27 Junho 2026
Governos da América Latina precisam tomar medidas para proteger as crianças das ameaças climáticas, especialmente as combinadas, afirmaram especialistas consultados pela SciDev.Net, ao comentarem o novo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). O relatório, entre outras coisas, especifica que uma em cada três crianças na América Latina e no Caribe – cerca de 58 milhões – estaria exposta a secas, calor extremo e ondas de calor.
A reportagem é de Rodrigo de Oliveira Andrade, publicada por SciDev.Net, 19-06-2026. A tradução é do Cepat.
Os especialistas alertam que as crianças não são apenas mais vulneráveis a fenômenos como calor extremo e secas, mas também conviverão por mais tempo com os efeitos de uma crise climática que continuará a se intensificar nas próximas décadas.
“A prioridade deve ser o fortalecimento da resiliência climática dos serviços essenciais para crianças, o que significa garantir que escolas, centros de saúde, sistemas de água e saneamento, proteção social e mecanismos de resposta a emergências possam continuar funcionando durante e após eventos climáticos extremos”, disse Reis López, assessor de resiliência climática do UNICEF, à SciDev.Net.
Rodolfo de Carvalho Pacagnella, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, Brasil, que não participou da elaboração do relatório, observou que os impactos dos eventos climáticos não são distribuídos de forma igualitária, “portanto, a adaptação climática centrada na criança deve se tornar uma prioridade da política pública”, disse à SciDev.Net.
O relatório abordou as oito ameaças climáticas mais frequentes – inundações costeiras, secas, calor extremo, incêndios florestais, ondas de calor, cheias de rios, tempestades de areia e poeira e tempestades tropicais – e a maioria dos países e territórios do planeta.
De acordo com a análise, mais de um bilhão de crianças em todo o mundo estão expostas a pelo menos três ameaças climáticas sem acesso aos serviços necessários para lidar com elas. No entanto, o relatório esclarece que, embora a crise climática seja um fenômeno global, seus efeitos não são sentidos igualmente em todos os lugares.
“As crianças não são um grupo homogêneo e os eventos climáticos as afetam de maneiras diferentes e em graus variados, dependendo da idade, sexo, deficiência e etnia, especialmente no que diz respeito à identidade indígena”, enfatiza o documento.
Seca, calor extremo e ondas de calor constituem a combinação mais frequente, com mais de 296 milhões de crianças vivendo em áreas expostas a essas ameaças. A segunda combinação mais comum – seca, calor extremo e tempestades tropicais – afeta mais de 115 milhões de crianças em todo o mundo.
“Os riscos climáticos combinados geram efeitos em cascata que reforçam a vulnerabilidade das crianças, sobrecarregando a capacidade de resposta de suas famílias, comunidades e serviços sociais”, explicou López.
“Uma seca pode levar à insegurança alimentar, aumentar o risco de incêndios florestais e, consequentemente, contribuir para enchentes repentinas, afetando simultaneamente a saúde, a educação, a proteção e os meios de subsistência das crianças”, acrescentou.
Além disso, os efeitos da seca vão muito além da falta de água: ela destrói plantações, reduz a disponibilidade de alimentos e aumenta o risco de desnutrição infantil, recrudescendo as pressões econômicas e aprofundando a pobreza nas famílias mais vulneráveis, afirma o relatório.
Panorama geral do número de crianças expostas a riscos relacionados ao clima. Crédito da imagem: Children’s Climate Risk Report (2026), UNICEF
A situação na América Latina
Na América Latina e no Caribe, 141 milhões de crianças estão expostas a ondas de calor cada vez mais frequentes, prolongadas e intensas, enquanto 118 milhões estão expostas a secas.
“As ondas de calor são frequentemente associadas apenas ao desconforto térmico, mas seus impactos são muito mais profundos”, enfatizou López. “Temperaturas extremas podem causar desidratação e agravar condições preexistentes, afetando o aprendizado, a frequência escolar e a saúde mental”.
Em uma escala de 0 a 10, Venezuela (7,78), México (7,25), Colômbia (6,45) e Brasil (5,9) são os países da América Latina com os níveis mais altos de exposição absoluta para crianças, de acordo com o relatório. No outro extremo, Uruguai (2,7), Chile (3,25) e Paraguai (3,3) apresentam níveis mais baixos.
“O relatório da UNICEF mostra claramente que a exposição e a vulnerabilidade variam de acordo com fatores como pobreza ou local de residência, muitas vezes ampliando desigualdades preexistentes e limitando as oportunidades para milhões de crianças”, observou Carvalho Pacagnella.
Pacagnella também destacou outro aspecto, menos visível: “As crianças são fisiologicamente mais vulneráveis porque seus corpos ainda estão em desenvolvimento, por isso regulam a temperatura corporal com menos eficácia do que os adultos e enfrentam maiores riscos durante a exposição prolongada ao calor extremo”.
Além das ondas de calor e secas, o relatório da UNICEF alerta que cerca de 40 milhões de crianças, principalmente no Caribe, podem ser afetadas por tempestades tropicais.
Esses fenômenos causam danos severos à infraestrutura, interrupções em serviços essenciais, deslocamento populacional e contaminação generalizada de fontes de água.
Eventos recentes demonstraram o enorme impacto que podem ter sobre os serviços essenciais. Em 2025, o furacão Melissa atingiu várias ilhas do Caribe, incluindo Jamaica, Cuba, Haiti, República Dominicana e Bahamas, causando danos severos à infraestrutura essencial e interrompendo a educação de cerca de 477 mil crianças na região.
“Insistimos na necessidade de fortalecer a resiliência dos serviços sociais essenciais por meio de medidas de adaptação, redução do risco de desastres e proteção social. Isso requer recursos financeiros, mas também decisões políticas que coloquem as crianças no centro dos planos nacionais de adaptação e desenvolvimento”, concluiu López.
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