“Para enfrentar a ecoansiedade, precisamos gerar redes e espaços para nos cuidarmos”. Entrevista com Laura Aránega

Fonte: Unsplash

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22 Mai 2026

A psicóloga Laura Aránega (Múrcia, 1993) dedica anos de especialização às emoções geradas pela crise climática e suas consequências. Em seu consultório, tanto na cidade de Múrcia [Espanha] quanto de forma on-line, ela acompanha quem chega almejando deixar de lado o sofrimento causado pelo conhecimento do estado atual do planeta e, pior ainda, pelas previsões para o futuro.

A entrevista é publicada por La Marea-Climática, 19-05-2026.

Eis a entrevista.

Antes de tudo, o que é a ecoansiedade? É uma boa palavra para utilizarmos?

Acredito que o rótulo “ecoansiedade” serve para que as pessoas possam identificar que isso existe, que é algo concreto, para que possamos gerar uma rede e para que elas se sintam parte de uma comunidade que sente algo parecido. Mas, sinceramente, não sei se o conceito me convence.

Então, como o definimos?

Eu diria que são pessoas que apresentam um mal-estar muito intenso, seja por sintomas ansiosos ou por sintomas depressivos, mas que está associado à consciência da emergência climática. Há muitas pessoas nessa situação e, independentemente de ser um sintoma ou outro, o que têm em comum é que a causa desencadeadora possui características muito específicas, pois não está totalmente desadaptada em relação ao contexto e requer uma atenção especial.

Como as pessoas que estão passando por isso se sentem?

O que encontro com muita frequência são pessoas que se sentem muito incompreendidas em vários ambientes. Mesmo assim, sinto que há uma grande margem para melhora. A maioria das pessoas que começou a terapia, há alguns anos, já está bem. A ecoansiedade, assim como outros problemas de base ansiosa, tem a ver com trabalhar o que está por baixo, mais do que com o fenômeno em si.

Contudo, para poder trabalhá-la, é preciso conhecer o fenômeno. Costuma acontecer de as pessoas que a sofrem não se sentirem compreendidas por profissionais, da mesma forma que não se sentem compreendidas por seu ambiente ou família.

E como aborda esse assunto na terapia?

Sempre começamos falando de ecoansiedade e acabamos falando de padrões e temas particulares, que mudam muito de uma pessoa para outra. Acaba-se falando sobre como gerenciar a vida, porque a ecoansiedade tem a ver com o fato de estarmos conectados com a vida e com o que está acontecendo, com a realidade do mundo.

Qual é o perfil das pessoas que têm ecoansiedade?

Há um recorte de gênero claro: muitas mulheres. Também há mais jovens e algumas mães. É algo que se ativa muito com a criação dos filhos.

Além da terapia, há algo que se possa fazer para se sentir melhor?

Parece que estou fazendo propaganda do projeto que vamos começar, mas a verdade é que acho muito interessante ter algo que seja como uma espécie de grupo de apoio mútuo. De fato, há algum tempo pensei em começar algo assim, mas é complicado criar grupos on-line, a não ser que você já tenha uma plataforma e uma comunidade como a da Climática.

Criar uma rede e poder estar conectada com pessoas que se preocupam com o tema, mas a partir de um lugar do cuidado mútuo, é algo muito interessante, pois vejo que se repete bastante uma resposta fóbica em relação a certos ambientes dos quais as pessoas se aproximam justamente pela preocupação com a emergência climática. Estar neles aumenta a ecoansiedade delas, pois tudo gira em torno de como tudo está muito ruim...

Muitas vezes, é difícil sentir que, dentro daquele espaço, as pessoas estão se cuidando, e o mal-estar aumenta. Então, gerar espaços, seja on-line, como faremos, ou de outras formas, onde as pessoas se sintam ouvidas e compreendidas é muito importante, pois há pessoas que também têm muita dificuldade para encontrar tal espaço em seu círculo mais próximo.

A ansiedade costuma ser definida como uma resposta desproporcional diante de um perigo. O problema é que a ameaça representada pela crise climática é, sim, muito grave. Suponho que seja importante levar isso em conta.

A forma como se trabalha a ansiedade, em muitos contextos, tem a ver com isso: avaliar até que ponto a resposta do corpo está sendo adaptada ao que existe no ambiente. Efetivamente, com a ecoansiedade, o que está no ambiente é muito grande e muito real. Por isso, nas pessoas que são mais conscientes dos dados, o corpo reage a uma realidade que é gigante.

O importante, aqui, é reconhecer o fato e não tentar desconectar a pessoa da realidade, como se não fosse para tanto, mas, ao contrário, conectar a pessoa com as suas próprias capacidades. É muito semelhante ao modo como trabalhamos com o luto, porque a realidade é dura, é verdade, e a margem de ação que temos é limitada e concreta.

Além disso, é fácil sentir que essa capacidade de ação é insuficiente porque fico focada no problema e não em mim. O trabalho consiste em desapegar bastante, deixar de nos fundirmos com o problema e voltar a colocar o foco em nós, porque estamos muito presas ao que estamos vendo, ao que poderíamos fazer. Precisamos nos manter apegadas ao que podemos fazer, sem nos desconectarmos da nossa própria vida.

Como ajudar alguém que está passando por isso?

O primeiro passo é não minimizar o motivo de sua sintomatologia e entender que estamos expostos a uma realidade que é muito difícil de gerenciar. A partir daí, estabelecer uma primeira etapa de compaixão absoluta, sem julgar nem por um minuto. Depois, vem o que se faz em todos esses processos: perguntar o que a pessoa precisa e como você pode apoiá-la. E é a própria pessoa que deve conduzir esse processo de escuta interna e ver o que precisa de você como alguém que a acompanha.

Há algo na ecoansiedade que possa ser transformado em uma força para superá-la?

Posso estar influenciada, mas tenho a sensação de que as pessoas que chegam com sintomas ansiosos ou depressivos, devido à consciência da emergência climática, têm uma capacidade de aprofundamento que funciona como um fator de proteção quando começamos a terapia, pois já chegam com um trabalho feito.

Há uma grande capacidade de olhar para si, de introspecção, que não vejo em muitas outras pessoas que vêm por outros temas. Parece-me que isso beneficia o processo, embora, por outro lado, seja o mesmo fator que as faz sofrer tanto em alguns contextos.

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