanecessem inativos por tanto tempo.

Segundo o estudo, os navios costumam permanecer fundeados em um porto entre um e três dias, o que limita o crescimento de organismos em suas superfícies submersas. No entanto, muitas embarcações presas no Golfo permaneceram imóveis por meses, o que permitiu que se estabelecessem densas comunidades marinhas em seus cascos.

Se milhares de embarcações zarparem carregadas de cracas, algas, mexilhões e outros organismos, poderiam introduzir espécies invasoras que competem com a fauna nativa, propagam doenças e alteram de forma permanente os ecossistemas marinhos de todo o mundo.

"Quando organismos são transportados de um lugar para outro, eles podem reduzir a biodiversidade nas regiões que invadem e provocar a extinção local dos organismos que deslocam", explicou Tamburri. As espécies invasoras também podem devastar a pesca, obstruir os sistemas de refrigeração de usinas elétricas e representar um custo de gestão de bilhões de dólares por ano, acrescenta.

O Golfo já é um ponto crítico para invasões marinhas, e estudos anteriores identificaram dezenas de espécies não nativas introduzidas em grande parte pelo transporte marítimo comercial. Os pesquisadores apontaram que o calor e a salinidade extremos da região podem tornar os organismos especialmente resistentes.

Invasores "resistentes" e "eficazes"

"Eles são bastante resistentes. Estão acostumados a ambientes extremos, altas temperaturas e altos níveis de salinidade", explica Tamburri. "Esses organismos resistentes, que muitas vezes conseguem suportar esses ambientes extremos, são invasores realmente eficazes."

O pesquisador aponta que as regiões com condições similares de temperatura e salinidade eram as que corriam maior risco. "Os portos que apresentam ambientes muito semelhantes aos da região do Golfo são provavelmente os que correm maior risco", afirma Tamburri, que destaca a Índia e Singapura entre os lugares em que as autoridades deveriam estar alerta.

O estudo indica que é possível que alguns navios já tenham liberado milhões de larvas nas águas do Golfo durante os meses em que permaneceram inativos. À medida que o tráfego marítimo for retomado, os organismos presentes na água de lastro, assim como os parasitas e patógenos das "comunidades de bioincrustação" que colonizam os cascos dos navios, poderiam se espalhar rapidamente pela rede mundial de transporte marítimo.

Tamburri insta os governos e as companhias marítimas a inspecionarem e limparem os navios antes que saiam do Golfo sempre que possível, enquanto os portos que aguardam chegadas deveriam aumentar a vigilância de espécies invasoras e estabelecer planos de resposta rápida.

Estabelecendo uma comparação com a saúde pública, Tamburri aponta que a resposta deveria refletir os esforços para conter doenças infecciosas. "A detecção precoce é realmente importante; a prevenção antes do deslocamento é realmente importante", afirma. "Em muitos aspectos, é como o monitoramento da gripe ou da Covid-19. É preciso estar preparado para isso, detectá-lo a tempo. Se algo for encontrado, é preciso gerenciá-lo imediatamente."

Um porta-voz da Organização Marítima Internacional (OMI) apontou que "as incrustações biológicas podem ser um vetor-chave para a transferência de espécies aquáticas invasoras. Existe o risco de que espécies sejam transferidas se os navios não conseguirem eliminar as incrustações antes de deixar uma área, após um período prolongado de tempo na mesma. A OMI recomenda que os operadores de navios sigam, na medida do possível, as diretrizes da OMI sobre incrustações biológicas."

"A OMI está atualmente elaborando um instrumento independente e juridicamente vinculante para o controle e a gestão das incrustações biológicas em navios, com o objetivo de minimizar a transferência de espécies aquáticas invasoras."

Referindo-se a ecossistemas como recifes de coral, campos de zostera marinha e criadouros de ostras, Tamburri explica que "se as autoridades não agirem, alguns dos habitats marinhos mais valiosos do mundo poderão sofrer danos duradouros". "É provável que alguns deles sejam afetados e talvez danificados de forma irreparável", indica, classificando isso como uma "versão superpropagadora" da forma como os navios já transportam espécies invasoras pelo mundo.

Embora a segurança das pessoas deva continuar sendo a prioridade, Tamburri pede aos governos que não percam de vista os riscos ambientais. "Conflitos como este são horríveis. Há sofrimento humano, mas também não podemos ignorar as consequências ambientais."

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