Leão XIV e as bênçãos de casais homoafetivos: entre caminhos a seguir. Artigo de Luís Corrêa Lima

Foto: Marc Bruxelle/Canva

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28 Mai 2026

"Como então celebrar dignamente esse dom do amor? O que mais deve ser feito para que pessoas LGBTQ+ se sintam em casa dentro da Igreja?", escreve Luís Corrêa Lima, padre jesuíta, professor da PUC-Rio e autor do livro Teologia e os LGBT+, em artigo publicado por Contém Amor, 20-05-2026.

Eis o artigo.

A sucessão do papa Francisco e os possíveis rumos da Igreja Católica em relação aos LGBT+ eram motivos de expectativa e apreensão para muitas pessoas. Pouco antes de completar um ano de pontificado, Leão XIV apresentou indicações claras do caminho que deseja percorrer. Ele foi perguntado sobre a decisão do arcebispo de Munique de permitir a bênção de casais do mesmo sexo em sua diocese, e sobre como preservar a unidade da Igreja em meio às divergências existentes, especialmente na África.

A resposta do papa foi que a unidade ou a divisão da Igreja não deveriam girar em torno de questões sexuais. Acrescentou que, quando a Igreja fala de moralidade, tende-se a pensar que o único tema moral é o sexual, mas na realidade existem questões muito mais amplas e importantes, tais como a justiça, a igualdade, a liberdade de homens e mulheres e a liberdade religiosa, que devem ter prioridade sobre essa questão específica. Sobre os bispos alemães, Leão XIV disse que a Santa Sé já falou com eles, deixando claro que não concorda com as bênçãos formais de casais homossexuais indo além do que foi permitido pelo papa Francisco.

Leão XIV se referia à Declaração Fiducia Supplicans, que autoriza a bênção espontânea e não formal desses casais. Ele lembrou a conhecida expressão de Francisco “todos, todos, todos”, manifestando que na Igreja todos são bem-vindos; todos são convidados a seguir Jesus e a procurar a conversão em suas vidas. Ponderou, no entanto, que ir mais longe no tema pode causar mais desunião do que unidade na Igreja, e que devemos procurar construir a unidade com base no que Jesus Cristo ensina (aqui).

Pelas normas da Igreja, é possível abençoar casais do mesmo sexo, mas apenas as pessoas, não a sua união. Por essa razão se faz uma bênção não litúrgica, espontânea, em que o ministro religioso não usa paramentos e nem utiliza um livro-texto, a fim de distingui-la do sacramento do matrimônio. O Vaticano não quer que bispos locais legislem sobre este tema, indo além do documento papal.

Convém lembrar que, em 2021, estas bênçãos foram simplesmente proibidas. A Declaração de Francisco foi uma mudança que as tornou possível através do modo não litúrgico. Agora a questão se coloca mais à frente, sobre legislar ou não sobre as bênçãos. O retrocesso está fora de questão. Embora o papa tenha se manifestado contra a posição de alguns bispos alemães, não disse que vai puni-los ou fazer alguma intervenção. Da parte dele, não quer ir além por causa das divisões geradas por este tema. Sabe-se que há oposições públicas às bênçãos em vários países, especialmente na África e no Leste europeu.

As ações e palavras de Francisco abriram caminhos a seguir. Em 2019, o Vaticano publicou um documento sobre antropologia bíblica, em que se fala de uma compreensão nova e mais adequada da pessoa humana, aventando a possibilidade de uma acolhida das uniões homossexuais como expressão legítima e digna do ser humano. Neste documento, são analisados os textos da Bíblia usados para condenar a prática da homossexualidade, incluindo aqueles mencionados no Catecismo da Igreja Católica (Gn 19,1-29; Rm 1,24-27; 1Cor 6,10; 1Tim 1,10). A análise traz uma interpretação diferente, não condenatória. Sem base bíblica para condenação, torna-se então necessário rever essa doutrina.

Em entrevista autobiográfica publicada em 2024, Francisco se refere aos que vivem em uniões do mesmo sexo como os que vivem “o dom do amor”. E acrescentou: “assim como Jesus ia ao encontro das pessoas que viviam à margem, nas periferias existenciais, é isso que a Igreja deve fazer hoje com as pessoas da comunidade LGBTQ+, muitas vezes marginalizadas dentro da própria Igreja: fazê-las sentir-se em casa”.

Como então celebrar dignamente esse dom do amor? O que mais deve ser feito para que pessoas LGBTQ+ se sintam em casa dentro da Igreja? Tudo isso não é simples, dadas as dimensões e a complexidade da Igreja Católica. Mas, se todos são chamados à conversão e a buscar a unidade com base no que Jesus ensina, estas são tarefas imprescindíveis.

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